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Crise Climática

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Montadoras deixarão América do Sul fora de corrida por carro elétrico

Neymar, durante lançamento do e.wave X, novo carro elétrico da fabricante alemã e.GO Mobile - Reprodução/Instagram
Neymar, durante lançamento do e.wave X, novo carro elétrico da fabricante alemã e.GO Mobile Imagem: Reprodução/Instagram
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Cínthia Leone

Cínthia Leone é ambientalista e divulgadora científica, formada em jornalismo pela Unesp e doutora em Ciência Ambiental pelo PROCAM-USP.

Colaboração para o UOL em São Paulo

19/05/2022 11h00

Esta é parte da versão online da edição desta quinta-feira (12) da newsletter Crise Climática, que discute questões envolvendo a emergência climática, como elas já afetam o mundo e quais são as previsões e soluções para o futuro. Para assinar o boletim e ter acesso ao conteúdo completo, clique aqui.

O percentual de carros elétricos a bateria fabricados na América do Sul até 2029 será de apenas 3%, contra 8% na África, 9% na Índia, 35% nos EUA e 59% na Europa, revela estudo. A estimativa se baseia nos dados de planejamento de produção para esta década das próprias montadoras, e indica que as empresas que estão ficando para trás na corrida tecnológica no setor de transportes são as que mais fazem lobby para frear metas climáticas.

O estudo foi publicado ontem (18) pelo think tank InfluenceMap, que analisa a influência corporativa sobre a política climática em nível global. As conclusões partiram de uma avaliação dos indicadores de produção das doze principais montadoras até 2029 reunidos pela consultoria IHS Markit. Esse desempenho foi comparado ao engajamento climático das empresas e ao cenário de 1,5°C indicado pela AIE (Agência Internacional de Energia).

Segundo a AIE, o mundo só será capaz de alcançar a meta do Acordo de Paris de manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C se ao menos 60% dos novos carros vendidos globalmente até 2030 forem elétricos, com eliminação total de novos veículos a combustão até 2035.

O estudo da InfluenceMap revela que ao mesmo tempo em que há uma relação direta entre a política local para induzir a eletrificação da frota e o planejamento das empresas para produzir veículos elétricos ou híbridos, as montadoras menos avançadas nessa tecnologia fazem lobby para atrasar a criação dessas leis.

"As montadoras parecem estar planejando se concentrar na produção de motores de combustão interna [ICE] na América do Sul, com veículos ICE puros - nem mesmo híbridos", explica Ben Youriev, analista sênior da InfluenceMap.

"Uma razão-chave para isto é a existência de políticas climáticas significativamente menos rigorosas para o setor automotivo em toda a América do Sul, em comparação com regiões como a Índia", avalia. "Globalmente, esta pesquisa destaca como é crucial o papel da regulamentação climática para impulsionar o aumento da produção de veículos elétricos a bateria pelas montadoras."

Todas as doze empresas analisadas para esta pesquisa declararam publicamente seu apoio ao Acordo de Paris. Oito delas pontuaram um 'D+' ou abaixo no sistema de medição A-to-F do InfluenceMap em relação ao compromisso com as metas do acordo. Segundo o estudo, essas montadoras se opuseram estrategicamente às políticas projetadas para regular e/ou eliminar progressivamente os veículos a combustão.

A Toyota é a montadora com a menor pontuação. Tesla (B) é o único fabricante de automóveis considerado como amplamente favorável à política climática alinhada com Paris, representando o claro líder do setor. As três empresas restantes - Volkswagen (C), Ford (C-) e General Motors(C-) - mostram um engajamento climático ambíguo.

"O último relatório do IPCC é claro ao dizer que um rápido crescimento dos veículos elétricos a bateria é fundamental para atingir as metas globais de mudança climática. No entanto, esta pesquisa destaca como os principais fabricantes de automóveis continuam entre os maiores opositores da política climática global.", conclui Youriev.

A eliminação progressiva dos motores a combustão também é essencial para proteger os seres humanos de mortes precoces, segundo a Organização Mundial da Saúde. A entidade estima que a poluição do ar por material particulado gerado principalmente pela queima de combustíveis fósseis é a maior causa de mortes evitáveis no mundo, respondendo por 7 milhões de vidas perdidas anualmente.

E o que mais você precisa saber

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Ciclone Yakecan deve chegar até a costa do Rio Grande do Sul de Sul e de Santa Catarina
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Cadê o aquecimento global?

Sempre que um evento de frio atípico ocorre, é temporada de desinformação climática. Os mesmos negacionistas de sempre misturam "tempo" e "clima" para questionar onde está o aquecimento global enquanto as temperaturas caem. Mas como explica o Observatório do Clima, o frio extremo e fora de época também é um desdobramento esperando em um planeta de clima instável.

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Município de Itamaraju ficou inundado após chuvas e enchentes
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Você conhece?

O guia elaborado pela WWA (World Weather Attribution) para orientar jornalistas sobre a forma adequada de estabelecer relação entre eventos extremos e a mudança climática é útil também para muitos tipos de leitores. O documento traduzido para oito idiomas, inclusive o português, detalha como a ciência do clima evoluiu até o momento atual, quando já é capaz de quantificar a contribuição do aquecimento global provocado pelo homem sobre eventos meteorológicos específicos. Há uma tabela ao final do texto que resume como as alterações do clima global influenciam, de queimadas a nevascas, passando por chuvas extremas, estiagens e ondas de calor ou de frio.

brazil iron - Fernando Martinho/Repórter Brasil - Fernando Martinho/Repórter Brasil
A mineradora inglesa Brazil Iron extrai minério de ferro na região mais alta da Chapada Diamantina, em Piatã, na Bahia
Imagem: Fernando Martinho/Repórter Brasil

Chapada Diamantina

Comunidades quilombolas da região da Chapada Diamantina (BA) conseguiram na justiça a interdição das atividades da mineradora inglesa Brazil Iron. A empresa é acusada de contaminar nascentes, poluir o ar e causar abalos geológicos que danificaram casas da região, além de operar sem uma série de licenças ambientais. Em março, uma equipe da Repórter Brasil foi à sede da empresa em Piatã, mas o gerente de logística chamou a polícia para os jornalistas que aguardavam a entrevista. A atitude gerou protestos de entidades como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

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Área desmatada dentro da Terra Indígena Apyterewa, do povo Parakanã, no Pará.
Imagem: Kaworé Parakanã.

Bang Bang

Desde domingo (15/5) a Terra Indígena Apyterewa (PA) está sob tensão, com o Ministério Público Federal solicitando às autoridades locais e à Polícia Federal proteção adicional para as comunidades da etnia Parakanã. Os indígenas acusam fazendeiros de São Félix do Xingu e de Altamira de terem invadido o território e de estarem realizado ameaças. A área é uma das mais invadidas e desmatadas do país, e apesar de estar homologada desde 2007, o poder público não efetivou a retirada dos intrusos, descumprindo um dos acordos para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

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Danos provocados pelo garimpo ilegal na região do rio Uraricoera, na Terra Indígena Yanomami
Imagem: FUNAI

Crime ocorre, nada acontece

Garimpar em Terra Indígena é crime, mas com o governo federal mandando mensagens de apoio aos criminosos, os garimpeiros estão tão à vontade que até transmitem suas atividades nas redes sociais. A BBC mostrou o garimpeiro influencer Fábio Junior Rodrigues Faria, que apresenta em detalhes no Youtube a devastação que está praticando na Terra Yanomami, em Roraima. A região está sob a invasão de cerca de 20 mil garimpeiros, e casos de assassinatos, estupros e desaparecimento de indígenas estão se multiplicando, além da ampla contaminação da região por mercúrio.

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O secretário-geral da ONU chamou os combustíveis fósseis de "fim da linha" em mais uma demonstração de alarme diante da escalada da crise climática e inação dos países.

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