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Diogo Schelp

Com uma oposição dessa, Bolsonaro vai nadar de braçada

01 fev. 2021 - O presidente eleito da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), assume a Mesa Diretora após a eleição da presidência da Casa - DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
01 fev. 2021 - O presidente eleito da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), assume a Mesa Diretora após a eleição da presidência da Casa Imagem: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

02/02/2021 11h34

O deputado federal Arthur Lira (Progressistas-AL) começou seu mandato na presidência da Câmara dos Deputados nocauteando os planos de parlamentares da oposição de garantir vagas nos postos mais altos da casa. Entre os maiores prejudicados estão o PT e o PSDB.

Justo o PT e o PSDB que, no último minuto, racharam o apoio ao candidato Baleia Rossi (MDB-SP) e acabaram ajudando a dar a vitória a Lira. Atribui-se ao deputado tucano Aécio Neves (MG), ex-candidato à presidência, a manobra para levar votos do seu partido a Lira. Mesmo alguns deputados do PT (partido que no Senado apoiou às claras o favorito do presidente Jair Bolsonaro) teriam contribuído com cerca de uma dezena de votos a Lira, encorajados pelo voto secreto.

Na centro-direita, o apoio do DEM ao candidato do correligionário Rodrigo Maia (DEM-RJ) virou pó, com endosso do presidente nacional do partido, ACM Neto, que está de olho em alianças para derrotar o PT nas eleições do ano que vem em seu estado, a Bahia.

O que valeu nessa eleição para a Câmara foram os interesses imediatos dos parlamentares, não uma visão política estratégica que permitisse o fortalecimento da oposição ao presidente. Interesses de parlamentares, diga-se de passagem, que não se acanham de chamar Bolsonaro de genocida, por causa da gestão desastrosa do governo federal na pandemia, mas foram incapazes de se unir contra a possibilidade de um líder do centrão — que agora se diz fechado com o presidente — ser agraciado com o poder de definir a pauta legislativa pelos próximos dois anos.

Dois anos, aliás, que serão decisivos para a definição de uma eventual reeleição de Bolsonaro.

Em um país em que a narrativa governista é a de que tudo é permitido, "desde que o Brasil não se transforme em uma Venezuela", sempre vale a pena olhar para o exemplo do país vizinho.

Em sua trajetória de presidente eleito democraticamente, em 1998, até a transformação de seu país em uma ditadura, o venezuelano Hugo Chávez sempre contou com a ajuda de uma oposição desorganizada, desunida e autodestrutiva.

É verdade que Chávez usou as instituições democráticas para destruir as próprias instituições democráticas por diversos métodos — que incluíram manobras para modificar radicalmente a composição da suprema corte e da justiça eleitoral, falcatruas eleitorais, estrangulamento da imprensa e cooptação dos militares.

Mas a desagregação e as brigas internas dos partidos de oposição sempre o ajudaram muito.

Na Venezuela, uma das únicas grandes vitórias da oposição contra o regime ocorreu nas eleições legislativas de 2015, quando seus líderes finalmente deixaram suas diferenças de lado e se uniram para dar aos candidatos do sucessor de Chávez, Nicolás Maduro, uma derrota indiscutível, apesar das tentativas de fraude.

Mas era tarde demais para salvar a democracia.