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Diogo Schelp

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro age para antecipar seu momento 'invasão do Capitólio'

Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

03/09/2021 15h53

Em uma semana em que a elite econômica brasileira começou a desembarcar de vez do seu projeto político e em que se avolumam revelações sobre as maracutaias de sua família, o presidente Jair Bolsonaro age para antecipar o seu momento "invasão do Capitólio".

Refiro-me, obviamente, ao infame episódio ocorrido em 6 de janeiro deste ano em Washington, D.C., nos Estados Unidos, quando uma turba de baderneiros, incitados pelo então presidente Donald Trump, ignorou as barreiras de segurança e entrou no Congresso americano para impedir que os parlamentares confirmassem a vitória de Joe Biden nas eleições ocorridas no ano passado. Cinco pessoas morreram na invasão.

Imaginava-se que Bolsonaro daria um jeito de imitar o ex-presidente americano Donald Trump em sua tentativa de empastelar o resultado das eleições apenas depois de novembro de 2022, caso não consiga se reeleger — o que é bem plausível, pois seu desempenho nas pesquisas de intenção de voto é ruim demais para quem ocupa a cadeira presidencial e detém o controle da máquina pública.

Mas o enfraquecimento político de Bolsonaro tem aumentado de tal forma nas últimas semanas, que, para ele, pode ser tarde demais esperar 2022.

Ao declarar que as manifestações marcadas para o próximo dia 7 de setembro são um "ultimato" para dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) — sabidamente, Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso — e que está disposto a agir fora do que permite a Constituição, Bolsonaro mimetiza o que fez Trump, mas com mais de um ano de antecedência.

Com suas ameaças e com sua afirmação, feita na live semanal desta quinta-feira (2), de que policiais estão liberados para participar dos atos (o que, do ponto de vista jurídico, não é verdade), Bolsonaro age como quem espera que 7 de setembro produza cenas como as do 6 de janeiro americano: populares invadindo prédios públicos e investindo contra símbolos das instituições da República, além de policiais bolsonaristas provocando confusão (à paisana) ou se excedendo (fardados) na repressão das massas nos protestos de opositores, que ocorrerão no mesmo dia.

Se de fato ocorrerem tais atos de violência, o presidente dirá que foram causados por oposicionistas infiltrados e que o termo "ultimato" usado por ele era um chamado a reivindicações pacíficas. Exatamente como afirmou Trump depois da invasão do Capitólio.

Ato contínuo, Bolsonaro tentará usar a convulsão social para convocar as Forças Armadas para colocar "ordem" no país. Uma ordem que ele mesmo se esforçou para romper.

É bem provável, porém, que tal expectativa do presidente não se concretize e que os atos transcorram sem grandes incidentes de agressão. Nesse caso, ele poderá se contentar, por enquanto, com as imagens de seus apoiadores empunhando cartazes contra os ministros do STF para afirmar aos quatro ventos que tem o povo do seu lado.

Mas isso não livrará Bolsonaro do desgaste que vem sofrendo e do risco cada vez maior de que, em 2023, esteja fora do Palácio do Planalto e passível de ser processado e julgado por crimes comuns.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL