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Diogo Schelp


Alfinetada de Bolsonaro em Mandetta é atestado de impotência do presidente

Presidente Jair Bolsonaro ao lado do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante entrevista coletiva sobre coronavírus - ADRIANO MACHADO
Presidente Jair Bolsonaro ao lado do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante entrevista coletiva sobre coronavírus Imagem: ADRIANO MACHADO
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

03/04/2020 10h50

Ao afirmar, em entrevista à rádio Jovem Pan, nesta quinta-feira (2), que "falta humildade" ao ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e que o demitiria se não estivéssemos em meio a uma guerra (a do combate ao coronavírus), o presidente Jair Bolsonaro passou recibo de sua impotência no cargo.

"Não pretendo demiti-lo no meio da guerra, mas em algum momento ele extrapolou. (...) Em alguns momentos, acho que o Mandetta teria que ouvir mais o presidente. O Mandetta quer fazer valer muito a vontade dele", disse Bolsonaro.

Ora, se o presidente tem um subordinado que, na sua avaliação, extrapola em algo — ou seja, não segue as determinações do chefe —, mantê-lo no posto é o mesmo que admitir que não é dono da situação e que alguns ministros podem fazer o que querem.

Mais do que o isolamento político do presidente, que já está mais do que claro, a declaração demonstra que o Brasil tem um figurante no cargo máximo do Poder Executivo. Até os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) já discutem como impor limites às tentativas do presidente de boicotar os esforços para combater a pandemia de covid-19, como a de desafiar a recomendação de isolamento social.

Bolsonaro não consegue sequer imprimir agilidade ao outro pilar do enfrentamento da crise, o de mitigação dos impactos econômicos e sociais das duras medidas contra a pandemia.

Mandetta, é claro, já diagnosticou a impotência do presidente e mantém-se decidido a permanecer no cargo, agora ainda menos disposto a fazer concessões ou afagos ao chefe. Se Bolsonaro decidir demiti-lo, vai ser por sua própria conta e risco.

O que se vislumbra para os próximos dias, portanto, é um teste de resistência: por quanto tempo Bolsonaro vai conseguir manter Mandetta na fritura, já que ele próprio está se queimando junto.

O argumento de Bolsonaro de que não se demite um general em meio a uma guerra não tem consistência. É possível encontrar inúmeros exemplos disso na história.

Para recuperar um bem recente, podemos lembrar do episódio em que o presidente americano Barack Obama demitiu o general Stanley McChrystal do comando da guerra no Afeganistão, em 2010, depois que o militar deu uma entrevista com críticas ao vice-presidente Joe Biden e a outros funcionários do alto escalão do governo. A atuação do general McChrystal no Afeganistão era considerada exemplar. Nem por isso foi mantido no posto. Obama poderia perfeitamente ter usado a expressão "ele extrapolou" para justificar a demissão.

Ao alegar que não pode apontar a porta da rua para seu ministro da Saúde, portanto, Bolsonaro só está procurando uma desculpa para a própria impotência.

Diogo Schelp