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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ciro lança pré-candidatura com desafio de atrair direita e esquerda

Ciro Gomes lança candidatura à presidente na sede do PDT - Reprodução/Canal do YouTube do PDT
Ciro Gomes lança candidatura à presidente na sede do PDT Imagem: Reprodução/Canal do YouTube do PDT
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

24/01/2022 02h44

* Raul Galhardi

O ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) lançou oficialmente sua pré-candidatura à presidência da República na última sexta-feira (21), um dia antes da comemoração do centenário de Leonel Brizola, com um discurso centrado em políticas econômicas e em críticas ao modelo econômico vigente no país que, segundo ele, perdura desde o governo Collor até hoje.

Entre suas propostas, prometeu abolir o teto de gastos para destravar investimentos públicos, revisar a reforma trabalhista, tributar lucros e dividendos "dos ricos", taxar grandes fortunas e mudar a política de preços da Petrobras. Atacou Lula (PT), Bolsonaro (PL) e, especialmente, Sergio Moro (Podemos).

"Este desmonte — e repetição do mesmo modelo — já vem de muito tempo. Collor escancarou a porteira, Fernando Henrique preparou a mesa do banquete e Lula condimentou melhor os pratos. Depois de servir cerimoniosamente os tubarões, Lula distribuiu, com compaixão de filantropo, as sobras para os mais pobres", disse o pré-candidato.

O símbolo máximo deste período, para o ex-ministro, é o chamado "tripé macroeconômico", baseado em metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário, que para ele "deveria ter sido uma solução temporária, e de transição, mas que permanece até hoje, proibindo o país de crescer".

Sobre o teto de gastos, afirmou: "O orçamento da União é de R$ 4,8 trilhões. Mas só se discute e controla R$ 1,8 trilhão, que é o dinheiro da saúde, da educação, da infraestrutura. Já os R$ 3 trilhões de despesas com juros, amortização e renegociações correm soltos para as mãos dos banqueiros. Correm tão sem limite como a falta de vergonha dos que defendem tamanho absurdo".

Para aumentar a receita, Ciro promete taxar grandes fortunas, tributar lucros e dividendos "dos ricos" e cortar 15% dos incentivos fiscais, gerando assim um ganho de arrecadação estimado em R$ 93 bilhões.

"Reafirmo (...) que modificarei a estrutura tributária para acabar com a pouca vergonha e a injustiça do pobre e da classe média pagarem mais impostos do que os ricos, e para poder desonerar compensatoriamente a produção, de forma seletiva e bem planejada, acabando com o festival de desonerações sem controle e sem retorno. (...) Podem tremer de medo os apenas 50 mil privilegiados deste sistema injusto de impostos! E podem vibrar de esperança os mais de 210 milhões de brasileiros que serão beneficiados", declarou.

Ele anunciou que resolverá o problema de endividamento "de mais de 60 milhões de brasileiras e brasileiros, prisioneiros do SPC e do Serasa" e provocou: "Podem tremer de medo as cinco ou seis famílias de banqueiros e os poucos milhares de especuladores que lucram com isso".

Ao tratar do aumento dos preços de combustíveis, Ciro disse que mudará a atual política da Petrobras e afirmou que, com a gasolina mais barata, milhões de compatriotas poderão gritar "o petróleo é nosso", lembrando a frase do ex-presidente Getúlio Vargas. Entre outras propostas, disse ainda que implantará o "Programa Renda Mínima Universal Eduardo Suplicy", que englobará os pagamentos feitos pelo Auxílio Brasil, o Seguro Desemprego e a Aposentadoria Rural.

Ataques a Lula, Bolsonaro e Moro

Em um dos momentos de ataques a Lula, Bolsonaro e Sergio Moro, afirmou: "Dizem que se mexermos no que aí está virá o caos, quando, na verdade, o caos virá se deixarmos tudo caminhar no rumo que eles traçaram. A formulazinha hipócrita da falsa 'paz e amor' é a mais descarada forma de servidão e corrupção que já inventaram. Quem primeiro importou isso para o Brasil foi Fernando Henrique; e depois Lula o imitou de forma ostensiva e desavergonhada".

Para o pré-candidato, "tantos erros, enganação e manipulação grosseira só poderiam resultar nessa tragédia que é o governo Bolsonaro". E questionou: "Seria mesmo nosso destino cair nas mãos de uma direita obscurantista e criminosa, como a de Bolsonaro, que piorou tudo, mas que não pode ser condenada isoladamente?".

Ciro foi particularmente impiedoso ao tratar de Sergio Moro, que não considera "um adversário político", mas um "inimigo da República" o comparando a Bolsonaro. Chamou Moro de "lambe-botas de Bolsonaro" e responsabilizou o ex-juiz por ter favorecido a eleição da extrema direita "ao tirar Lula da disputa eleitoral em 2018".

"Ele não cansa de transformar farsa em heroísmo. Agora quer se fantasiar de candidato sem ter nenhum preparo para lutar. Estou denunciando com especial preocupação como tentei denunciar lá atrás sobre o Bolsonaro. Estou tentando advertir que há um inimigo da República, e não um adversário político, tentando subtrair a liberdade do povo brasileiro", afirmou.

"Moro faz de tudo para esconder a prova cabal de seu fracasso, da sua parcialidade e de sua incompetência. O fato de ter contribuído, ao mesmo tempo, para a eleição de Bolsonaro — ao tirar Lula da disputa em 2018 — e de Lula estar agora apto a concorrer, porque, como juiz parcial, transformou um processo técnico em panfleto político. Hoje seu currículo é um rosário de vergonhas: foi 'lambe botas' de Bolsonaro, é juiz condenado por suspeição e está sendo investigado por ter virado sócio do escritório estrangeiro que administra a massa falida da Odebrecht e da OAS, empresas que ele condenou e ajudou a quebrar", disse ainda.

Obstáculos à candidatura de Ciro

A contratação em abril de 2021 do marqueteiro João Santana, que trabalhou nas campanhas vitoriosas de Lula (2006) e Dilma Rousseff (2010 e 2014), para atuar na campanha de Ciro ainda não parece ter surtido muitos efeitos. Apesar de ser o único candidato até o momento que possua um projeto de país bem definido, publicado inclusive em livro, as pesquisas de intenção de voto para presidente não têm revelado um bom cenário para Ciro.

De acordo com a última pesquisa PoderData realizada entre 16 e 18 de janeiro, Lula parece com 42% das intenções de voto no 1º turno, enquanto o ex-ministro aparece com apenas 3%, sendo ultrapassado pelo seu principal rival na "terceira via", o ex-juiz Sergio Moro (8%).

Antes da entrada de Moro na disputa, Ciro almejava assumir o lugar de Bolsonaro em uma eventual disputa de segundo turno com o ex-presidente Lula. Por isso, embora mantivesse seus ataques ao presidente, intensificou a artilharia contra o petista, a quem chegou a chamar de "maior corruptor da história brasileira" em entrevista ao Valor Econômico. Com a entrada de Moro dividindo ainda mais a "terceira via", agora Ciro parece ter voltado suas baterias contra o ex-juiz, com quem disputa a posição de principal nome antibolsonaro e antilula.

Há a possibilidade, no entanto, de que Moro desista de sua candidatura à presidência e passe a disputar uma cadeira no Senado, caso sua candidatura não se torne competitiva. Sua possível aliança com o União Brasil, partido em processo de formação resultado da fusão entre DEM e PSL, ainda é incerta, pois depende de acordos regionais e encontra resistência especialmente no Nordeste, principal reduto eleitoral de Lula.

Outros pré-candidatos, como Rodrigo Pacheco (PSD), Simone Tebet (MDB) e Alessandro Vieira (Cidadania) não devem chegar a tornarem-se candidatos de fato. Entretanto, há pouco espaço para crescimento no campo da "terceira via". Ciro possui a difícil missão de conquistar a maioria dos eleitores "nem-nem" (aqueles que não votam nem em Bolsonaro, nem em Lula), que hoje somam 29% das intenções de votos estimuladas se incluirmos os brancos, nulos e indecisos, de acordo com pesquisa do PoderData.

Bolsonaro ainda tem o seu eleitorado fiel, que nas últimas pesquisas estimuladas tem oscilado entre 20% e 30% do eleitorado, e deverá manter a maior parte desse público. Lula, por sua vez, abocanha a maioria dos eleitores que rejeitam o atual governo e, em uma eleição sob o signo da mudança e não da continuidade, como tudo indica que será a de 2022, torna-se difícil que um outro candidato consiga trazer para si esse voto de mudança hoje associado ao ex-presidente petista.

De acordo com pesquisa Genial Quaest/Genial feita entre 6 e 9 de janeiro, Lula possui 27% dos votos espontâneos, quando o nome dos pré-candidatos não é sugerido aos eleitores e que simbolizam aqueles eleitores que têm mais certeza do seu voto, enquanto Bolsonaro possui 16%. Os indecisos, por sua vez, representam 52% dos votos, o que poderia sugerir que ainda há esperança para candidatos que almejam se tornar uma opção ao eleitor entre Lula e Bolsonaro.

Porém, Ciro é o único candidato da "terceira via" que possui um projeto de centro-esquerda em uma eleição ainda marcada pelo signo da direita, a ver pela quantidade de pré-candidatos por esse espectro ideológico e quase ausência de nomes pela esquerda; pelo ainda relevante apoio a Jair Bolsonaro; e pela inflexão de Lula ainda mais ao centro do que de costume ao cogitar Geraldo Alckmin (sem partido) para sua vice candidatura.

Esse isolamento político-ideológico de Ciro é perceptível, também, na carta em defesa da democracia divulgada no aniversário do golpe militar em março do ano passado. Nela assinaram os pré-candidatos à presidência na época Eduardo Leite (PSDB), João Amoedo (Novo), João Doria (PSDB), Luiz Henrique Mandetta (DEM), Ciro e o apresentador de televisão Luciano Huck. Entre todos, o ex-governador é o único de alinhamento claramente antiliberal.

Essa posição do ex-governador incomoda tanto os empresários quanto a chamada "mídia tradicional", que normalmente tende a apoiar candidatos de verniz mais liberal, e os militares, que voltaram a atuar diretamente na vida política do país e que também apoiam políticas econômicas de cunho liberal, perceptível seja pela presença dos fardados no governo Bolsonaro, cujo ministro da Economia é Paulo Guedes, seja pelo apoio a Moro, que tem como seu principal conselheiro econômico Affonso Celso Pastore, que integrou a equipe do Ministério da Fazenda na gestão de Delfim Netto durante o regime militar e que foi presidente do Banco Central durante o governo Figueiredo, último mandatário do regime.

Portanto, Ciro é visto com desconfiança tanto pela direita e centro-direita, que possui uma visão menos intervencionista da economia, quanto pelos eleitores de esquerda, especialmente petistas, que atacam o ex-governador desde as eleições de 2018 e condenam os ataques de Ciro a Lula, visto como a maior liderança de esquerda do país que teria uma maior chance de tirar Bolsonaro da presidência.

Não é, portanto, trivial o desafio que Ciro possui à sua frente. Dotado de um projeto nacional de desenvolvimento de cunho intervencionista, ele precisa atrair eleitores de direita e esquerda ao mesmo tempo que ataca Sergio Moro, Bolsonaro e Lula, os principais nomes desses espectros ideológicos.

Chapa "Cirina"

Há alguns dias foi levantada a hipótese de uma chapa "Cirina" à presidência (união dos nomes de Ciro com o de Marina Silva, ex-candidata ao cargo pela Rede Sustentabilidade). Apesar da possibilidade ter empolgado as bases ciristas, é difícil que ela se concretize. Nesse tópico, torna-se um obstáculo a questão das federações partidárias, espécie de aliança a longo prazo que ajuda os partidos a vencerem a cláusula de barreira, mas que os vincula por pelo menos quatro anos. A Rede cogita estabelecer uma federação com o PSOL, que por sua vez tende a apoiar Lula na corrida presidencial.

Portanto, se a Rede aprovar a criação de uma federação com o PSOL, ela não poderá se aliar a Ciro. A ideia de federação encontra apoio no senador Randolfe Rodrigues (Rede), que deseja ser candidato ao governo do Amapá e prefere apoiar Lula para contar com o apoio do PT.

Soma-se a essa questão outro problema que é a presença de João Santana na campanha pedetista. Foi ele quem coordenou a campanha de Dilma à reeleição em 2014 quando Marina sofreu ataques ferozes dos petistas, que chegaram a veicular uma propaganda eleitoral alegando que, se a independência do Banco Central, na época defendida por Marina, chegasse a ocorrer, faltaria comida nas mesas dos brasileiros. Como o próprio presidente do PDT, Carlos Lupi, já disse que João Santana não deverá sair da campanha de Ciro, configura-se, portanto, mais um obstáculo a uma chapa "Cirina".

O fato é que o cenário eleitoral não é favorável nem a Ciro e nem a nenhum candidato da "terceira via". No entanto, como a maioria dos hoje pré-candidatos nesse campo não deverão disputar de fato o cargo de presidente, pode ser que isso crie uma chance para o ex-ministro, que precisaria reunir em torno de sua candidatura todos aqueles que não desejam ver uma continuidade de Bolsonaro nem um retorno a Lula, uma tarefa hercúlea.

Se Bolsonaro elegeu-se em 2018 contra a quase totalidade das previsões de analistas e estudiosos políticos, pode ser que, novamente, tenhamos uma surpresa nessas eleições. Porém, uma série de fatores parece indicar que a eleição de Bolsonaro foi algo atípico na histórica política brasileira e que, dificilmente, algo muito fora do provável ocorreria novamente. Porém, embora a realidade não canse de surpreender, isso é tema de uma outra análise.

* Raul Galhardi é jornalista e mestre em Produção Jornalística e Mercado pela ESPM-SP