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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não dá pra chamar 'Bolsonaro evita guerra' de 'fake' e depois espalhar meme

16.fev.2022 - Jair Bolsonaro acompanha Vladmir Putin, presidente da Rússia, durante declaração à imprensa, em Moscou - Alan Santos/PR
16.fev.2022 - Jair Bolsonaro acompanha Vladmir Putin, presidente da Rússia, durante declaração à imprensa, em Moscou Imagem: Alan Santos/PR
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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

17/02/2022 06h00

Aposto que com você foi igualzinho. Entre a noite da última segunda e a manhã de terça-feira (15), seu WhatsApp disparou com diferentes contatos e grupos de amigos compartilhando uma mesma série de memes. Imagens que faziam alusão à ida do presidente Jair Bolsonaro à Rússia acompanhadas da sugestão (às vezes explícita) de que a visita do mandatário brasileiro ao presidente russo, Vladimir Putin, salvaria "o mundo da terceira Guerra Mundial".

Mas também aposto que esses memes vinham acompanhados de comentários repletos daquele emoji de gargalhadas ou de frases como "viu isso?", "fala sério!" ou "a que ponto chegamos, hein?"

  • Veja as análises de Cristina Tardáguila e mais notícias no UOL News:

É claro que o Brasil é membro dos Brics (grupo de países emergentes) e mantém boas relações com a Rússia (ao longo de diversos governos). Mas qualquer brasileiro sabe que são baixíssimas as chances de Bolsonaro ter abertura para debater a crise da Ucrânia com o presidente russo e de efetivamente ter argumentos mais convincentes do que os já apresentados pelo americano Joe Biden e pelo francês Emmanuel Macron para tentar evitar um ataque territorial da Rússia à Ucrânia.

Mesmo assim, os memes sobre o "salvador do mundo" pautaram o debate político nos últimos dias, chegando até a virar notícia em meios de comunicação de grande porte, como a Folha de S.Paulo e a CNN.

Os desinformadores comemoraram. A tática funciona.

O mesmo se viu com o falso depoimento de Adélio Bispo, que circulou no último fim de semana para levar o país a debater um único assunto: uma suposta incriminação do PT no caso da facada sofrida por Bolsonaro em 2018. Nesse caso, o objetivo também foi alcançado.

Essa é a técnica que vamos assistir no Brasil até a eleição. Aos moldes do que tem sido feito nos Estados Unidos pelo QAnon, aquele grupo que acredita e difunde as mais absurdas teorias da conspiração, os produtores de "fake news" do Brasil agora criam conteúdos absolutamente improváveis ou simplesmente bizarros para incitar a emoção de quem os vê — seja a repulsa total, seja aquela gostosa gargalhada. A ideia é se aproveitar dos sentimentos extremos e conseguir difusão.

Se você pensar bem, trata-se de uma situação de ganha-ganha. Se a mentira viralizar e virar notícia — como aconteceu nos casos citados —, fantástico. O tema entra nos trending topics, o político cai na boca do povo, e os desinformadores comemoram um gol.

Se tudo der errado, ou seja, se as falsidades não encontrarem eco na sociedade, e a mídia ignorar sua existência, bola para frente. Os desinformadores sempre podem dizer que não passava de uma brincadeirinha, de uma coisa bem-humorada. E partem para a próxima.

Cabe, portanto, explicar que colaboramos com esse tipo de estratégia quando passamos à frente conteúdos com essas características. Não importa se estamos zombando nem se encaminhamos para uma única pessoa. A indesejada oxigenação se dá. Mais indivíduos veem a mentira, e nós não podemos controlar a reação deles. Vai que acreditam.

É também hora de lembrar episódios históricos como a inacreditável mamadeira com bico em forma de pênis (de 2018) e o pizzagate de Hillary Clinton (em 2016) e afinar nossos ponteiros.

As notícias falsas são — e serão cada vez mais — pensadas para nos afetar emocionalmente e conseguir um encaminhamento, aquele RT ou mais um comentário em redes sociais.

Portanto, precisamos olhar de frente para esses impulsos e tentar segurá-los. Recebeu um conteúdo tosco de cinco contatos ou grupos diferentes no WhatsApp (foi assim comigo), respire. Pratique o silêncio estratégico. Um artigo super detalhado sobre esse assunto está bem aqui.

Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Lupa.