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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Senadores da CPI da Covid miram em Roberto Dias e acertam em Elcio Franco

Roberto Dias, ex-diretor do Ministério da Saúde - Marcos Oliveira/Agência Senado
Roberto Dias, ex-diretor do Ministério da Saúde Imagem: Marcos Oliveira/Agência Senado
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

07/07/2021 15h07

Com uma linha de defesa afinada, Roberto Dias, ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, não entregou nada do que os senadores queriam extrair dele no depoimento desta quarta-feira (7) na CPI da Covid. Negou que tenha exigido propina em negociações para a compra de vacinas, negou que tenha pressionado o servidor Luis Ricardo Miranda para liberar a importação de imunizantes indianos em condições irregulares e não apresentou uma hipótese sequer para explicar a razão para estar sendo alvo de tantas acusações e para as tentativas de seus superiores de tirá-lo do cargo.

Lá pelas tantas, presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), lhe perguntou: "Quais interesses o senhor feriu?" Dias calou-se.

A inquirição feita pelo relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), resume bem a tônica do depoimento de Dias. Calheiros insistiu, diversas vezes, em dizer que Dias havia entrado em tratativas para negociar vacinas da Astrazeneca com a empresa Davati.

Dias manteve-se firme na versão de que nunca negociou vacinas contra covid-19 com a Davati, apenas pediu que os representantes da empresa apresentassem documentos comprovando que tinham autorização da Astrazeneca para vender o imunizante e se de fato dispunham das 400 milhões de doses para pronta entrega. Na ausência dessas comprovações, afirmou Dias, não poderia encaminhar a proposta à Secretaria Executiva do ministério, como de fato não ocorreu, segundo ele.

Ademais, afirmou Dias, o departamento de Logística, que ele dirigia, não tinha a atribuição de negociar vacinas contra covid-19. Essa competência passou a ser exclusividade da Secretaria Executiva, comandada então pelo coronel Elcio Franco, em decisão tomada em janeiro deste ano.

Dias sugeriu que a acusação de que ele teria exigido propina de 1 dólar a mais por dose, feita pelo cabo da PM Luiz Dominguetti em reportagem da Folha de S.Paulo e em depoimento à CPI na semana passada, não passa de uma retaliação pelo fato de a oferta não ter prosperado.

O ex-diretor de Logística confirma que se encontrou com Dominguetti em um happy hour num shopping de Brasília no dia 25 de fevereiro, mas afirma que não conhecia o policial até então. Dias diz que havia combinado de tomar um chope com o amigo José Ricardo Santana, ex-funcionário da Anvisa, e que em seguida, de maneira "incidental", o tenente-coronel Marcelo Blanco, que havia trabalhado com ele no Ministério da Saúde, apareceu com o Dominguetti no restaurante, a quem foi apresentado.

Quando Dominguetti lhe disse que tinha 400 milhões de doses de vacina Astrazeneca para vender, Dias afirma que indicou a necessidade do vendedor agendar oficialmente uma reunião com ele no ministério — o que de fato foi feito, no dia seguinte.

Ou seja, a história contada por Dias é a de uma possível armação para pressioná-lo a dar andamento a uma negociação com uma empresa de picaretas e, posteriormente, para prejudicá-lo profissionalmente, tirando-o do ministério.

Sobre a acusação, feita pelos irmãos Luis Ricardo Miranda, chefe de importação do Ministério da Saúde, e Luis Miranda, deputado federal do DEM pelo Distrito Federal, de que teria pressionado pela liberação indevida da importação da Covaxin, Dias afirma que é igualmente infundada.

A mensagem de celular apresentada por Luis Ricardo Miranda na CPI, em que pergunta sobre o processo de importação num sábado à noite, afirma Dias, referia-se a um lote de Astrazeneca que estava para chegar, não à vacina Covaxin, cuja compra em condições nebulosas está sendo investigada pela CPI.

Também em outros pontos levantados pelos senadores, como sobre a compra de testes de covid no ano passado, Dias apresentou sempre versões dos fatos que procuram apresentá-lo como um servidor que tentou fazer tudo corretamente, dentro das normas, e por algum motivo escuso está sendo punido por isso.

Reiteradamente, em suas respostas, Dias afirmou que o que estava sendo perguntado pelos senadores era de responsabilidade de Elcio Franco, o ex-número 2 do Ministério da Saúde, que hoje é assessor especial da Casa Civil.

Alguns senadores já começaram a falar, novamente, na necessidade de reconvocar Franco para depor na CPI.

Roberto Dias reclamou também por ter sido exonerado prontamente do Ministério da Saúde tão logo veio à tona a denúncia do cabo Dominguetti, sem sequer ter a chance de se defender da acusação.

Em seu depoimento, o ex-diretor de Logística, que estava no cargo desde a gestão de Luiz Henrique Mandetta, apresentou-se como um bode expiatório de uma armação inexplicada e que serviu aos interesses de não se sabe quem.

A CPI não pode deixar de investigar se isso é verdade e, se for, descobrir o que está por trás dessa história rocambolesca.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL