PUBLICIDADE
Topo

Diogo Schelp

Ajuda de setor privado na vacinação não seria imoral, diz Simon Schwartzman

                                 Prefeitura dá início da vacinação contra Covid-19 em idosos acima de 85 anos na cidade do Recife.                              -                                 FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
Prefeitura dá início da vacinação contra Covid-19 em idosos acima de 85 anos na cidade do Recife. Imagem: FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

28/01/2021 04h02

O sociólogo Simon Schwartzman é um dos maiores especialistas brasileiros em políticas públicas para educação, ciência e tecnologia e autor de diversos livros sobre esses temas, como "Ciência, universidade e ideologia" e "Um espaço para a ciência". Schwartzman foi presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) entre 1994 e 1998 e é membro da Academia Brasileira de Ciências.

Na entrevista a seguir, ele analisa como a aversão à ciência do governo de Jair Bolsonaro impacta no combate à pandemia e defende que a iniciativa privada possa contribuir para o esforço de vacinação contra covid-19 no país:

O senhor é a favor de que empresas privadas possam comprar vacinas e doar uma parte das doses ao governo, para serem aplicadas pelo SUS para a população em geral? Isso é uma substituição do papel do Estado?

Nesse caso, ninguém está dizendo que vai substituir o Estado pelo setor privado. O que está sendo discutido é se o setor privado pode trazer recursos adicionais. Eu acho que deveria poder, não vejo por que não.

O que não poderia ter, evidentemente, é o setor privado de alguma maneira direcionando as vacinas para grupos específicos em detrimento de outros.

Mas se é um recurso adicional, não vejo por que não.

O senhor não considera, então, que é imoral a participação da iniciativa privada na vacinação, como tem sido defendido por alguns especialistas?

Não é imoral, não. Imoral seria tirar recursos do SUS. Se uma empresa comprar a vacina que o governo brasileiro não está conseguindo comprar, seria inadmissível. Mas se ela conseguir mobilizar recursos para trazer vacinas adicionais para apressar o processo de vacinação, que o governo está tendo dificuldade em fazer, será uma ajuda bem-vinda.

Bolsonaro finalmente entendeu que é preciso ser a favor da vacina. Parece que foi ontem ou anteontem que ele descobriu, porque até agora ele estava se opondo.

Com isso, o governo está com dificuldade em obter as doses e não há motivo para recusar o auxílio da iniciativa privada.

Tem que discutir quais são as prioridades, como é que se dará essa ajuda. Tem várias maneiras de fazer isso. Mas pode ser uma ajuda importante.

O governo fez cortes em incentivos para importação de insumos para pesquisas científicas, que podem afetar inclusive projetos de desenvolvimento de uma vacina brasileira contra a covid-19. A ciência no Brasil é uma anomalia por depender de investimento público?

Em outros países também há investimento público em ciência.

O caso da indústria da vacina é muito específico. Ele tem um lado comercial e, como estamos vendo agora, um lado estratégico, também. A pergunta é a seguinte: será que vale a pena fazer um investimento para produzir vacinas em grandes quantidades se você pode comprar mais barato na China? Talvez não valha a pena numa situação de economia normal.

Mas quando se tem uma situação de emergência como a atual, quando se está passando por uma crise ou o mercado está fechado, se o país tem capacidade para desenvolver isso, vale a pena por razões estratégicas.

Mesmo que o país não tenha uma vantagem econômica, pode ser necessário. Mas é um investimento em grande parte público, mesmo.

Há uma desvalorização sistemática da produção científica no país?

Esse governo não tem o menor interesse, não tem a menor noção do que é ciência e tecnologia. O presidente colocou um astronauta para ser ministro. Não existe uma política de ciência e tecnologia.

Há uma situação geral econômica que afeta tudo, é verdade. A situação fiscal do governo está muito complicada e eles vão cortando. E a ciência vai junto.

Mas, evidentemente, poderia ter um tratamento mais estratégico. Não só em relação à vacina. Também é preciso pensar como garantir que as instituições de pesquisa no Brasil estão funcionando, como investir em pessoal. Tem que ter uma inteligência, tem que ter alguém olhando, definindo quais são as prioridades. Não tem nada disso no governo.

Mesmo em uma situação de dificuldade financeira, poderia ter uma ação política mais inteligente. O custo da ciência e tecnologia não é muito grande, se você olhar a distribuição de recursos.

Existem alguns projetos duvidosos, como o investimento em um submarino nuclear, que consome muitos recursos que poderiam ser usados para manter centros de pesquisa que são mais ativos e que não podem ser eliminados em uma crise.

É muito fácil desmontar essa estrutura, mas muito difícil montar. As pessoas vão embora, as linhas de trabalho se desfazem. É muito difícil reconstruir.

Essa posição de desmerecimento da ciência é exclusiva desse governo?

Não é só no governo Bolsonaro. Nos governos do PT, por exemplo, em um contexto diferente da economia, em que havia recursos, a educação e a ciência recebiam dinheiro, mas também não havia uma política para essas áreas.

Os cientistas iam pedindo recursos e o governo ia dando, mas não havia uma política clara, com prioridades de investimento ou uma estratégia. Não havia uma linha de atuação em nível mais alto, da presidência da República.

Quando veio a crise econômica a partir de 2015 e saiu o governo do PT, a área de educação, ciência e tecnologia sofreu ainda mais. Do ponto de vista de interesse ou de prioridade nacional, não havia nem um nem outro.

É muito difícil você convencer em nível nacional a prioridade da ciência, porque os resultados não são vistos no curto prazo. Do ponto de vista dos dividendos políticos do governo, a comunidade científica é só mais uma pedindo dinheiro. Não dá muito voto.

Nenhum outro presidente, porém, expressou de maneira tão clara o desprezo pela ciência quanto Bolsonaro. Qual é o dano que as falas do presidente podem provocar para a ciência nacional?

Sim, é muito danoso, porque a sociedade precisa acreditar que a ciência é importante. E respeitar as instituições científicas.

Esse dano acontece em todos os níveis. No caso específico da vacina, ou você acredita que ela funciona ou não. Tem que respeitar quem está do outro lado fazendo a pesquisa e dizendo que funciona.

Um cidadão comum não tem como avaliar uma vacina. Quem avalia é uma comunidade de especialistas. Se o presidente desqualifica a comunidade de especialistas, isso provoca um grande dano.

Isso vale para o caso específico da vacina, mas também para qualquer outra área. Isso é muito danoso, porque muita gente acredita no que ele fala.

Bolsonaro se vangloria de ter um gabinete com quadros técnicos. O senhor vê esse caráter técnico do governo atual?

Não vejo, não. Ao contrário, esse é um governo que começou logo no início tirando os técnicos da área ambiental e que iniciou uma política ideológica muito agressiva na área da educação.

O tom desse governo não é de valorização de quadros técnicos. É um governo de ideólogos.

Ideólogos de um lado e de conveniência política do outro. Basta ver as alianças com o centrão no Congresso, uma ala de parlamentares que não está interessada em políticas públicas, apenas em ocupar cargos.

Ou seja, não é um governo técnico para nada.