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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro tentou governar por áudio de WhatsApp

Pneus queimados em ponto de bloqueio de caminhoneiros na BR-101, próximo à cidade de Curitiba (PR)  - BRUNO RUAS/ISHOOT/ESTADÃO CONTEÚDO
Pneus queimados em ponto de bloqueio de caminhoneiros na BR-101, próximo à cidade de Curitiba (PR) Imagem: BRUNO RUAS/ISHOOT/ESTADÃO CONTEÚDO
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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

09/09/2021 09h45

Como chefe do poder Executivo, o presidente Jair Bolsonaro poderia ter feito um pronunciamento em cadeia de rádio e televisão pedindo o fim da paralisação dos caminhoneiros. Poderia ter falado à nação usando as redes sociais da Presidência da República e/ou da Secretaria de Comunicação. Bolsonaro ainda poderia ter explicado os efeitos negativos de fechar rodovias por meio de suas próprias contas de Facebook e Twitter. Mas o presidente da República optou por tentar governar o país pelas sombras - e o tiro saiu pela culatra.

Na tarde de ontem, Bolsonaro achou que era uma boa ideia usar um aplicativo de mensagens criptografadas para se comunicar com o povo. Fez uma gravação de voz direcionada aos caminhoneiros e passou a espalhá-la entre seus contatos.

"Fala para os caminhoneiros aí, que são nossos aliados, mas esses bloqueios atrapalham a nossa economia. Isso provoca desabastecimento, inflação e prejudica todo mundo, em especial, os mais pobres", disse o presidente.

"Então, dá um toque nos caras aí, se for possível, para liberar, tá ok? Para a gente seguir a normalidade. Deixa com a gente em Brasília aqui e agora. Mas não é fácil negociar e conversar por aqui com autoridades. Não é fácil. Mas a gente vai fazer a nossa parte aqui e vamos buscar uma solução para isso, tá ok? E aproveita, em meu nome, dá um abraço em todos os caminhoneiros. Valeu."

A ideia era tentar controlar a enrascada que incitou, sem chamar muita atenção da mídia, da oposição e dos brasileiros em geral.

Bolsonaro não esperava, no entanto, que até mesmo aqueles que passam horas ao volante já sabem que é preciso duvidar daquilo que circula no WhatsApp. Até mesmo motoristas de caminhão já entenderam que para que um conteúdo seja considerado real, deve conter indícios passíveis de verificação: data, hora, local e nome do interlocutor. Os áudios de Bolsonaro não traziam nada daquilo.

Para quem luta contra notícias falsas há décadas, foi motivo de alegria saber que o ativista Marcos Antônio Pereira Gomes, conhecido como Zé Trovão, fez uma série de vídeos ontem à tarde contestando a autenticidade dos áudios presidenciais.

"Se o senhor quer realmente isso (o fim da paralisação), peça diretamente para nós", disse, numa das gravações. "Se é para abrir, faça um vídeo, fale data e hora e nos peça, daí a gente vai atender o senhor".

Parece surreal, mas não é: veio de um homem considerado foragido da Justiça (Zé Trovão teve prisão preventiva decretada pelo STF) o pedido para que o presidente do Brasil fizesse comunicações abertas e transparentes sobre uma crise iminente. Que instruísse seus apoiadores de forma clara e objetiva - longe do submundo dos aplicativos de mensagem.

O curioso foi ver a saída encontrada pelo presidente enquadrado. Ele escalou o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, para dar as caras e atuar como um "fator de autenticação" de seus áudios de WhatsApp.

Às 22h30, reconhecendo a pertinência das dúvidas suscitadas nos grupos que reúnem caminhoneiros no aplicativo de mensagem, Freitas apareceu nas redes sociais abertas e atestou a veracidade das gravações do presidente. Bolsonaro realmente quer o fim da paralisação.

Na manhã desta quinta-feira, a Reuters informou que haverá uma reunião por videoconferência com os caminhoneiros. Nela, Bolsonaro deverá ser claro sobre a necessidade de suspender o movimento que já afeta 15 estados.


Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Agência Lupa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL