PUBLICIDADE
Topo

Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vacina da Pfizer pode não ser ideal para o Brasil, mas é água no deserto

                                 Vacina da Pfizer foi desenvolvida em conjunto com a BioNTech                              -                                 THOMAS KIENZLE/AFP
Vacina da Pfizer foi desenvolvida em conjunto com a BioNTech Imagem: THOMAS KIENZLE/AFP
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

24/02/2021 12h02

A aprovação do registro definitivo da Cominarty, a vacina das farmacêuticas Pfizer e BioNTech, pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), nesta terça-feira (23), colocou pressão sobre o governo federal para avançar nas negociações para comprar o imunizante e incluí-lo no programa nacional de vacinação contra covid-19.

Até agora, com a disponibilidade ainda limitada das vacinas CoronaVac, do Instituto Butantan, e Covishield, da Fiocruz, só se conseguiu aplicar a primeira dose em 2,87% da população brasileira.

A estrutura de vacinação brasileira tem capacidade para ser muito mais eficaz, desde que tenha doses suficientes.

O governo resiste em aceitar as exigências contratuais da Pfizer. Essa é a desculpa agora, mas a verdade é que o governo ignorou as ofertas de negociação feitas pelo laboratório em junho do ano passado, mesmo antes de conhecer essas exigências.

Podemos deixar de lado, por ora, essa má vontade inicial do governo e analisar se a resistência atual tem algum fundamento.

É fato que a vacina da Pfizer não é a melhor para a realidade brasileira, por questões logísticas e de preço.

Em primeiro lugar, porque precisa ser armazenada e transportada a temperaturas muito baixas. Inicialmente, as doses precisariam ser mantidas a cerca de 70 graus negativos, o que inviabilizaria a distribuição para fora dos grandes centros urbanos brasileiros.

Esse problema, porém, foi minimizado com novas diretrizes de armazenamento estabelecidas pela empresa. Agora, a Pfizer afirma que a vacina pode permanecer por até duas semanas entre 25 e 15 graus negativos e por até cinco dias entre 2 e 8 graus positivos, o que se obtém com o uso de um simples refrigerador doméstico.

A logística ainda seria um pouco mais complicada do que as outras vacinas em uso no Brasil, mas já não é mais um impeditivo.

Em segundo lugar, a vacina da Pfizer é mais cara do que as outras. Cada dose custa, em média, duas vezes mais do que a CoronaVac e 4 vezes mais do que as doses da Covishield importadas da Índia.

Mas é como comprar água no deserto. Há uma escassez de vacinas não só no Brasil, mas em todo o mundo, e ampliar o leque de opções é uma maneira de suprir essa sede por imunizantes.

O Instituto Butantan e a Fiocruz ainda dependem dos insumos importados da China para produzir as suas vacinas. Além disso, se tudo correr conforme o previsto, as duas instituições só vão conseguir dar um salto na produção, capaz de permitir uma aceleração do processo de vacinação em todo o país, no prazo de dois meses.

O Brasil vai precisar de todas as vacinas possíveis, desde que comprovadamente eficazes e seguras, até lá e além.

Quanto às cláusulas no contrato com a Pfizer que o governo federal classifica como "leoninas", pode-se afirmar que são, em sua maioria, aceitáveis em condições de emergência.

O primeiro ponto é a questão da isenção de responsabilidade da empresa sobre possíveis efeitos adversos. Isso é feito para evitar judicialização exagerada para cima da farmacêutica. Não significa que a empresa não confia em seu produto.

Por exemplo, se uma pessoa toma a vacina e alguns dias depois fica doente, mesmo que isso não tenha relação alguma com o imunizante, ela pode querer processar a empresa. Mesmo que ao final se prove que não houve responsabilidade do fabricante da vacina, o que a farmacêutica quer é evitar o custo de uma enxurrada de processos.

Em outros países também se exige a assinatura do termo de responsabilidade para tomar a vacina da Pfizer. O formulário padrão no Reino Unido, por exemplo, basicamente diz que a pessoa se declara ciente de que há casos raros em que a vacina pode provocar reações adversas.

Uma maneira justa de resolver essa questão seria permitir que, se no momento da vacinação só houver o imunizante da Pfizer disponível, o cidadão que não queira assinar o termo retorne outro dia para receber vacina de outro fabricante.

O segundo ponto é a necessidade de o governo criar um fundo garantidor, onde ele deposita o montante da compra e o dinheiro vai sendo liberado conforme a Pfizer entrega os lotes com a vacina.

Trata-se de uma estratégia normal de pagamento. A Pfizer fez isso com a União Europeia, por exemplo. O objetivo é evitar atrasos de pagamento — como, aliás, ocorreu nas compras da CoronaVac pelo governo federal.

O terceiro ponto é a exigência de se eleger uma câmara arbitral em Nova York para resolver eventuais pendências. Esse talvez seja o ponto mais difícil de engolir, mas também não é um escândalo, considerando-se a situação de urgência.

Na segunda-feira (22) foram divulgados os resultados comparando a eficácia da vacina de Oxford e da Pfizer durante a imunização na Escócia, no Reino Unido. São resultados da vida real, fora de ensaios clínicos. Eles mostram que, na quarta semana após a primeira dose, as hospitalizações foram reduzidas em 85% para quem tomou a vacina da Pfizer e 94% para quem recebeu a de Oxford.

Se fosse possível obter a Covishield, a vacina de Oxford, para toda a população brasileira desde já, seria o ideal e o problema estaria resolvido. Mas essa possibilidade não existe.

Por enquanto, adquirir vacinas é como comprar água no deserto. É melhor garantir, junto aos vendedores disponíveis, o necessário para a sobrevivência imediata o quanto antes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL