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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O antídoto contra o bolsonarismo para 2022

O presidente Jair Bolsonaro em evento em igreja em Brasília - Anderson Riedel/PR
O presidente Jair Bolsonaro em evento em igreja em Brasília Imagem: Anderson Riedel/PR
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

12/10/2021 14h52

* Cesar Calejon

Enquanto doença social que acometeu o país a partir de 2018, o bolsonarismo ascendeu com base no ódio, na ignorância e na negação da política institucional por parte de uma ampla parcela da população brasileira. Visando o pleito presidencial de 2022, Jair Bolsonaro tentará reeditar a fórmula trágica que o conduziu à chefia do Poder Executivo e, para frear a destruição em curso, faz-se necessária a elaboração de um antídoto capaz de enfrentar o bolsonarismo pela sua raiz.

Essa composição deve ser formada por cinco conceitos fundamentais, que pretendo explanar nesse artigo: a fomentação do (1) pensamento crítico para disseminar os parâmetros basilares das áreas de (2) Economia Política e (3) Direito constitucional e fortalecer o (4) combate ao descrédito da política (institucional e social) brasileira por meio da (5) democratização dos veículos de imprensa.

Etimologicamente, o termo "crítica" provém do grego kritik e significa "a arte de julgar". Para os meus propósitos neste raciocínio, contudo, o pensamento crítico não traduz o ato de emitir juízos de valor sobre nenhum tema, mas, fundamentalmente, significa: (a) ser capaz de questionar quaisquer ideias ou raciocínios com base em (b) dados materiais (materialidade referente à determinada questão) para (c) entender a dinâmica do funcionamento de certo sistema ou princípio e qual é a sua função/posição nesse contexto.

Com a definição do que significa pensamento crítico bem estabelecida, podemos avançar ao próximo passo, que trata da Economia Política. Por definição, essa disciplina lança luz sobre os processos de produção, circulação, consumo e acumulação de bens materiais e serviços (tudo o que se produz, em última instância) e das relações humanas que se formam a partir desse ponto.

Ao fim e ao cabo, a Economia Política oferece elementos (teórico-metodológicos) para que as pessoas compreendam, por exemplo, por quais vias o ministro da Economia pode lucrar milhões de dólares em decorrência de uma desvalorização cambial que, no Brasil, tem empurrado milhões de famílias para a pobreza.

Ou seja, no atual modo de reprodução do capital no começo do século XXI, a Economia Política é o ponto nevrálgico para se compreender o modelo de sociabilidade que rege as nossas vidas e que permitiu a ascensão de um movimento tão execrável quanto o bolsonarismo.

Em seguida, o Direito Constitucional é a matéria por meio da qual se analisa, interpreta e, por fim, se garante o cumprimento da Constituição Federal (1988), provendo as normas que deverão regulamentar e delimitar o poder do Estado, a fim de se garantir o cumprimento dos direitos considerados fundamentais. Simplificando: trata-se de explicar às pessoas como a República na qual elas habitam funciona, quais são os direitos e os deveres dos seus cidadãos e quais são as implicações de burlar os seus deveres, mas, sobretudo, de também não exercer os seus direitos, seja você um trabalhador comum ou o presidente do país.

O quarto e o quinto itens citados neste artigo estão intrinsecamente correlacionados. O descrédito da política nacional se deu por conta dos frequentes ataques midiáticos que foram realizados contra o governo de Dilma Rousseff, de forma mais sistemática, a partir de junho de 2013. Visando desidratar o governo, alguns dos principais veículos hegemônicos de comunicação social, que operam por meio de concessões públicas e que, portanto, deveriam atender aos interesses da população, acabaram por acertar a política institucional e, o que é ainda mais grave, a política social do país.

O retrato do desgaste da política institucional (representativa) pode ser notado nas conversas cotidianas, durante as quais, frequentemente, as pessoas afirmam que a política e os políticos não servem para nada e são todos corruptos. Pode até ser verdade, mas, infelizmente nesse caso, a democracia representativa foi o meio menos deletério à vida social que nós encontramos até hoje para organizar sociedades civis complexas como as que existem atualmente.

A degradação da política social pode ser sentida nos ambientes coletivos, tais como no trânsito, nos supermercados, nas ruas em geral e até nas partidas de futebol, com jogadores chutando a cabeça de árbitros caídos no chão. Um nível de agressividade e violência sem precedentes. A população não se armou única e exclusivamente com armas, mas os espíritos também foram acirrados e a imprensa desempenhou um papel central neste processo.

Recentemente, por exemplo, uma grande emissora de televisão deu espaço a uma jornalista estrangeira que acusou ex-presidentes brasileiros, sem nenhuma prova de qualquer natureza ou sequer direito de resposta concedido aos acusados, de envolvimento com o narcotráfico. Em qualquer democracia moderna, atos dessa ordem são impensáveis. A quem esse tipo de ataque leviano e criminoso interessa?

Dessa forma, esse último aspecto do antídoto contra o bolsonarismo para 2022 é tão importante quanto os outros quatro mencionados. Evidentemente, o jogo político acontece com base no embate de narrativas muitas vezes antípodas, mas os veículos de comunicação não podem simplesmente se comportar como partidos políticos que visam lucrar com a ascensão ou a derrocada de certos candidatos ao custo de fomentar a ignorância e o ódio junto à população que as suas concessões para operar pretendem informar e esclarecer.

* Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter) e Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL