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Diogo Schelp

Repressão a jornalista endossa narrativa do 'vírus chinês'

Zhang Zhan - Divulgação
Zhang Zhan Imagem: Divulgação
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

28/12/2020 13h44

O governo da China se empenhou muito, desde quando o novo coronavírus atravessou suas fronteiras e se espalhou pelo mundo, para eximir-se de responsabilidade pela pandemia de covid-19. A condenação a quatro anos de prisão, nesta segunda-feira (28), de uma jornalista cidadã que ousou relatar a realidade da epidemia no país, contudo, dá mais um argumento às teorias conspiratórias sobre a origem do vírus.

Zhang Zhan é uma advogada de Xangai que, em fevereiro, viajou ao epicentro do surto da doença, em Wuhan, na província de Hubei, para observar e divulgar nas redes sociais a situação caótica nos hospitais e as duras regras de confinamento impostas pelo regime aos habitantes da cidade. Ela foi presa em maio, acusada de provocar distúrbios (um estratagema corriqueiro das autoridades chinesas para fingir que não se trata de censura), e em junho iniciou uma greve de fome, mas foi alimentada à força, por sonda.

Ela não foi a única pessoa na China a sofrer repressão por tentar contar para os cidadãos do país e para o mundo a verdade sobre a epidemia. Junto com ela, outros três chineses foram presos por noticiar os fatos em Wuhan e aguardam julgamento.

O primeiro caso oficial de uma pessoa contaminada com o novo coronavírus é do dia 1º de dezembro de 2019. Suspeita-se que o vírus já estava circulando semanas antes, mas as autoridades chinesas demoraram para reconhecer o surto (o alerta só foi dado no dia 31 de dezembro).

Mais do que isso, o regime tentou esconder a gravidade da situação ao longo das semanas seguintes. Se não fosse por isso, outros países poderiam ter-se preparado melhor para enfrentar o alastramento do vírus.

A rede social WeChat, sobre a qual o regime tem controle, foi submetida a uma operação de censura a qualquer postagem que fizesse referência à doença, no início da pandemia.

O oftalmologista Li Wenliang foi um dos primeiros a tentar fazer alertas, via rede social, em janeiro, sobre a real gravidade da epidemia. Ele foi preso e obrigado a assinar um termo de retratação. Ele morreu no mês seguinte, de complicações da covid-19.

Em Hong Kong, por exemplo, um enclave semiautônomo da China, os apelos dos profissionais de saúde para que a fronteira com a China continental fosse fechada ainda em janeiro foram ignorados.

Pequim também forneceu informações erradas ou incompletas à Organização Mundial de Saúde (OMS), a ponto de entidade publicar no Twitter, em meados de janeiro, que não havia evidências de transmissão do novo coronavírus entre humanos em Wuhan.

A China demorou para isolar o local de origem da epidemia e, quando o fez, 5 milhões de pessoas já tinham saído de lá, rumo a outras regiões do país e ao exterior.

Em vez de assumir que errou ao tentar abafar a gravidade da epidemia no seu início (o que equivaleria a admitir o direito à liberdade de expressão aos seus cidadãos), o governo chinês insiste em punir quem tentou contar a verdade, o que poderia ter dado tempo para que outros países tomassem medidas de precaução.

A condenação de Zhang faz o mundo lembrar que a China tentou esconder ou minimizar a epidemia que começou em seu território e, com isso, alimenta a narrativa de que o vírus é uma criação do regime para destruir a economia global e dominar o mundo.

A postura inicial da China diante do surto em Wuhan deu a justificativa para que o presidente Donald Trump passasse a chamar o novo coronavírus de "vírus chinês" — no que foi prontamente imitado por seus seguidores brasileiros.

E é aí que residem, também, as teorias de que a China provocou a pandemia para vender a vacina — que, segundo uma das versões conspiracionistas, seria uma forma de injetar um microchip nas pessoas para monitorá-las a partir de tecnologia 5G.

A hipótese de que o novo coronavírus é uma criação de laboratório já foi descartada. Trata-se, sim, de um vírus com origem natural, como já apontaram estudos científicos sérios.

A história de que a vacina chinesa já está pronta há tempos e que tem por objetivo causar algum mal ou "chipar" outros povos também é um grande disparate.

A punição a Zhang e a outros chineses que queriam furar o secretismo do governo chinês e contar a verdade sobre a epidemia apenas serve de endosso a essas teorias conspiratórias.