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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Elza Soares e Olinda Bolsonaro simbolizam um Brasil em busca de união

Elza Soares, fotografada em sua casa em Copacabana por Zeca Camargo, em maio de 2018 - Zeca Camargo/Arquivo Pessoal
Elza Soares, fotografada em sua casa em Copacabana por Zeca Camargo, em maio de 2018 Imagem: Zeca Camargo/Arquivo Pessoal
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

24/01/2022 12h13

* Vinícius Rodrigues Vieira

Num intervalo de menos de 24 horas, duas senhoras nonagenárias nos deixaram. A trajetória e origem de ambas se confundem com os elementos que formaram o Brasil atual. A cantora Elza Soares, a voz do milênio segundo a BBC, partiu aos 91 anos em 20 de janeiro. Veio do planeta fome para edificar, contra tudo e todos, mais de 70 anos de carreira entre altos e baixos e partir no auge. Mãe do atual presidente da República, Olinda Bolsonaro se foi aos 94 anos no dia seguinte. Duas mulheres, duas mães, duas avós — representantes dos Brasis que precisam encontrar um mínimo denominador comum caso queiramos ter algum futuro.

Antes de prosseguir, nossos mais sinceros sentimentos às famílias enlutadas. Ademais, cabe esclarecer que o Brasil de Olinda não é o mesmo empreendido por seu filho na presidência. Esqueça enquanto ler as linhas abaixo a política pequena, com pê minúsculo, partidária, preocupada apenas com o próximo ciclo eleitoral e a satisfação de bolsos ávidos por dinheiro público.

Acima dela, está a construção de um país e, portanto, a política com pê maiúsculo, sem ingenuidade, mas grandiosa, pois reflete o que é um povo e se preocupa com os que haverão de vir para manter a nação edificada ao longo das próximas décadas — quiçá séculos e milênios.

Quem odeia Bolsonaro talvez pense, num primeiro momento, que a comparação pode engendrar justificativas para seu descalabro presidencial. Quem o ama e odiava Elza pode se sentir ofendido em ver a mãe do presidente e a cantora no mesmo texto, pois a última representa quase tudo que o bolsonarismo combate — o ativismo de minorias sociológicas, principalmente negros, mulheres e a comunidade LGBTQIA+.

Os fãs de Elza, por sua vez, quiçá se sintam incomodados ao vê-la comparada com uma anônima, a mãe daquele que causa ojeriza entre os progressistas. Ambas são, porém, exemplos de seu tempo nos meios sociais dos quais eram originárias.

Autodenominada "a mulher do fim do mundo", Elza representa o Brasil dos marginalizados, dos negros sequestrados da África e escravizados, usados e descartados pelos colonizadores e cujos descendentes perfazem a maioria dos miseráveis nestas terras prenhes de elites tacanhas.

Olinda era a matriarca de uma família de origem europeia, da força dos migrantes que, para escaparem do destino miserável do Velho Mundo, atravessaram o Atlântico para serem lavradores, operários e comerciantes pobres cujos descendentes compõe a maior parte das classes média e alta do país.

Nascida e criada no Rio de Janeiro, Elza era — e para sempre será — a resistência dos quilombos e mães solteiras, das Marias da Penha violentadas, dos cortiços e favelas das grandes metrópoles, a padroeira dos que fogem do planeta fome com força e fé e se recusam a ser a carne mais barata cujo sangue forja as riquezas das elites.

Elza, que transitou entre vários credos ao longo da vida, ficou viúva cedo, perdeu seus dois de seus oito filhos ainda recém-nascidos por causa da desnutrição. Oriunda do interior de São Paulo, a católica Olinda viveu com seu marido e criou seis filhos em cidades dependentes sobretudo de atividades primárias.

Ambas testemunharam, na infância, o Brasil herdado da República Velha transformar-se em uma sociedade urbana e semi-industrializada que já chegou a figurar entre as dez maiores economias do mundo e hoje vive um declínio que muitos temem ser irreversível. Vivenciaram pouco mais de meio século de democracia, se somarmos os períodos entre 1946 e 1964 e de 1985 até hoje. Não tiveram tempo para ver a redução das desigualdades e o Estado tratar como cidadãos de fato todos os filhos deste solo.

Para atingir tal objetivo, o Brasil de Olinda precisa dar as costas à Casa Grande e se reconciliar com o de Elza. Tal caminho depende de entender a diferença entre pobreza e miséria e, assim, construir laços de solidariedade entre os que enfrentam ou enfrentaram as duas. Empatia é palavra fácil, mas de raras consequências.

De fato, as estatísticas eleitorais de 2018 são inequívocas: votaram predominantemente em Jair Bolsonaro os eleitores das regiões do Centro-Sul, principalmente aquelas dominadas pelo agronegócio e cujos habitantes se autodeclaram brancos — e, presume-se, são descendentes em grande parte dos migrantes e colonizadores europeus. É o Brasil que era pobre há quase 100 anos e que, hoje, enriqueceu em parte. Neste eleitorado pode estar o núcleo duro do bolsonarismo, mas sua maioria jamais será cativa de qualquer candidato.

O Brasil de Elza, por sua vez, está não apenas na periferia das grandes cidades predominantemente, mas também nos rincões que lidam com a miséria rural, sobretudo no Nordeste e no Norte. Mais do que qualquer outro estrato social, este foi sempre preterido nas grandes decisões acerca do futuro nacional. Qualquer paz futura não pode prescindir de sua voz.

Desconheço detalhes da vida de Olinda para mencionar exemplos de reconciliação que a envolvam, embora certamente eles existam. No caso de Elza, a passagem que melhor ilustra a inevitabilidade do perdão para que todos sigam em frente está no tratamento cordial que ela dispensou aos sequestradores de sua filha Dilma, nascida em 1950 e reencontrada apenas 30 anos depois.

Honremos, assim, as Elzas e Olindas, matriarcas dos múltiplos Brasis que habitam estas terras. Não tenho dúvidas que ficariam orgulhosas caso suas proles viessem a construir e compartilhar um país, de fato, em vez de apenas serem um aglomerado de indivíduos que se toleram de tempos em tempos e se combatem durante a maior parte do tempo. Deixo vocês com Elza cantando as estrofes finais de "O que se cala", do álbum "Deus é Mulher", de 2018: "Nosso país, nosso lugar de fala".

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em relações internacionais por Oxford e leciona na Faap e em cursos MBA da FGV.