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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Biden usa Bolsonaro para driblar esvaziamento da Cúpula das Américas

Jair Bolsonaro - Gabriela Biló/Folhapress
Jair Bolsonaro Imagem: Gabriela Biló/Folhapress
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

06/06/2022 09h35

* Cesar Calejon

Começa hoje (6), em Los Angeles, nos Estados Unidos, a nona edição da Cúpula das Américas, com os líderes de governo dos estados americanos. Este ano, contudo, a organização do evento foi bastante diferente do que se verificou nas reuniões anteriores.

Refletindo a reorganização da geopolítica global, que tem como ponto mais visível o embate entre a Otan e a Rússia, nesta ocasião o encontro correu o risco de ser esvaziado, principalmente considerando a atuação do presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, que afirmou não ter interesse em comparecer caso Cuba, Venezuela e Nicarágua não fossem convidadas.

Sob o comando de líderes de esquerda, Chile, Bolívia e Argentina chegaram a cogitar fazer o mesmo, bem como boa parte dos países caribenhos. Prontamente, ao perceber que o evento organizado em solo estadunidense poderia se tornar uma "cúpula norte-americana", a diplomacia do governo Biden correu no sentido de se aproximar de Bolsonaro para usar o presidente brasileiro e evitar o esvaziamento da reunião.

Durante os anos de seu mandato, Bolsonaro foi amplamente manipulado por alguns dos principais líderes mundiais em troca de, basicamente, uma foto e um aperto de mãos. Com Trump, entre diversas concessões gratuitas, o presidente brasileiro abriu mão da condição de país emergente junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), o que oferecia uma série de vantagens comerciais ao Brasil.

Com Putin, sem nenhuma contrapartida evidente, Bolsonaro foi arrastado a se posicionar ao lado da Rússia durante uma invasão militar a um país vizinho que, por sua vez, está sendo utilizado como bucha de canhão pela Otan contra os russos.

Com Biden, novamente sem receber absolutamente nada em troca, Bolsonaro deverá fazer o papel de presidente trapalhão que serve aos interesses de quem possui mais capital político junto à sociedade internacional em troca de alguns afagos. Ou seja, troca-se a soberania popular brasileira por uma espécie de esmola simbólica.

Biden deverá, ainda, utilizar a conversa com Bolsonaro, que hoje é o líder fraco da segunda maior democracia das Américas, para garantir uma espécie de consenso regional sobre uma nova agenda econômica e um plano para enfrentar a crescente migração.

Nesta medida, deverão ser debatidos os interesses estadunidenses e o que se espera do Brasil para que tais metas sejam alcançadas. Exatamente como fizeram Trump e Putin, por exemplo.

Portanto, ao invés de defender os interesses brasileiros, Bolsonaro desempenhará, novamente, a figura de marionete nas mãos de outro líder internacional.

* Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter), Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente) e Sobre Perdas e Danos: negacionismo, lawfare e neofascismo no Brasil (Kotter).