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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Renúncia de Johnson expõe limites do uso do populismo pelas elites

07.07.22 - Boris Johnson após anúncio de que deixará liderança do Partido Conservador e, consequentemente, cargo de primeiro-ministro; ele governa até a escolha do seu sucessor - DANIEL LEAL/AFP
07.07.22 - Boris Johnson após anúncio de que deixará liderança do Partido Conservador e, consequentemente, cargo de primeiro-ministro; ele governa até a escolha do seu sucessor Imagem: DANIEL LEAL/AFP
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

07/07/2022 11h23

Vinícius Rodrigues Vieira*

A ascensão e queda do agora demissionário primeiro-ministro britânico Boris Johnson ilustra, à primeira vista, que o uso do populismo de direita pelas elites tem prazo de validade relativamente curto. O Partido Conservador parece ter se enfadado com as diatribes e molecagens de seu ex-líder, que chegou ao poder surfando na onda do Brexit — processo de saída do Reino Unido da União Europeia.

Johnson é a crème de la crème da elite de uma potência decadente, que mobiliza os instintos mais primitivos da população para se manter no poder a todo custo. Graduado em Oxford — um lugar que seria perfeito se não fosse o cheiro de colonialismo que exala do hálito de muitos de seus estudantes —, o conservador construiu carreira no jornalismo como ferrenho opositor ao poder da UE.

Na política, assumiu uma cadeira no Parlamento em 2001 e, entre 2008 e 2016, ocupou o cargo de prefeito de Londres por dois mandatos, tornando-se a principal face conservadora a defender o Brexit, um projeto da elite inglesa saudosa da grandeza imperial e receosa do crescente domínio de Bruxelas e, por consequência, de Berlim e Paris em assuntos internos do Reino Unido.

Deixou o trabalho sujo de concretizar o Brexit nas mãos da colega de partido Thereza May, primeira-ministra entre 2016 e 2019, tendo ocupado o posto equivalente a ministro de Relações Exteriores no gabinete dela. Uma vez no poder, dissolveu o Parlamento e derrotou de modo contundente a oposição trabalhista então liderada pelo esquerdista Jeremy Corbin.

Depois de três anos no poder, deixa Downing Street tendo entregue o Brexit, mas sem as promessas vendidas como ilusões ao eleitorado britânico. Caiu, porém, não pela falta de palavra nessa esfera, mas por conta de uma série de escândalos que incluem o oferecimento de festas e a participação em pelo menos três delas (o chamado partygate) no período de distanciamento social durante a pandemia, a qual ele inicialmente negava e posteriormente quase lhe tirou a vida.

A trajetória de Johnson sugere inicialmente que o populismo de direita, que mobiliza eleitores em torno de pautas xenófobas e da promessa de reconstruir um suposto passado glorioso para recuperar a grandeza da nação, é como a mentira: tem perna curta. Generalizar tal conclusão, porém, requer ignorar duas características do contexto britânico que não se reproduzem em outros três casos ilustrativos da onda política mais relevante deste século: Brasil, sob Jair Bolsonaro; EUA, sob Donald Trump (2017-2021); e Índia, sob o nacionalista hindu Narendra Modi, no poder desde 2014.

Em primeiro lugar, o sistema parlamentarista britânico permite que um líder crescentemente impopular e inábil como Johnson seja substituído do dia para noite desde que perca apoio do partido e/ou da maioria do legislativo. Como os conservadores detêm a maioria absoluta das cadeiras da Câmara dos Comuns —responsável por indicar o chefe de governo —, Johnson tende a ser substituído sem a necessidade de uma nova eleição. Basta que seu partido aponte um novo primeiro-ministro a ser nomeado pela rainha Elizabeth II, que exerce a função de Chefe de Estado.

Fazer isso em sistemas presidencialistas — onde o papel de Chefe de Estado e Governo concentra-se numa única pessoa — demanda um processo traumático chamado impeachment. Na Índia, Modi não cai porque seu BJP — o Partido Nacionalista Hindu —, detém a maioria das cadeiras no parlamento em grande parte graças ao carisma do primeiro-ministro e a um elemento-chave ausente no Reino Unido, mas que está presente no Brasil e EUA: uma revolução religioso-reacionária em marcha.

Tal como Modi na Índia, Bolsonaro no Brasil e Trump nos EUA são expressão do crescente domínio de um determinado segmento religioso na política. Os evangélicos americanos e brasileiros e suas afinidades com elementos de supremacia branca são, nesse sentido, equivalentes aos nacionalistas hindus. Não há nada parecido no contexto britânico, não obstante a existência de ampla xenofobia e racismo no Reino Unido, uma sociedade bastante secularizada.

Com o Brexit resolvido formalmente, mas deixando um rastro de destruição econômica, a manutenção de um populista de direita no poder deixa de fazer sentido, inclusive para as elites que o apoiavam. No entanto, em contextos de mobilização reacionária, fundamentada em interpretações religiosas que desrespeitam minorias, tal movimento político parece encontrar solo fértil para seu enraizamento.

De todo modo, mais do que outsiders, Bolsonaro, Johnson, Modi e Trump são prepostos das elites de seus respectivos países. Na ausência do Parlamentarismo, resta-nos negar ao atual presidente — responsável por uma decadência econômica pior que a britânica — o direito a um segundo mandato nas urnas em outubro.

Diferentemente do Reino Unido, porém, o Brasil ainda tem outro desafio a enfrentar antes do fim do ano: a manutenção da democracia. Pensando bem, nem todas as elites são iguais. Se a britânica ainda exala colonialismo em seu hálito, a nossa não fica muito atrás, com o agravante de fazer ouvidos moucos e olhos cegos aos movimentos golpistas do capitão cujos instintos primitivos imaginavam serem capazes de controlar.

No fim, os limites do populismo de direita são aqueles que as elites e a sociedade em geral toleram a respeito da corrupção da democracia. Em relação a isso, os britânicos demonstram menos leniência que americanos, brasileiros e indianos, cujas esferas públicas foram capturadas por sacerdotes que, ao misturar política e religião, abriram as portas para a tirania da maioria.

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em relações internacionais por Oxford. Leciona na Faap e em cursos MBA da FGV.