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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Áudio de Luis Miranda caiu de paraquedas no depoimento de Dominguetti?

1º.jul.2021 - Luiz Paulo Dominguetti, representante da Davati Medical Supply, em depoimento à CPI da Covid - Edilson Rodrigues/Agência Senado
1º.jul.2021 - Luiz Paulo Dominguetti, representante da Davati Medical Supply, em depoimento à CPI da Covid Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

01/07/2021 15h07

"[Aquele] que depois aqui fez acusações contra o presidente da República." Com estas palavras, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, lobista e PM de Minas Gerais, em depoimento à CPI da Covid no Senado nesta quinta-feira (1), lançou o nome do deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) como insistente interessado em negociar vacinas em nome do Ministério da Saúde.

Uma informação que, para muitos senadores presentes à comissão, pareceu "plantada" para desacreditar o deputado que trouxe a público, junto com seu irmão Luis Ricardo Miranda, suspeitas de irregularidades no processo de compra de vacinas pelo governo, em especial da indiana Covaxin.

Dominguetti foi convocado à CPI para confirmar sua denúncia de que teria recebido pedido de propina para vender 200 milhões de doses da vacina da Astrazeneca ao governo federal. Ao lançar uma acusação contra Miranda, verdadeira ou não, produziu conteúdo, em áudio e vídeo, que fará a alegria dos grupos bolsonaristas de WhatsApp.

Desde a semana passada, o governo e seus aliados vêm tentando encontrar elementos para desacreditar as denúncias feitas pelos irmãos Miranda, que dizem ter alertado o presidente Jair Bolsonaro em março de pressões incomuns pela importação da Covaxin em condições incompatíveis com o contrato. Bolsonaro teria prometido mandar a Polícia Federal investigar o assunto, o que não ocorreu.

O áudio que Dominguetti mostrou à CPI para provar sua acusação de que o deputado Miranda queria intermediar a compra de imunizantes não contém a palavra "vacina" e, estranhamente, menciona como compradores finais, do que quer que ele estivesse tentando negociar, uma empresa americana que sequer tem atuação no Brasil, a rede de farmácias Walgreens, e "restaurantes". Restaurantes compram vacinas?

Ainda assim, Dominguetti falou com convicção que Luis Miranda queria intermediar a compra de vacinas pelo ministério. Apenas depois, quando inquirido de maneira mais contundente pelos senadores, relativizou sua interpretação sobre o áudio.

O PM chegou até a afirmar que o "comprador" a que se referia o deputado no áudio era o seu irmão, servidor do Ministério da Saúde. No entanto, fica claro que, no áudio, o deputado usa a expressão "meu irmão" como uma gíria para se referir ao interlocutor da conversa.

O áudio de Luis Miranda caiu de paraquedas no depoimento de Dominguetti?

Na realidade, foi uma resposta a uma pergunta do senador Humberto Costa (PT-PE), que a formulou por ter escutado em podcast da Folha de S.Paulo que o depoente teria informações sobre parlamentares envolvidos em negociações de vacina.

Eis o diálogo completo a partir do questionamento do senador:

"O que aconteceu, Excelência, é que muita gente me ligava dizendo: eu posso isso, eu posso aquilo. Mas eu nunca quis avançar nessa seara porque aquele 'eu posso isso, eu posso aquilo, eu conheço fulano, ou conheço outra pessoa'... Já tinha tido um processo todo doloroso dentro do ministério. Eu não queria e nem a Davati [empresa que ele diz ter representado para oferecer vacinas ao governo] queria vivenciar isso novamente. Agora, que eu tenho a informação de que parlamentar tentou negociar a busca por vacina diretamente com a Davati, eu tenho essa informação", diz Dominguetti.

Humberto Costa pergunta quem seriam os parlamentares ou seus assessores que haviam entrado em contato.

"A informação que eu sei é um. Inclusive com áudio dele tentando negociar vacina a princípio com o ministério."

Costa pergunta de novo o nome.

"[Aquele] que depois aqui fez acusações contra o presidente da República."

Algum senador canta o nome ao fundo: "O Luis Miranda"

"Sim, senhor", confirma o depoente.

"O Luis Miranda procurou o senhor?", pergunta Costa.

"Procurou a Davati, se não me engano o Cristiano [Alberto Carvalho, representante da Davati no Brasil], inclusive tentando negociar a compra de vacinas."

O senador Fabiano Contarato (Rede-ES) pergunta quando isso aconteceu.

"O Cristiano relatava que um ou outro parlamentar o procurava, e que um que mais o incomodava era o deputado Luis Miranda, mais insistente com a compra e intermediação de vacinas."

O deputado Luis Miranda, que estava presente à sessão, afirmou depois que o áudio era de setembro de 2020 e que não se referia a negociações envolvendo vacinas.

A CPI terá de investigar se isso é verdade. E também se o áudio caiu de paraquedas na CPI.

Uma coisa é certa: o vídeo do depoente citando Luis Miranda, devidamente editado, correrá solto no zap. Acompanhado de uma frase que deixa clara a simpatia do PM por Bolsonaro: "[Aquele] que aqui fez acusações contra o presidente da República."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL