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OPINIÃO

Em ato na Bahia, Bolsonaro paga por falas racistas

02.07.22 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) antes de motociata em Salvador, Bahia; ao seu lado, o ex-ministro da Cidadania, João Roma Imagem: Juliana Almirante
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Entendendo Bolsonaro

Colunista do UOL

02/07/2022 12h35

César Calejon*

Existe um provérbio comum que afirma: "o peixe morre pela boca". De muitas maneiras, esse mesmo raciocínio da sabedoria popular se aplica às campanhas políticas e às reputações dos seus respectivos líderes.

Hoje, a cidade de Salvador reúne os principais presidenciáveis para as comemorações da festa de independência da Bahia. Neste contexto, considerando tudo o que disse ao longo da sua vida parlamentar, mas, sobretudo, no exercício da Presidência da República, Jair Bolsonaro paga caro por suas falas racistas.

Somente durante os últimos quatro anos, Bolsonaro fez diversas declarações extremamente preconceituosas contra o povo nordestino. Ainda em julho de 2019, em café da manhã com jornalistas, o presidente atacou Flávio Dino (PSB), que é governador do Maranhão, e João Azevêdo (PSB), governador da Paraíba. Sem saber que estava sendo gravado, Bolsonaro disse ao então ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que "(...) daqueles governadores de 'Paraíba' [sic.], o pior é o do Maranhão".

Em outra ocasião, o chefe do bolsonarismo, em tom de piada, questionou uma interlocutora: "(...) por que é vantajoso comprar carro na Bahia, Carol? Porque já vem com o freio de mão puxado". Em outro pronunciamento, Bolsonaro também garantiu que "(...) a única coisa boa do Maranhão é o presídio de Pedrinhas".
Mais uma: ao lado do deputado federal Carlos Cajado (PP-BA), que o questionou se ele estaria virando um "cabra da peste", Bolsonaro respondeu que "(...) só tá faltando crescer um pouquinho a cabeça" para gargalhar freneticamente em seguida.

Recentemente, Bolsonaro perguntou se Tarcísio de Freitas teria algum "parente pau de arara". Freitas respondeu que tem "(...) família no Piauí e no Rio Grande do Norte" e Bolsonaro não perdeu a oportunidade de se comportar da forma racista e preconceituosa que lhe é peculiar, ao responder que "(...) com essa cabeça aí, tu não nega não, porra".

Mas as falas racistas de Jair Bolsonaro não foram iniciadas com a ascensão do ex-capitão à chefia do Poder Executivo. Ainda antes de ser eleito, em uma transmissão feita ao lado de Olavo de Carvalho, o então deputado federal afirmou que estava recebendo uns "picaretas" em sua residência.

"Um deles é cearense, um cabeçudo aqui do meu lado também. Porra, eu acho que o estômago é maior do que a cabeça dele. Imaginou como ele come, né?", disse Bolsonaro para, em seguida, rir descontroladamente da sua própria colocação racista.

Em entrevista a uma emissora de televisão, Bolsonaro chegou ao limite de dizer, efetivamente, que "(...) o Bolsa Família é uma mentira. No Nordeste, você não consegue uma pessoa para trabalhar na sua casa. Porque se for trabalhar, perde o Bolsa Família".

"Você vê meninas no Nordeste. Bate a mão na barriga grávida, fala o seguinte, que tem também o auxílio natalidade: 'esse aqui vai ser uma geladeira'; 'esse aqui vai ser uma máquina de lavar'. E não querem trabalhar", complementou.

Evidentemente, nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, que são tradicionalmente mais elitistas e racistas, essas colocações podem soar, em alguma medida, como "piadas" e, até certo ponto, fortalecer a imagem de alguém como Bolsonaro por ser "descontraído", "honesto" ou "espontâneo".

Em Salvador, durante a festa de independência da Bahia, a questão é bem mais complicada. Principalmente, porque Lula, filho de Dona Lindu, cuja história traduz a luta contra a fome, a miséria e o cenário desolador da seca no agreste pernambucano, também está na cidade hoje.

Em 1952, três anos antes de Bolsonaro nascer, ela deixou para trás a fome, a miséria e a morte, em uma jornada que representa a antítese de todas essas dimensões em que o bolsonarismo avança. Durante quase duas semanas, Dona Lindu conduziu a sua família pelo Brasil de carona em um caminhão de "pau-de-arara" até Santos, no litoral de São Paulo.

Desta forma, Bolsonaro viu a sua motociata esvaziada, reclamou da moto que lhe ofereceram e teve que evitar o caminho feito pelo petista. Evidentemente, as falas racistas proferidas ao longo da sua vida política contra os nordestinos lhe custaram caro no dia da Independência da Bahia.

* Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter), Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente) e Sobre Perdas e Danos: negacionismo, lawfare e neofascismo no Brasil (Kotter)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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