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Isolamento foi decisivo, mas já não determina desaceleração de contágio

Com flexibilização das restrições impostas durante a quarentena, as pessoas tentam retomar a rotina com o "novo normal" ditando as regras ,que nem sempre são seguidas.  - Reinaldo Canato / UOL
Com flexibilização das restrições impostas durante a quarentena, as pessoas tentam retomar a rotina com o 'novo normal' ditando as regras ,que nem sempre são seguidas. Imagem: Reinaldo Canato / UOL
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

10/10/2020 04h00

Com o Brasil atingindo a triste marca dos 150.000 mortos por covid-19, sete meses depois do primeiro caso confirmado de infecção pelo novo coronavírus, algumas perguntas permanecem em aberto e outras merecem uma resposta definitiva. O pior já ficou para trás? As medidas de isolamento social foram acertadas? Como a flexibilização impacta no número de novos casos?

Nos estados que as adotaram, as medidas de isolamento social foram fundamentais para evitar picos insustentáveis de casos no início da pandemia. "Mas, na fase em que nos encontramos, não existe mais correlação entre o índice de isolamento social e o número de novos casos ou a taxa de contágio", diz o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).

Com as medidas de flexibilização das restrições sociais, diz Croda, os fatores que passaram a contar para a desaceleração da pandemia são o grau de imunização da população e a adesão a protocolos de prevenção, como o uso de máscaras.

Para compreender o estágio atual da pandemia e o impacto da flexibilização, o físico Fernando Nascimento, consultor da Fundação Instituto de Administração (FIA) e professor de métodos quantitativos do ESE - Escola Superior de Empreendedorismo do Sebrae-SP, elaborou a pedido da coluna um gráfico com a evolução dos casos reportados de pacientes com covid-19 no município de São Paulo e a estimativa de quando ocorreram as contaminações, para, a partir desses dados, obter a taxa de contágio.

Taxa de contágio de São Paulo - Fernando Nascimento/UOL - Fernando Nascimento/UOL
Fonte: Secretaria de Estado da Saúde.
Imagem: Fernando Nascimento/UOL

Entre as principais conclusões que se pode tirar da interpretação do gráfico estão que a capital paulista já superou a fase de platô, que os picos de novos casos foram registrados em julho e que a tendência é de queda gradual da taxa de contágio.

A taxa de contágio, ou taxa média de transmissão (Rt), representa o número de pessoas que, em média, cada indivíduo com covid-19 contamina em determinado tempo ou lugar. Uma taxa de contágio abaixo de 1, portanto, significa que cada contaminado infecta, em média, menos de uma pessoa. O resultado é uma desaceleração do número de novos casos.

Essa é a tendência que se verifica no gráfico da cidade mais populosa do país a partir do final de julho, aproximadamente. "Observa-se pelo gráfico que, desde então, a taxa de transmissão oscila cada vez menos acima de 1, o que sugere uma queda gradual no número de novos casos", diz Julio Croda.

O infectologista alerta, porém, que não haverá uma queda brusca da taxa de contágio na cidade de São Paulo porque uma boa parcela da população ainda está suscetível ao vírus.

Isso é consequência do fato de que São Paulo, assim como ocorreu na Bahia, conseguiu achatar a curva de contágio, evitando os picos que sobrecarregaram o sistema de saúde, como ocorreu no Amazonas.

Como se observa pelos gráficos abaixo, o pico semanal de mortes por covid-19 no Amazonas esteve perto de 9 por 100.000 habitantes, enquanto em São Paulo não chegou a 3 por 100.000.

Mortes por covid Amazonas - Fonte: Infogripe (Fiocruz)  - Fonte: Infogripe (Fiocruz)
Curva de incidência de Casos de COVID-19 que vieram a óbito (diagnóstico laboratorial ou clínico-epidemiológico) - Amazonas
Imagem: Fonte: Infogripe (Fiocruz)

Em resumo, onde houve achatamento da curva, a desaceleração da taxa de contágio tende a ser mais gradual do que nos estados que registraram picos da doença.

Mortes por covid-19 São Paulo - Fonte: Infogripe/Fiocruz - Fonte: Infogripe/Fiocruz
Curva de incidência de Casos de COVID-19 que vieram a óbito (diagnóstico laboratorial ou clínico-epidemiológico)- São Paulo
Imagem: Fonte: Infogripe/Fiocruz

O gráfico do município de São Paulo é um exemplo de achatamento da curva. "Entre 25 de março e 25 de maio houve um período de aceleração de casos, seguido pelo platô, que vai até aproximadamente 25 de agosto, quando se inicia a desaceleração", observa Croda.

A tendência de desaceleração continua mesmo com a abertura paulatina de atividades porque o que está fazendo diferença, agora, é o quanto o vírus já circulou na população e o grau de adesão dos cidadãos a medidas preventivas, como práticas de higiene e uso de máscara.

Nesta sexta-feira (9), o município de São Paulo e outras cinco regiões do estado progrediram para a fase verde, a penúltima antes da liberação completa. "O pior momento da cidade de São Paulo já passou, mas não podemos bobear", disse em entrevista à coluna Edson Aparecido dos Santos, secretário de Saúde do município. "A taxa de transmissão oscila um pouco, mas está mais controlada. Ficaremos atentos para revisar as medidas adotadas agora, caso ela volte a subir."

Segundo o secretário, um lockdown, ou seja, uma quarentena em larga escala em São Paulo era "praticamente impossível", razão pela qual a conscientização da população foi fundamental para conseguir conter um avanço acelerado da pandemia. "Se não fossem as medidas de distanciamento social adotadas no início e que nos fez ganhar tempo, a pressão sobre o sistema de saúde teria sido muito maior ", diz Aparecido dos Santos.

Muito cedo, já a partir do início de maio, os índices de isolamento social começaram a cair significativamente em São Paulo. A prefeitura ainda tentou fazer com que eles voltassem a subir com estratégias que nem sempre se mostravam eficazes, como o megarrodízio em que os carros só podiam circular em dias alternados.

Quando se observa a curva da taxa de contágio, porém, percebe-se que nem sempre a adoção de restrições ou de medidas de flexibilização esteve associada a uma esperada queda ou alta na transmissão do novo coronavírus.

Há muitos outros fatores que precisariam ser levados em conta, como o tempo que a população leva para voltar a procurar serviços que foram flexibilizados. Nem todos correram de volta às academias, por exemplo, assim que elas foram reabertas.

gráfico São Paulo Covid eventos - Fernando Nascimento/UOL - Fernando Nascimento/UOL
Fonte: Secretaria de Estado da Saúde SP
Imagem: Fernando Nascimento/UOL

O platô que se verifica no gráfico dos casos de covid-19 na capital paulista se assemelha ao do Brasil em geral. Isso significa que a desaceleração da pandemia em nível nacional também promete ser lenta e gradativa.

O pior pode ter passado, mas infelizmente muitos brasileiros ainda vão se infectar nas próximas semanas e meses. Não é hora de se descuidar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL