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Homenagem a Davi Kopenawa

Kopenawa tem dedicado sua vida à proteção dos direitos, cultura e território Yanomami na Amazônia - Survival International
Kopenawa tem dedicado sua vida à proteção dos direitos, cultura e território Yanomami na Amazônia Imagem: Survival International
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Ailton Krenak (líder indígena e ambientalista), André Singer (cientista político e jornalista), Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (advogado, ex?presidente da OAB-SP), Belisário dos Santos Jr. (advogado, membro da Comissão Internacional de Juristas), Cláudia Costin (professora universitária, ex-ministra da Administração), Fábio Konder Comparato (advogado, doutor Honoris Causada Universidade de Coimbra, professor emérito da Faculdade de Direito da USP), José Carlos Dias (advogado, ex-ministro da Justiça), José Gregori (advogado, ex-ministro da Justiça), José Vicente (reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares), Laura Greenhalgh (jornalista), Luiz Carlos Bresser-Pereira (economista, ex-ministro da Fazenda, da Administração e da Reforma do Estado), Luiz Felipe de Alencastro (historiador, professor da Escola de Economia da FGV/SP e professor emérito da Sorbonne Université), Margarida Bulhões Pedreira Genevois (presidente de honra da Comissão Arns, ex-presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo), Maria Hermínia Tavares de Almeida (cientista política, professora titular da Universidade de São Paulo), Maria Victoria Benevides (socióloga e cientista política, professora titular da Faculdade de Educação da USP), Oscar Vilhena Vieira (jurista, professor da Faculdade de Direito da FGV/SP), Paulo Vannuchi (jornalista, cientista político, ex-ministro de Direitos Humanos), Paulo Sérgio Pinheiro (presidente da Comissão Arns, cientista político, ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos), Sueli Carneiro (filósofa, feminista, ativista anti-racista e diretora do Gelidés), Vladimir Safatle (filósofo, professor do Departamento de Filosofia da USP)

08/12/2020 16h46

A eleição do líder Yanomami Davi Kopenawa como membro colaborador da Academia Brasileira de Ciências (ABC) é motivo de júbilo para a Comissão Arns. Em qualquer entidade científica no mundo, Davi brindará o conhecimento humano com a transmissão de saberes e sensibilidades que melhorariam a vida de todos no planeta. Davi tem sido voz incansável na defesa dos povos indígenas, das florestas que ardem em incêndios criminosos e dos recursos naturais que elas abrigam. Por sua ética e coragem, foi agraciado em 2019 com o Right Livelihood Foundation Award, conhecido como o Nobel alternativo. E, agora, vemos as portas da nossa academia centenária abrirem-se para ele. Congratulamos a ABC pela escolha. E saudamos o grande líder e xamã do povo Yanomami.

Aos leitores deste blog, a Comissão Arns oferece um presente: a íntegra de um testemunho recente de Davi Kopenawa, no qual que ele trata do cerco de garimpeiros e desmatadores na região do seu povo, acuando grupos indígenas isolados, como os Moxihatetea. Este texto foi distribuído, em três idiomas, na 43ª. Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, no início de março deste ano de 2020, em Genebra. Davi participou da sessão e de outros encontros presenciais, ao lado da Comissão Arns e do Instituto Socioambiental.

A invasão do território Yanomami e o risco de morte para os Moxihatetea

Tradução do Yanomami por Bruce Albert, antropólogo

As coisas estão assim. Agora os Brancos não vivem longe de nós. Eles não param de se aproximar. Na cidade vizinha de Boa Vista, chegam em muitos, sem trégua, exortando uns aos outros. Eles dizem entre eles: "Sim, vamos tomar para nós os bens preciosos dos Yanomami. Esses bens ainda não são mercadorias de verdade, porque estão escondidos sob os cascalhos da terra. Mas nós tomaremos essas riquezas, também as árvores da floresta e vamos nos instalar na Terra Yanomami!". É o que os Brancos se dizem e é como eles mesmos se encorajam: "Venham para Boa vista! Eu, governo de Roraima, vou lhes dar trabalho! Vocês não serão mais pobres!". Estas são as palavras deles. Com elas querem trocar seu dinheiro e suas mercadorias. Por isso, os Brancos não param de fixar seu olhar sobre a nossa floresta, todos eles, para tentar se apoderar. Eles dizem: "Sim, nós vamos tirar dinheiro da floresta. Como os Yanomami não sabem de nada, então, são nossas as riquezas". É isso o que os Brancos falam ao encorajar seus trabalhadores a virem para a floresta. "Sim, podem ir! Não tenham medo! Os Yanomami parecem muitos, mas nós é que somos, de verdade! Mesmo que eles ataquem com flechas alguns de nós, ainda somos mais numerosos do que eles! ".

Dizendo esse tipo de coisa, eles crescem por toda a parte, na floresta, nos rios, nas terras. Eles querem pegar o ouro. E como o ouro vale cada vez mais, eles continuam a crescer, sem parar. Eles se dizem: "Sim, agora o valor do ouro está muito alto, então, vamos todos para a terra dos Yanomami!". É assim que eles vão penetrando a floresta por todas as partes, através dos rios, pelos caminhos, com seus aviões e helicópteros. É assim que as coisas estão hoje em dia. Abriram portas de entrada nos cursos da água e também pelos ares. Desmataram para fazer pistas de aterrissagem por toda a parte. E também para fazer novos caminhos na floresta. Na bacia do Rio Apiaú, chegam em grande número. Através o rio Parimiú, também. Eles já foram expulsos de lá, mas voltaram ainda mais numerosos! Há também um outro caminho aberto, que sobe ao longo do Rio Catrimani.

Pelo caminho do Rio Apiaú eles se aproximaram do lugar onde vive o grupo isolado Moxihatetea. Nas nascentes do Rio Apiaú, onde vivem esses povos isolados, começaram a atacar e a destruir a floresta com seus rios. No início, eles estavam trabalhando com as mãos, mas agora usam máquinas. Descem as peças destas máquinas de um helicóptero para, depois, montar tudo no solo. Os Moxihatetea estão vigilantes, eles desejam ficar longe dos Brancos. Eles não conhecem esses garimpeiros e não querem se aproximar deles. Já fugiram algumas vezes, agora não podem mais fugir. Já se transferiram para a floresta profunda, muito longe dos caminhos, e lá ficaram em abrigos provisórios, como quando estavam em expedições de caça, longe de casa. Os garimpeiros então começaram a roubar a comida dos seus jardins - a mandioca, as bananas, as canas de açúcar, e fizeram isso quando as suas provisões de arroz, farinha e latas de conservas estavam esgotadas. Então os guerreiros Moxihatetea atacaram com flechas, mas os garimpeiros, mais violentos, responderam com fuzis. É o que se passou com os Moxihatetea isolados, e eu acho isso muito ruim.

Eles fugiram de novo subindo o rio, mas nessa direção há também garimpeiros instalados no Rio Catrimani, criando obstáculo. Os índios agora estão cercados. Por isso estou falando para defender os Moxihatetea. Eu não conheço as suas casas, assim como vocês também não conhecem. Eu só os vi do céu, pelo avião. Nunca pude visitá-los caminhando, a pé. Nunca nos falamos. É por isso que estou muito preocupado. Todos poderão ser rapidamente exterminados — é o que eu acho.

Os garimpeiros irão matá-los com seus fuzis e suas doenças, a malária, a pneumonia... Os indígenas não têm vacinas de proteção, vão todos morrer.

E não há só eles na terra-floresta Yanomami. Mais além, na região de Erico, vivem outros povos isolados. São como os Moxihatetea. E também, sobre a margem do Rio Catrimani, descendo o rio, nas fontes do Rio Xeriuini, há outros grupos isolados. E ainda num afluente do Rio Arca, no meio. É por isso que lutamos por eles. Estamos angustiados pelo possa acontecer.

Há outros isolados na floresta dos Waimiri-Atroari e há outros em toda a Amazônia! Vivem assim há muito tempo e querem continuar assim! São eles que cuidam verdadeiramente da floresta. São os Moxihatetea e todos os povos isolados da Amazônia que ainda guardam a última floresta. Mas os Brancos não sabem disso, porque eles não compreendem a língua desses povos. Os brancos apenas pensam: "O que eles estão fazendo aqui?" E quando os Brancos chegam, suas epidemias que chegam, também.

É por isso que digo a mim mesmo: "O que pensam os grandes homens brancos? Eles não querem nos deixar viver em paz e em boa saúde? Eles nos detestam, de verdade?". É evidente que nos consideram como inimigos, porque somos outras gentes, somos habitantes da floresta. Fomos criados na floresta da Amazônia, no Brasil, e por isso os Brancos não nos conhecem. Eles se contentam em atacar e destruir nossa floresta como querem. Não é a terra deles, mas, declararam que é. Eles se dizem: "Esta floresta é nossa. Vamos arrancar o ouro do solo, cortar as suas árvores e vamos instalar aqui outros brancos que necessitam de terra, os criadores de gado, os colonos, e vamos então terminar com os Yanomami".

Não é mais o que eles pensam, agora, é verdadeiramente o que eles dizem!

Sobre o presidente do Brasil, nem menciono o seu nome, mas posso dizer para ele: "Como você é o presidente, você deveria nos proteger". Eu já conheço muito bem as palavras deste presidente: "Que venham todos os Brancos que queiram dinheiro, os criadores de gado, os forasteiros, os garimpeiros e os colonos, também. Eu vou dar a eles essa floresta, para terminar com todos os Yanomami, não importa quantos eles sejam, e para que os Brancos se tornem os proprietários. É nossa terra e tudo bem! E assim eu serei o único senhor desta terra!". Essas são as suas palavras. Essas são as palavras daquele que se faz de grande homem no Brasil e se diz Presidente da República. É o que ele verdadeiramente diz: "Eu sou o dono dessa floresta, desses rios, desse subsolo, dos minérios, do ouro e das pedras preciosas! Tudo isso me pertence, então, vamos lá buscar tudo e trazer para a cidade. Tudo deve virar mercadorias!".

É também o que os Brancos se dizem e é com estas palavras que destroem a floresta, desde sempre. Mas, hoje, eles estão prontos para terminar com o pouco que resta. Eles já destruíram os nossos caminhos, sujaram os nossos rios, envenenaram os peixes, queimaram as árvores e os animais que caçamos. Eles nos matam também com as suas epidemias.

Alguns Brancos têm pena de nós, mas não os seus Grandes Homens que afirmam que nós somos animais. Eles dizem: "São macacos, porcos selvagens!". No entanto, são esses homens que não sabem pensar. Eles não sabem trabalhar na floresta, não conhecem seu poder de fertilidade në rope e nem querem conhecer. Não fazem outra coisa do que andar de um lado para o outro destruindo tudo. Eles só conhecem floresta do alto de suas máquinas satélites, que passam sobre as árvores, as nossas casas, os rios, as colinas, a beleza da floresta. Depois, eles chamam uns e outros: "Sim, venham por aqui. Nós todos do Brasil vamos tirar os bens preciosos! Nós vamos acumular tudo isso nas cidades! Nós vamos, de verdade, virar o Povo da Mercadoria! Não seremos mais pobres, vamos ter muitos bens!". É o que eles dizem entre eles. E era isso que eu queria contar aqui. Essas gentes são indiferentes às palavras daqueles que defendem os Yanomami. Mesmo assim, envio essa mensagem.

Gostaria que os Direitos Humanos da ONU possam olhar para nós e nos dar um apoio forte para que as autoridades do Brasil - os políticos dos municípios, dos estados e da capital - todos esses Brancos das cidades, nos respeitem e não nos molestem mais. Que eles compreendam e reconheçam os direitos dos seres humanos, assim como a ONU. Os Direitos Humanos da ONU são construídos para defender os que sofrem. Então, eu gostaria que a ONU faça um bom trabalho, denunciando com muita força o que nos acontece, para que as autoridades do Brasil respeitem os Yanomami, os povos isolados e todos os povos ainda não reconhecidos.

Meu povo tem o direito de viver em paz e em boa saúde, porque ele vive em sua própria casa. Na floresta estamos em casa! Os Brancos não podem destruir nossa casa, senão, tudo isso não vai terminar bem para o mundo. Cuidamos da floresta para todos, não só para os Yanomami e os povos isolados. Trabalhamos com os nossos xamãs, que conhecem bem essas coisas, que possuem a sabedoria que vem do contato com a terra. A ONU precisa falar com as autoridades do Brasil para retirar - imediatamente - os garimpeiros que cercam os isolados e todos os outros em nossa floresta.