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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Datafolha demonstra que estratégia de campanha lulista está funcionando

Lula em entrevista à rádio de Campinas (SP) - Ricardo Stuckert/Divulgação
Lula em entrevista à rádio de Campinas (SP) Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

26/05/2022 21h30

* Cesar Calejon

Ao longo dos últimos meses, diversas críticas foram feitas à campanha de Lula considerando as eleições de outubro. Entre elas, analistas apontaram, principalmente, que o ex-presidente e o PT deveriam fugir da guerra cultural levada adiante pelo bolsonarismo e focar no debate material sobre a tragédia socioeconômica do atual governo. A quatro meses da eleição, a nova pesquisa Datafolha demonstra que a abordagem do petista funcionou.

Neste momento, segundo o maior instituto de pesquisa do país, a margem de diferença entre Lula e Bolsonaro ultrapassa a marca de 20% e o ex-presidente aparece como franco favorito a vencer a contenda. Ao que tudo indica, talvez ainda no primeiro turno.

Evidentemente, há muitos outros aspectos que devem ser ponderados para explicar o sucesso da campanha de Lula: a indicação de Geraldo Alckmin para vice, a formação da federação partidária entre PT, PSB, PV e PCdoB, o apoio de figuras importantes do PSOL e de outros partidos que se identificam com as pautas progressistas e a habilidade de Lula de se comunicar com parte do empresariado nacional.

Contudo, o aspecto nevrálgico desta equação gira ao redor da resiliência que o ex-presidente, decididamente, apresenta. Característica que falta ao seu principal rival e atual mandatário Jair Bolsonaro.

Lula pode ser teimoso, incisivo e gostar de improvisar, talvez até demais. Apesar disso, ele é capaz de escutar as pessoas que o cercam e nas quais ele confia para fazer ajustes e correções de rota, como, por exemplo, evitar declarações sobre o aborto e retirar o ex-juiz Sergio Moro do centro de seus discursos.

Na última ocasião, quando Moro virou réu em ação do PT por conta dos prejuízos que foram causados pela Lava Jato, Lula limitou-se a dizer que esperava que o ex-ministro bolsonarista tivesse o direito de justa defesa que lhe fora negado pelo mesmo anos antes.

Neste sentido, a campanha bolsonarista segue na direção oposta. Incapaz de mudar a sua postura minimamente, Bolsonaro depende da radicalização da sua base, que segue encolhendo frente às adversidades econômicas e ao crescente nível de violência vigentes no Brasil atualmente.

Neste ritmo, as chances de Lula ser eleito ainda no primeiro turno crescem na mesma proporção em que se mantêm a ignorância e falta de resiliência do atual presidente da República.

* Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter), Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente) e Sobre Perdas e Danos: negacionismo, lawfare e neofascismo no Brasil (Kotter).