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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nove passos para falar com os 21 milhões que (ainda) rejeitam vacina

vacinação, vacina, coronavírus - iStock
vacinação, vacina, coronavírus Imagem: iStock
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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

07/10/2021 08h59

Dez por cento da população brasileira diz que não pretende se vacinar contra a covid-19 ou que ainda não tem certeza sobre sua adesão aos programas de imunização criados no país.

De longe, o dado revelado por pesquisadores do Instituto Fernandes Figueira pode até parecer pequeno. Os 10% observados no Brasil estão muito aquém dos assustadores 24% registrados nos Estados Unidos. Mas, de perto, esses 10% representam mais de 21 milhões de brasileiros - o que equivale ao dobro da população de Portugal dizendo não às vacinas. Um cenário assustador.

Sabendo que o fim da pandemia passa - necessariamente - por uma cobertura vacinal robusta (e não só no Brasil), talvez seja hora de arregaçarmos nossas mangas e abrirmos um diálogo amistoso e franco com esse grupo. Será - sem dúvida - um trabalho de formiguinha. Regado com muita calma e certa estratégia. Eis então o que alguns pesquisadores e especialistas sugerem como método de ação.

Depois de escolher um "alvo" (uma pessoa contrárias às vacinas), é importante checar se ela está disposta a conversar. Esse primeiro passo é obvio, mas fundamental, dizem os pesquisadores do MIT Technology Review. Entre os que ainda não foram imunizados, há quem não queira falar no assunto de jeito nenhum. Debater com eles seria perda de tempo e energia. Mas, no grupo dos não vacinados, também há pessoas que têm dúvidas reais e talvez um pouco de vergonha de perguntar sobre o assunto. Pitadas de psicologia no início dessa conversa não fará mal a ninguém. E o CDC americano vai além: é preciso empatia na hora de estabelecer essa conexão. Coloque-se no lugar do outro.

Uma vez constatada a disposição para o diálogo, devemos nos esforçar para identificar o obstáculo. Entre os que ainda não se vacinaram, há desde aqueles que têm um medo paralisante de agulha até os que não podem parar de trabalhar nem mesmo por uma hora para ir ao posto de saúde. O tempo dedicado à imunização afetaria negativamente o salário. Então, é importante fazer perguntas abertas, entender os motivos não sanitários da hesitação e estarmos dispostos a ajudar no que for possível.

Erram aqueles que, ao conversar com uma pessoa não vacinada, usam palavras de ordem e/ou fazem julgamentos. "Você tem que se vacinar já" é uma frase que esses indivíduos já escutaram milhares de vezes e que, obviamente, não ecoou dentro deles. Não há uma predisposição em obedecer. Também é contraproducente classificar os obstáculos encontrados na conversa como "absurdos", "loucuras" ou "exageros". Desqualificar aquilo em que o outro acredita não ajuda nada.

Paciência. Essa é a chave do sucesso. E por quê? Segundo especialistas, as conversas sobre a hesitação vacinal precisam ser personalizadas. Nada de discurso pronto e repetido. Com o imenso volume de informações disponível sobre pandemia, não é fácil saber o que cada um leu, ouviu ou viu sobre as vacinas. Muito menos adivinhar em que conteúdo as pessoas acreditaram ou acreditam. É preciso, portanto, preparar um repertório diverso e individualizado.

O CDC americano acerta ao escrever que "todos os que optam pela vacinação o fazem por um motivo: para proteger a família ou os filhos, para diminuir a ansiedade em relação ao vírus, para poder visitar familiares, para retomar as atividades sociais, de trabalho ou na escola".

Assim sendo, busquemos a razão pela qual seu "alvo" pode acabar aceitando a injeção. Ele está lá.

E, prepare-se. É justamente nesse momento que devem aparecer os dados falsos e as mais rebuscadas teorias da conspiração. É a desinformação sobre as vacinas que joga sombra na conversa.

A dica aqui é mostrar a robusta sessão de mitos vacinais desmentidos pelo CDC em seu próprio site e/ou percorrer o banco de dados em que os fact-checkers de 77 países guardam mais de 15 mil checagens desde janeiro de 2020.

Mostrar que especialistas de diversas origens e culturas têm chegado às mesmas conclusões sobre o grau de segurança das vacinas pode ser uma arma para lá de poderosa na luta contra a hesitação vacinal.

A tarefa não é fácil. Mas é urgente.

Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Agência Lupa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL