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Diogo Schelp

Governo Bolsonaro abraça a causa da vacinação, mas com ressalvas

No início de janeiro, Bolsonaro afirmou que "menos da metade da população vai tomar vacina" - Flickr/Palácio do Planalto
No início de janeiro, Bolsonaro afirmou que "menos da metade da população vai tomar vacina" Imagem: Flickr/Palácio do Planalto
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

27/01/2021 12h09

O presidente Jair Bolsonaro deu um cavalo de pau em sua postura em relação à vacinação contra a covid-19.

Se antes dava impulso às teorias de que a vacina era perigosa, rejeitava um acordo entre o Ministério da Saúde e o Instituto Butantan para a compra de doses, engajava-se com o governador de São Paulo em uma discussão inócua sobre a obrigatoriedade da imunização, comemorava a morte (por suicídio) de um voluntário dos testes da CoronaVac... (pausa para tomar fôlego)

... opunha-se à Índia na proposta de quebrar a patente das vacinas, priorizava a distribuição de remédios sem comprovação científica contra covid-19 em detrimento da pesquisa nacional para o desenvolvimento de imunizantes e minimizava a importância da vacinação para reduzir a circulação do vírus, tudo isso enquanto fazia pouco caso das mortes pelo novo coronavírus, agora Bolsonaro comemora o ritmo de vacinação, dizendo que isso dará "conforto à população" e fará com que "a economia não deixe de funcionar".

Era exatamente isso que cientistas, economistas e jornalistas vinham dizendo há vários meses: que as vacinas, desenvolvidas em tempo recorde graças a investimentos bilionários, eram a maior esperança para reduzir as mortes e os casos graves da doença e para alcançar alguma normalidade na vida de todos.

Enquanto o resto do mundo apostava na vacina, Bolsonaro dizia disparates que contradizem totalmente sua narrativa atual.

Em 30 de outubro, Bolsonaro afirmou que a pandemia estava acabando e que Doria queria vacinar os paulistanos "na marra" para depois dizer que havia acabado por causa da vacina. Agora, o presidente diz que a vacinação dará "conforto à população".

CoronaVac já foi "vacina do Doria" e associada à morte por Bolsonaro

No dia 10 de novembro, ele escreveu no Facebook: "Morte, invalidez e anomalia. Esta é a vacina que Doria queria obrigar todos os paulistanos a tomar". Atualmente, é a "vacina do Doria" que está sendo aplicada em maior quantidade pelo SUS em todo o país e que o governo federal comemora como mérito seu.

E não se pode argumentar que tudo não passava de retórica, que as falas do presidente não refletiam as ações do governo. Refletiam, sim.

Quando Bolsonaro, em outubro, disse no Facebook que o governo federal não compraria a CoronaVac, desenvolvida na China, o Ministério da Saúde suspendeu as negociações com o Instituto Butantan para garantir as doses da vacina. Essas conversas só foram retomadas bem mais para frente, quando ficou claro que São Paulo ia começar a vacinação antes do governo federal — e quando o presidente se deu conta de que, apesar das teorias conspiratórias circulando no WhatsApp, a maioria dos brasileiros quer, sim, receber a proteção contra o coronavírus.

Há, porém, uma ressalva na nova retórica do governo Bolsonaro em relação à vacina: o argumento de que a imunização talvez não resolva o problema. Nas falas do presidente e de integrantes de seu governo, há sempre uma pontinha de dúvida, uma ponta solta em que eles poderão se agarrar caso a pandemia não desapareça ou a economia não se recupere após a vacinação.

Fica uma ponta solta sobre a vacinação para puxar caso necessário

É o que está implícito na fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, que considerou a hipótese de a vacinação fracassar, o que permitiria considerar a volta do auxílio emergencial. Ou quando o presidente disse que seu governo iniciou a vacinação porque a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou, apesar de não haver "nada comprovado cientificamente sobre essa vacina aí" — o que é falso.

As ressalvas servem para preparar a nova narrativa que será usada mais para frente, caso a "vacinação fracasse", como disse Guedes.

Considerando que o critério para definir esse fracasso é muito subjetivo, pois o novo coronavírus não vai simplesmente desaparecer com a vacinação em massa, não vai ser difícil distorcer os fatos e os números para afirmar que Bolsonaro estava certo desde o começo em seu discurso antivacina.

Há uma possibilidade de Bolsonaro não recorrer a essa malandragem retórica: caso ele perceba que uma vacinação bem-sucedida resultou em uma boa estratégia para melhorar sua aprovação popular.