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Diogo Schelp

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Depoimento de Ivanildo desmente quem dizia que CPI não serviria para nada

Motoboy da VTClog, Ivanildo Gonçalves, durante depoimento à CPI da Covid - Pedro França/Agência Senado
Motoboy da VTClog, Ivanildo Gonçalves, durante depoimento à CPI da Covid Imagem: Pedro França/Agência Senado
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

01/09/2021 16h19

Diz o senso comum que Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) sempre acabam em pizza. Quando a CPI da Covid foi implantada no Senado, no final de abril, membros do governo e a tropa de influenciadores digitais bolsonaristas usaram um argumento diferente para desprezar os trabalhos: diziam que não serviria para nada, a não ser para palco político para seus integrantes, que nada de desabonador seria revelado sobre o governo de Jair Bolsonaro e que muito melhor seria concentrar os esforços na investigação de suspeitas de corrupção nos Estados.

É possível que a CPI da Covid acabe em pizza, pois o relatório final, depois de encaminhado para os órgãos competentes, incluindo a Procuradoria-Geral da República, arrisca-se a criar teias de aranha em gavetas e estantes, sem que resulte em indiciamentos ou abertura de impeachment.

Mas em pelo menos dois aspectos é possível dizer que a CPI teve grande utilidade.

O primeiro é o registro e a confirmação, por meio de vários depoimentos, documentos e vídeos, da atuação negligente, omissa e em muitos momentos ativamente criminosa do governo Bolsonaro na gestão da pandemia da covid-19 — por exemplo, ao trabalhar ativamente pelo contágio coletivo da população para se atingir a "imunidade de rebanho".

O segundo é a descoberta de esquemas com cara, jeito e cheiro de corrupção no Ministério da Saúde, desde as negociações suspeitas para a compra de vacinas até, agora, as relações atípicas com uma empresa que presta serviços de logística para o governo.

O motoboy Ivanildo Gonçalves falou pouco em seu depoimento desta quarta-feira (1) à CPI — evitando, por exemplo, dar nomes aos beneficiários dos saques vultosos que fazia em dinheiro na boca do caixa, por orientação do setor financeiro da VTCLog, para pagar contas de terceiros —, mas falou o suficiente para reforçar a suspeita de que, sim, há muita corrupção no governo Bolsonaro.

Com isso, a CPI não apenas trouxe à tona muitos fatos desabonadores a respeito do governo Bolsonaro, como esvaziou a retórica dos senadores governistas, muito repetida no início dos trabalhos, de que a comissão só encontraria evidências de desvios de dinheiro público se investigasse os repasses para os estados.

Por enquanto, Ivanildo pode não ser um Francenildo Costa, o caseiro cujas revelações levaram à queda de Antonio Palocci, então ministro da Fazenda do governo Lula, em 2006, ou um Eriberto França, o motorista que complicou a vida do ex-presidente Fernando Collor, mas as informações que o motoboy confirmou iluminaram um canto escuro dos bastidores da gestão da pandemia no governo federal, onde se instalou um balcão de negócios imoral enquanto centenas de milhares de brasileiros morriam de covid.

O depoimento de Ivanildo desmente aqueles que diziam que a CPI da Covid não serviria para nada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL