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OPINIÃO

Meus heróis 'morreram' de negacionismo. E os seus?

Eric Clapton diz que caiu no ostracismo após falas sobre a covid-19 Imagem: Reprodução/YouTube
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Cristina Tardáguila

Colunista do UOL

17/06/2021 11h12Atualizada em 17/06/2021 20h50

Eric Clapton, Andrea Bocelli, Van Morrison e Madonna. Elon Musk e Lewis Hamilton. Henrique Fogaça, Baby do Brasil e Netinho (Sim. Aquele das mil e uma noites de amor com você). Essa é a minha coleção de ex-ídolos. De pessoas que negaram (ou negam) o perigo associado ao novo coronavírus. De famosos que promoveram (ou promovem) remédios comprovadamente incapazes de prevenir ou curar a covid-19. De músicos, empresários e atletas que, apesar do brilhantismo que mostram em suas carreiras, foram (ou são) contra a quarentena, a máscara e/ou as vacinas. Sei que é preciso separar o humano de sua obra, mas sinto-me um pouco órfã —e tenho a sensação de que não sou a única. Falemos, portanto, sobre como rebater mentiras e lidar com a discordância.

Na última segunda-feira, o sensacional Eric Clapton ganhou espaço no noticiário mundial e nas redes sociais depois de ter concedido uma entrevista de 25 minutos. Falou sobre política e pandemia. Sobre Brexit e AstraZeneca.

Aos 76 anos de idade, Clapton já tomou a vacina contra covid-19, mas decidiu disparar toda sua artilharia contra ela. No vídeo, disse que teve dez dias de reação após a primeira dose da AstraZeneca. Contou que teve muita dor e momentos de agonia. Depois, dramatizou mais. Disse que, com a segunda injeção, teria passado três semanas —três semanas— sem poder encostar em nada que estivesse quente ou frio. Para fazê-lo, era necessário recorrer a luvas. Informação difícil de checar.

Mas a pior fala de Clapton —a mais desinformativa e aquela que precisa ser urgentemente combatida— foi sobre infertilidade. O guitarrista insinuou que as vacinas contra covid-19, aprovadas por diversas instâncias científicas e sanitárias do mundo, podem de alguma forma atrapalhar a reprodução humana. Um horror. Uma irresponsabilidade.

"Meu medo da vacinação é o que isso fará com minhas crianças. Parte do motivo, talvez a maior razão pela qual estou falando aqui com você, é para dizer para minhas filhas que elas talvez não possam ter filhos um dia."

Não e não. As tentativas de associar as vacinas a infertilidade ou aborto já foram fartamente rechaçadas por autoridades médicas e dezenas de equipes de fact-checkers. Em entrevista à BBC, a professora de obstetrícia da Universidade King's College, em Londres, e porta-voz do Royal College de Obstetras e Ginecologistas britânicos, Lucy Chappell, foi clara: não há "nenhum mecanismo biológico plausível" pelo qual uma vacina poderia afetar a fertilidade.

São falsos os posts que circulam pelas redes sociais e que insinuam que as vacinas contra covid-19 são um processo de esterilização feminina, como já escreveu a Agência Lupa, citando dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) e especialistas brasileiros.

Mas como continuar idolatrando —ou mesmo ouvindo— Eric Clapton? E Andrea Bocelli, Van Morrison e Madonna. Elon Musk e Lewis Hamilton. Henrique Fogaça, Baby do Brasil e Netinho?

Nos dois últimos dias, ouvi ideias taxativas. "Afaste-se." "Não gaste seu tempo nem seu dinheiro com eles." "Não compre ingressos para ver esses idiotas." "Deixe de segui-los nas redes sociais."

Não nego que medidas assim podem ser temporariamente adotadas. Afinal, ninguém é de ferro e dói saber que a genialidade tem limites. Mas essas ações não solucionam o problema. Criam mundos paralelos. Realidades que não dialogam. E ampliam a fratura social, justamente num momento em que o planeta se dá conta de que é um só —lutando contra um vírus.

Pensei, então, no movimento contrário. E se, ao invés do afastamento, os fãs se unissem e levassem —sempre de forma cordial— fatos e dados àqueles que idolatram e que andam desinformando. Haveria menos celebridades negacionistas? Menos informações falsas? Quem mais aí quer ressuscitar seus heróis?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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