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Diogo Schelp

Aspirantes da esquerda para 2022 começam a tirar Lula do caminho

                                 O ex-presidente Lula                              -                                 SÉRGIO CASTRO/ESTADÃO CONTEÚDO
O ex-presidente Lula Imagem: SÉRGIO CASTRO/ESTADÃO CONTEÚDO
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

01/12/2020 14h14

O PT, principal partido de esquerda do país, murchou um pouco mais nas eleições municipais deste ano. Não venceu em nenhuma capital e conquistou apenas quatro de quinze prefeituras disputadas no segundo turno. De nada adiantou ter Lula como cabo eleitoral. Tampouco ajudou a insistência da direção do partido para que seus candidatos usassem a campanha para defender a tese de inocência do ex-presidente nas condenações por corrupção e lavagem de dinheiro.

Fora do baralho da eleição presidencial por estar inelegível, Lula agora começa a ser colocado de lado também no discurso de lideranças de esquerda, que nem bem terminou o pleito já estão dando suas cartadas para 2022.

Ciro Gomes (PDT), que em outubro tentou uma reaproximação com Lula, deixou claro seu desgosto com insistência do PT em tratar a ideia de aliança de esquerda para derrotar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em 2022 como um projeto centrado no lulismo. "Então: 'a esquerda tem de se unir'. Que diabo é isso? Se reunir ao redor de quê? Se reunir em torno do lulopetismo corrompido?", disse Ciro Gomes em entrevista ao UOL nesta terça-feira (1).

Guilherme Boulos (PSOL), candidato derrotado pela disputa à prefeitura de São Paulo, contou com o apoio de Lula no segundo turno (assim como de Ciro e outros), mas tem se distanciado do lulismo, ou melhor, evita se colocar como uma figura auxiliar, subordinada ao ex-presidente petista.

Na entrevista que concedeu à Folha de S.Paulo nesta segunda-feira (30), Boulos disse: "Eu vou ajudar a construir, tendo saído mais forte das eleições, um processo de unidade do campo progressista, não apenas do ponto de vista eleitoral, mas também da disputa política."

Observe que, na frase acima, Boulos se coloca como protagonista da busca da unidade da esquerda, não como liderança subjacente. E ele deixou claro que possui algo que o PT, cujo desempenho em São Paulo foi pífio, tem cada vez menos: a mobilização da juventude.

Mas o principal indício de escanteamento de Lula como opção viável para 2022 partiu de um aspirante petista, o senador baiano Jaques Wagner. Em entrevista para a rádio Metrópole, de Salvador, Wagner disse que seu nome está "posto" na cena nacional e que não pode ficar "refém de Lula a vida inteira. Wagner também disse algo que muitos dentro do PT pensam, mas poucos têm coragem de externar: que o partido precisa renovar suas ideias e seus quadros.

O único que manifestou apego a um projeto unificado da esquerda atrelado ao ex-presidente Lula foi o governador do Maranhão Flávio Dino, possível opção do PCdoB para a disputa presidencial de 2022.

Dino foi votar no domingo (29) com uma camiseta com a frase de ordem "Lula livre" e escreveu no Twitter que se tratava de uma "homenagem ao melhor presidente da história do Brasil". Em entrevista ao UOL nesta segunda-feira (30), ele atribuiu muitas das derrotas nas eleições municipais deste ano à desunião dos partidos de esquerda no primeiro turno.

O jogo na esquerda para as eleições de 2022 já começou. E os primeiros movimentos estão sendo dados com o intuito de tirar da mesa uma carta incômoda: a onipresença de Lula.