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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Resistência de Serra ao bolsonarismo merece ser lembrada

José Serra - Rovena Rosa/Agência Brasil
José Serra Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

01/07/2022 18h25

* Vinícius Rodrigues Vieira

O jornalismo não deve ser laudatório. Porém, há momentos cruciais na vida de uma nação em que as exceções se tornam inevitáveis. Esta coluna hoje destaca a coragem do senador José Serra (PSDB-SP) ao se colocar, sozinho, contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que, na prática, permite a Jair Bolsonaro (PL) comprar votos para sua reeleição.

O presidente foi hábil e, mais uma vez, colocou o Senado e as demais instituições da República de joelhos. Quem votasse contra a PEC seria taxado de antipobre, pois qualquer auxílio nesta conjuntura faz diferença entre quem não vive, mas apenas sobrevive dia após dia. O Supremo Tribunal Federal (STF), caso seja provocado a discutir a constitucionalidade da medida, tende a se manter neutro para evitar elevar ainda mais o risco de ruptura institucional.

É verdade que Serra pode se dar ao luxo de ir contra tudo e todos por não disputar a reeleição para o Senado. Os tucanos entenderam que uma candidatura à Câmara seria mais útil ao partido. Para quem acha que as pessoas — em especial detentores de cargos eletivos — apenas agem de modo a maximizar seus interesses imediatos, trata-se de uma leitura válida.

A história de Serra, porém, sugere que as decisões tomadas por homens e mulheres públicas são mais complexas. Ao longo de 40 anos de presença na administração pública, o senador demonstrou grande comprometimento com o interesse nacional. Sempre demonstrou preocupação com a desindustrialização do país, talvez a raiz imediata das tragédias que vivemos.

Ministro de FHC, Serra colocou-se contra o domínio do rentismo nos primeiros anos do Plano Real. Propôs e liderou políticas públicas que beneficiam os mais pobres, como é o caso dos medicamentos genéricos, implementados sob a gestão do atual senador como ministro da Saúde (1998-2002).

Aliás, seu comprometimento com a indústria sem perder o olhar social me leva a compartilhar com o leitor um pensamento de 20 anos que, aos ouvidos esquerdistas e até mesmo centristas, soa herético: em muitos aspectos, Serra teria sido um presidente melhor que Lula e Dilma, para os quais perdeu as eleições de 2002 e 2010, respectivamente.

Sob Lula, o pragmatismo político permitiu que o agronegócio avançasse a ponto de criar as bases para a "desmodernização" da sociedade, com perda da participação da indústria nas exportações e ascensão dos valores conservadores enquanto os pastos bovinos e campos de soja tomavam conta do Brasil. Dilma, por sua vez, representou o último suspiro de um desenvolvimentismo arcaico, projetado sobre os pilares de areia da irresponsabilidade fiscal.

Serra, aliás, embarcou na demagogia conservadora ao abraçar um discurso anti-aborto arcaico na campanha de 2010. Chamado de fascista pela esquerda que hoje louva o ex-tucano Geraldo Alckmin no posto de vice na chapa petista. Serra viu ali a última chance de ser presidente lhe escorrer pelas mãos diante da popularidade de Lula transferida a Dilma.

O senador tucano talvez seja, ao lado da ex-senadora Marina Silva, o melhor presidente que o Brasil não teve. Não caiamos, porém, na falácia de que o povo não sabe votar: faz parte do debate democrático olhar para o passado e pensar nas escolhas diferentes que poderiam ter sido feitas. A democracia tem a virtude de se autocorrigir.

O tempo de Serra passou. Hoje, o instrumento para retirar o bolsonarismo do poder chama-se Lula — ou, melhor dizendo, 'LulAlckmin'. Embora o ex-governador de São Paulo nunca tenha se dado bem com Serra, compartilhou com o senador a pecha de fascista nos embates com o PT.

Para derrotar fascista de verdade, a oposição devia estar unida. As declarações dos presidentes do PT e PDT justificando a submissão a Bolsonaro expressam o amadorismo da oposição ao lidar com o presidente.

Se não permitir sua cada vez mais distante reeleição, a PEC de Bolsonaro vai colocar o próximo governo de joelhos, sem margem de manobra fiscal. Isso será um prato cheio para o bolsonarismo tumultuar o país como oposição a uma muito provável administração Lula-Alckmin, instigando aqueles de estômago vazio a cerrar fileiras com os reacionários liderados pelo capitão et caterva.

A hoje oposição cavou a própria cova de quando for governo a partir de 2023. Paga o preço de ter se acovardado perante a necessidade de impichar Bolsonaro. O fascismo (de verdade) sai caro no bolso, no corpo e na alma.

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em relações internacionais por Oxford e leciona na Faap e em cursos MBA da FGV.