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Democracia e Diplomacia

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A política externa de Bolsonaro sob o signo do negacionismo

Adriano Machado/Reuters
Imagem: Adriano Machado/Reuters
Democracia e Diplomacia

Coluna é voltada ao debate de como construir uma política externa conforme aos valores e interesses do Brasil, em linha com os princípios constitucionais do país. Dialoga com o Programa Renascença, projeto de construção coletiva de uma política externa pós-Bolsonaro, com a participação de diplomatas, outros servidores públicos e diferentes atores sociais, coordenado pelo Instituto Diplomacia para Democracia, instituição sem fins lucrativos. O espaço da coluna estará aberto a diferentes vozes brasileiras para debater aspectos importantes para definir a inserção internacional do Brasil, a projeção de sua identidade e a promoção de seus valores democráticos. Entre os temas a serem tratados estão a redução das desigualdades, o desenvolvimento sustentável, a integração regional, a solidariedade internacional, o universalismo, a participação social e a modernização das instituições que conduzem nossa diplomacia

Colunista do UOL

15/09/2021 04h00

Carolina Salgado*

Passados quinze meses de uma pandemia que oficialmente já matou cerca de 600 mil brasileiros, manchetes internacionais reportaram os incontáveis incentivos e compra de cloroquina pelo Governo Federal, atrasos e corrupção na compra de vacinas, e até mesmo estímulos para suposta imunidade coletiva por contágio. Vistos em perspectiva, tratou-se de necropolítica, uma política de morte já bem documentada e amplamente implementada contra índios, negros e a população mais pobre em geral.

Paralelamente, especialistas e políticos brasileiros e estrangeiros entendem que o Brasil não precisava constar em último lugar no ranking internacional de preparação e eficácia para o enfrentamento do Covid-19, tendo em vista a força do Sistema Único de Saúde (SUS), o desempenho na pandemia de HIV/Aids e em outras situações anteriores de emergência sanitária. Atualmente, a credibilidade do Brasil foi derrubada e, ao que parece, um grande número de brasileiros e estrangeiros se cansou do negacionismo implacável de Bolsonaro e de seu clã de fanáticos militantes.

A pandemia nos coloca diante de duas questões fundamentais: o que é o negacionismo e como ele se tornou uma alternativa politicamente viável no Brasil? Há necessidade de encontrar algum sentido ou racionalidade para a sequência de eventos, declarações, políticas, desmantelamentos de políticas públicas e atos normativos que atravessam as vidas dos brasileiros pelo menos desde março de 2020. Caso contrário, no plano doméstico, sem encontrar explicações para as divergências entre as narrativas do governo e as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), de cientistas, universidades públicas e estrangeiras, àqueles que não apoiam Bolsonaro resta chamá-lo de louco, ignorante e, mais recentemente, genocida. No plano internacional, pautar a repercussão dos fatos com base em alguma racionalidade permite ir além da disputa de narrativas que opera na superficialidade da política do Brasil sob o signo do negacionismo.

Este breve ensaio propõe tal enquadramento conceitual (ou racionalidade) que, sem se pretender exaustivo, articula algumas reflexões em curso para nos ajudar a entender a virada inédita que o mundo está presenciando na Política Externa Brasileira (PEB), por exemplo, em posicionamentos na ONU sobre relações de gênero, povos indígenas e meio ambiente; ou em posturas contra a OMS e a suspensão das patentes para as vacinas.

Quanto à primeira pergunta - o que é negacionismo? - a definição ampla do termo varia de acordo com o campo de estudo. Na psicanálise, a "problemática da negação" de Freud é a referência para contrastar negação e negacionismo. Enquanto o primeiro significa "um mecanismo de autodefesa diante da dor, que requer afirmação prévia e implica vulnerabilidade psíquica", o segundo é "um movimento político ou tendência social que inspira combate quando nega deliberadamente fatos históricos e evidências científicas por meio de de recursos retóricos, com o objetivo de produzir desconhecimento e incertezas entre a opinião pública", como nos explicam os psicanalistas Maria Lívia Tourinho Moretto, Christian Dunker e Daniel Gomes.

Para os historiadores, o negacionismo frequentemente aparece ao lado do revisionismo ideológico, e ambos são contrastados com o revisionismo historiográfico. Segundo Marcos Napolitano, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo, "o revisionismo ideológico é muitas vezes a antessala do negacionismo, pois o primeiro significa a desconstrução da informação histórica, mas não necessariamente o fato em si, e a subsequente problematização do consenso, enquanto o negacionismo - que tem suas origens no Holocausto e, desde então, se operacionaliza através de uma base social organizada - significa a negação total de um objeto metodologicamente comprovado em prol da salvaguarda de interesses econômicos e ideológicos". Em comum, ambas vertentes enxergam nos negacionistas uma insatisfação ao que percebem ser uma prática de silenciamento ou de não reconhecimento imposta a certos grupos sociais por vozes autorizadas como as de cientistas e acadêmicos; sua reação ocorre por meio da indução à incerteza na opinião pública.

Desnecessário dizer que os objetos do negacionismo são múltiplos - o Holocausto, as mudanças climáticas, a pandemia de Covid-19, entre outros. Mas tendo em vista meu foco nas características gerais do negacionismo como um movimento social e político que está adquirindo centralidade na esfera pública em todo o mundo, é útil separar alguns de seus instrumentos e resultados. As fontes usadas aqui são meios de comunicação, organizações internacionais, comunicadores científicos e analistas políticos que, indicando elementos e fenômenos correlacionados ao negacionismo, nos ajudam a construir uma racionalidade para a compreensão da PEB na atualidade.

Instrumentos e resultados do negacionismo

Área 1: Internet

  • Instrumentos: Mundo virtual e digital das redes sociais e fóruns abertos; e infodemia.
  • Resultados: Dificuldade de discernimento; proliferação de informações superficiais, notícias falsas e/ ou desinformação; bolhas algorítmicas.

Área 2: Instituições

  • Instrumentos: Erosão da confiança nas instituições; proliferação de crises éticas.
  • Resultados: Problemas em lidar com riscos coletivos, fortalecendo o individualismo através do tribalismo, maniqueísmo e ruptura da coesão social; a exigência de um novo regime de interações sociais que compreenda o valor das diferenças.

Área 3: Liderança

  • Instrumentos: Divisão social: forma de exercício do poder e governo; atuação em nome da defesa e alcance de interesses econômicos e ideológicos particulares ou de um clã.
  • Resultados: O uso da liderança para a produção e caça de inimigos intencionais e, ao mesmo tempo, de um sentimento de privilégio fomentado entre apoiadores para 'saber a verdade'; fortalecimento de teorias da conspiração.
Área 4: Ciência
  • Instrumentos: Exploração da lacuna e desconexão entre academia/ciência e a sociedade; simplificação da realidade, uma vez que a complexidade supera a capacidade individual de simbolizar.
  • Resultados: Reação coletiva organizada à autoridade científica percebida como inibidora da participação de grupos específicos em discursos públicos; percepções populares de um conhecimento científico inacessível e, portanto, duvidável e, em consequência, de não pertencimento e desconexão (sociologia do conhecimento); conflito com dogmas e crenças religiosas; luto, cansaço, trauma: necessidade de autoproteção por meio da alienação.

Como o negacionismo se tornou alternativa politicamente viável no Brasil?

No estudo de van Prooijen & Krouwel (2019), temos apontadas quatro características psicológicas de ideologias políticas extremistas: o sofrimento e estresse psicológico, a simplicidade cognitiva, o excesso de confiança e a intolerância. Todas são facilmente identificáveis na personalidade, estratégias e discursos de Bolsonaro. Embora as quatro áreas nas quais indico instrumentos do negacionismo estejam entrelaçadas e presentes no Brasil, entendo que a 'área 3: liderança' é o ponto de partida para entender como as políticas interna e externa se encontram na execução de uma agenda de interesses econômicos e ideológicos particulares do clã do governo. Para garantir que tal agenda seja cumprida, a estratégia de Bolsonaro se concentra em promover essas quatro características psicológicas do extremismo entre os 30% do eleitorado que o apoiam, talvez atingindo ainda mais pessoas que desconfiam das instituições da democracia liberal, abarcando também os resultados da 'área 2: instituições'. Tal estratégia está em andamento desde pelo menos 2016 e teve seu ápice a partir de março de 2020, com a eclosão da pandemia.

Exemplifico: ao confrontar discursivamente (e muitas vezes na prática) governadores e prefeitos, bem como o Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro fomenta o conflito intra-institucional e a desconfiança que, juntos, levam ao colapso da coesão social uma vez que a população se polariza em torno de tal confronto produzido pelo chefe do Executivo. Ao comprar e estimular o consumo de hidroxicloroquina como parte de um tratamento preventivo que nunca existiu, para não mencionar o plano de imunidade coletiva por contágio, Bolsonaro desacredita a ciência e promove o que chamei de 'política de alienação', que se aproxima do sentido de negação de Freud anteriormente mencionado.

Através da produção de inimigos intencionais como João Doria, a OMS, a China e a imprensa, Bolsonaro oferece uma solução mais simples que enfatiza a liberdade individual e a sobrevivência econômica, com base em teorias conspiratórias, manipulação política, acusações infundadas e rejeição aos fatos. Tal como indicado na 'área 4: ciência', a realidade se torna objeto de opinião sobre o qual todos estão convidados a deliberar e, nesse sentido, a ciência não é reconhecida como um ator moderador ou mesmo inteiramente confiável. Os principais resultados são uma profunda divisão social, o fortalecimento do individualismo, da alienação e dos conflitos entre diferentes crenças religiosas e culturais travados na internet, onde a proliferação de notícias falsas e desinformações dificulta o discernimento.

A estratégia não é gratuita ou ingênua: promovendo incertezas na opinião pública e pautando a agenda da discussão política e midiática, Bolsonaro mantém os 30% de sua base eleitoral ocupada em torno do negacionismo enquanto, junto a seu clã e coalizão parlamentar, segue em frente no desmantelamento dos pilares democráticos e dos ecossistemas natural e social do país para a realização de interesses econômicos e ideológicos.

* Carolina Salgado é professora do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL