PUBLICIDADE
Topo

Fabíola Cidral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bruno Covas fará falta na política brasileira

Fabíola Cidral

Fabíola Cidral é apresentadora do UOL News. Trabalhou na rádio CBN por mais de 20 anos, onde apresentou o CBN São Paulo por uma década discutindo os problemas da maior metrópole do país. Formada em jornalismo pela UniSantos, fez mestrado em economia na FIA, estágio na BBC em Londres e está concluindo pós-graduação em Urbanismo Social pelo Insper em parceria com o Arq.Futuro. Ao longo da carreira, ganhou alguns prêmios, entre eles CNT, AMB, Alexandre Adler e APCA como melhor programa de rádio com Caminhos Alternativos. Nascida em Santos, Fabíola escolheu São Paulo para viver em 2000 e, desde então, sonha e luta por uma cidade melhor a cada dia. Durante o seu programa na rádio CBN promoveu encontros, vivências, discussões para transformar São Paulo numa cidade melhor. Entre os eventos que realizou e que reuniram milhares de pessoas estão o Festival Mais São Paulo e as festas de aniversário da cidade em lugares icônicos, como Sala São Paulo, Theatro Municipal, Avenida Paulista e Parque do Ibirapuera.

Colunista do UOL

16/05/2021 11h22

O prefeito Bruno Covas foi um cara gente boa. Pai presente e dedicado, amigo engraçado e um bom gestor público. Político de berço do PSDB, não se apoiou apenas no sobrenome. Estudou direito, economia, gestão pública e sempre esteve com a escuta aberta para aprender e se aliar com pessoas experientes que pudessem lhe ajudar.

Acreditava fielmente na política e enchia a boca para dizer que era político, aliás esse sempre foi seu sonho. Quando menino deixou a cidade de Santos para ir morar com o avô Mário Covas no Palácio dos Bandeirantes e foi lá que aprendeu a arte de negociar e fazer política.

Entre outros cargos, foi deputado estadual, secretário estadual de Meio Ambiente de São Paulo, presidente do Juventude do PSDB e deputado federal. Em outubro de 2016 foi eleito vice-prefeito da cidade de São Paulo, na chapa de João Doria. Com a renúncia de Doria para se candidatar ao Estado, assumiu a prefeitura em 6 de abril de 2018.

Todos que trabalharam com ele só tinham elogios pela sua assertividade, correção, inteligência e rapidez de raciocínio. Entre os íntimos era engraçado, irônico e uma pessoa de extrema confiança. Ao ser vice de João Doria aceitou um pacote. Não concordava com muita coisa, mas sabia engolir alguns sapos para alcançar seus objetivos. Tinha paciência e sabedoria para driblar ânimos inflamados. Talvez já soubesse que receberia a cadeira de prefeito em breve. Ao assumir a prefeitura de São Paulo foi sutil nas palavras e nas mudanças, mas nos bastidores deixava claro que a gestão Covas era outra. Uma das primeiras coisas que fez foi mudar a decoração deixada por Doria que incluía um quadro de Romero Brito.

O prefeito Bruno Covas fazia questão de mostrar a sua diferença com o governador João Doria. Isso ficou evidente na campanha de 2018 quando ficou longe do slogan BolsoDoria e declarou voto nulo à presidência. Durante a pandemia foram vários embates com o governo de São Paulo. O mais recente em março deste ano quando foi alvo de crítica do governador por ter antecipado os feriados na cidade. "Aqui na prefeitura tem menos falação e mais foco no trabalho e na colaboração", disse o prefeito em nota ao se internar para mais uma sessão de quimioterapia.

No comando da prefeitura, demorou a decolar, apresentar resultados. Faltava um pouco de indignação aos enormes problemas da cidade. Foi justamente a descoberta do câncer que fez o prefeito ganhar mais popularidade e a mergulhar na prefeitura. Os resultados começaram a aparecer e sua aceitação na cidade melhorou. Mesmo diante do grande desafio de comandar a maior cidade da América Latina, a garra com que enfrentou a doença impressionava a todos que conviviam com ele. Tinha sempre um olhar de esperança e luta. Numa entrevista a mim em janeiro de 2020, disse que preferia encarar a doença com a razão e a ciência. Não deixava espaço para lamentos.

Foram 19 meses de luta contra o câncer com várias sessões de quimioterapia, radioterapia e imunoterapia. Segundo pessoas próximas, o prefeito fez questão de se certificar com os seus médicos que sobreviveria pelo menos mais quatro anos e, por isso, resolveu se candidatar à reeleição em 2020. O câncer, porém, foi traiçoeiro e voltou com força em fevereiro deste ano. Os últimos três meses foram muito difíceis, mas a sua luta seguia firme. Ao ser internado no início deste mês com sangramentos, o prefeito disse pela primeira vez em quase dois anos de briga contra a doença que estava muito cansado e que gostaria de desistir do tratamento. Seus últimos dias foram cercados de carinho do seu filho Tomas da família e amigos próximos.

É uma pena que num momento tão triste da política brasileira o país perca um homem tão jovem, cheio de ideias e ainda gente boa. São Paulo segue agora sob o comando de seu vice, Ricardo Nunes. Que ele faça jus a confiança que o prefeito lhe deu ao colocar ao seu lado no palanque mesmo diante de tantas dúvidas e desconfianças.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL