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Cristina Tardáguila

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Brasil inaugura 'fake denúncias'; Twitter nega falha de segurança

ILustração - logo Twitter - Alan Carrera/ Pixabay
ILustração - logo Twitter Imagem: Alan Carrera/ Pixabay
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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

31/03/2022 11h06Atualizada em 31/03/2022 12h30

Quem achava que já tinha visto de tudo no mundo da desinformação ficou boquiaberto nesta semana ao descobrir que o Brasil deu à luz um novo (e igualmente inaceitável) fenômeno: as "fake denúncias".

A novidade é estarrecedora. Usando um formulário oficial do Twitter, qualquer indivíduo pode denunciar publicações feitas na rede social fazendo-se passar por um terceiro. Tudo, obviamente, sem que esse terceiro tenha consentimento ou tenha autorizado a movimentação. Resultado: a brecha tem sido usada para atacar determinados perfis. O objetivo é fazer o Twitter considerar que eles estão violando as regras da plataforma e bloqueá-los. E o pior de tudo é que, como bem demonstrou o Núcleo Jornalismo, que descobriu a brecha, o Twitter nega que essa falha seja? uma falha.

Para ficar mais claro, vão aqui alguns relatos que li no grupo de WhatsApp criado para reunir aqueles (que como eu) tiveram seus perfis usados de forma indevida nos últimos dias.

"No meu caso, usaram (meu perfil) para quatro denúncias: contra Adynews e SleepingGiants", relata a escritora Daniela Abade, numa breve entrevista. "Vejo algum tipo de automação (nesse processo). Pessoas que responderam a um tweet meu tiveram suas contas usadas logo depois. E também vejo um padrão: estão usando perfis progressistas para fazer essas denúncias falsas".

A jornalista Carla Vilhena também foi vítima. Na tarde de quarta-feira (30), ela foi ao próprio Twitter contar que havia recebido a informação de que tinha feito cinco denúncias contra o perfil do @slpng_giants_pt, mas explicou: "Eu fiz apenas uma, a do nazista que a @_danielaabade denunciou".

Ao que tudo indica, jornalistas - sobretudo mulheres - estão na mira da usurpação. Adyr Ferrer experimentou os dois lados do problema. Engrossa a lista de perfis usados e, ao mesmo tempo, é vítima de falsas denúncias.

"Minha conta foi usada pra denunciar o (perfil de Twitter) Brasil para Lerdos, mas nunca fiz essa denúncia. Recentemente passei a ter postagens antigas denunciadas - inclusive por você, Cris", conta Adyr, que já teve a conta suspensa por 12 horas em decorrência dessa situação.

Mesmo assim, o Twitter não reconhece a brecha. Em um fio publicado na última terça-feira (29), a plataforma diz que terceiros podem fazer denúncias em nome de outros e que "isso existe para permitir a denúncia de tweets ou contas quando as pessoas afetadas estão impossibilitadas (de o fazerem) por algum motivo".

Mas se a pessoa - por algum motivo - não consegue usar sua conta no Twitter, o maior interesse dela provavelmente está em recuperar a conta, não em fazer uma denúncia contra outro perfil, certo? Para o Twitter, parece que não.

E Daniela Abade questiona:

"E, mesmo que fosse possível a terceiros fazer denúncias em nome de outros, antes da denúncia ser aceita, o proprietário da conta deveria receber uma notificação por email ou celular, para autorizar a denúncia, certo?"

Para Abade, "o Twitter está possibilitando o roubo de identidade e, quando apontamos essa brecha para eles, eles falam que vão manter o formulário, porque não acham danoso que pessoas não autorizadas façam ações em nome de outros".

Fabro Steibel, diretor executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) entende que o ocorrido é um exemplo claro de "abuso de direito".

"É claro que é importante que a plataforma permita que qualquer pessoa possa fazer uma denúncia por outra, porque esse cenário pode eventualmente existir, mas o Twitter não pensou nas garantias que evitariam o abuso de direito. Essas garantias são previstas no processo civil, e a tradução dessas regras para equivalentes na iniciativa ainda estão sendo amadurecidas. Mas é importante que garantias contra abuso de direito sejam implementadas junto com processos de denúncia", afirma.

Steibel ressalta ainda que a novidade nesse episódio é o uso de contas de jornalistas.

"Parece que isso tudo está sendo orquestrado. Veja bem: se eu quero denunciar páginas para que elas caiam, vou usar perfis de anônimos que vão me ajudar a me esconder no algoritmo. Mas, ao usar perfis de jornalistas, está claro que há intenção de gerar tretas, de fazer com que as contas deles sejam mais desconfiadas. É, de certa forma, um ataque aos jornalistas também".

"O Sleeping Giants tem sido um dos alvos principais dessa falha de segurança, mas, além disso, as contas pessoais de todos os três diretores do movimento foram utilizadas sem autorização para denunciar conteúdos de terceiros", conta Humberto Ribeiro, Diretor Jurídico do Sleeping Giants. "Sentimos que nossa privacidade foi violada, que nossas contas foram invadidas e que não temos controle total sobre as atividades realizadas por nossas contas. Não é seguro usar uma rede social que permite que outros furtem sua identidade e falem em seu nome".

O Sleeping Giants pretende usar a Lei Geral de Proteção de Dados para exigir que o Twitter informe os dados de quem se apropriou das identidades de seus diretores e realizou denúncias em nome deles.

"Não queremos informações sobre a conta de terceiros, queremos informações sobre nossa própria conta que foi utilizada por terceiros em razão de falha de segurança do Twitter".

O advogado Flavio Siqueira, sócio do escritório Carvalho Siqueira Advogadas e Advogados, está recolhendo relatos relacionados às "fake denúncias"para saber a extensão do problema.

"Reunimos uma série de perfis que foram denunciados indevidamente ou que o Twitter informou serem denunciantes e estamos notificando extrajudicialmente a plataforma para que ela explique em mais detalhes cada evento de denúncia e forneça todos os dados de terceiros que estejam vinculados a esses eventos", disse Siqueira.

O advogado pede ao Twitter que bloqueie temporariamente a funcionalidade de denúncia para os perfis que foram usados de forma indevida e que exclua do histórico dos perfis denunciados as falsas queixas de modo a impedir que essas contas sofram punições como redução de engajamento.

Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Agência Lupa