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Fabíola Cidral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Serei sempre um arquiteto brasileiro. Ninguém tira isso"

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que morreu de câncer de pulmão aos 92 anos - Eduardo Knapp/Folhapress
O arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que morreu de câncer de pulmão aos 92 anos Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress
Fabíola Cidral

Fabíola Cidral é apresentadora do UOL News. Trabalhou na rádio CBN por mais de 20 anos, onde apresentou o CBN São Paulo por uma década discutindo os problemas da maior metrópole do país. Formada em jornalismo pela UniSantos, fez mestrado em economia na FIA, estágio na BBC em Londres e está concluindo pós-graduação em Urbanismo Social pelo Insper em parceria com o Arq.Futuro. Ao longo da carreira, ganhou alguns prêmios, entre eles CNT, AMB, Alexandre Adler e APCA como melhor programa de rádio com Caminhos Alternativos. Nascida em Santos, Fabíola escolheu São Paulo para viver em 2000 e, desde então, sonha e luta por uma cidade melhor a cada dia. Durante o seu programa na rádio CBN promoveu encontros, vivências, discussões para transformar São Paulo numa cidade melhor. Entre os eventos que realizou e que reuniram milhares de pessoas estão o Festival Mais São Paulo e as festas de aniversário da cidade em lugares icônicos, como Sala São Paulo, Theatro Municipal, Avenida Paulista e Parque do Ibirapuera.

Colunista do UOL

24/05/2021 15h18Atualizada em 24/05/2021 15h51

O grande mestre Paulo Mendes da Rocha achou graça com a repercussão em setembro passado da doação do seu acervo com mais de 300 projetos para Casa de Arquitectura de Portugal. Tive a honra de conversar com ele na época e o professor nos deixou um recado:

"E os prédios que eu construí? Estão todos aqui. Cuidem disso. Isso ninguém tira daqui. Eu serei sempre um arquiteto brasileiro. É um patrimônio que nunca sairá daqui"

Essas frases martelaram na minha cabeça ontem quando soube da sua morte por câncer de pulmão aos 92 anos. Precisamos ouvir, ler, observar Paulo Mendes da Rocha. Ele está por toda a cidade.

Autor de grandes obras e reformas, como a Pinacoteca do Estado, o Sesc 24 de Maio, a praça do Patriarca, o urbanista acreditava que a vida está nas ruas da cidade.

"A cidade é uma escritura da nossa presença no lugar. É preciso deixar no chão o nosso traçado. É uma história falante sempre. A melhor maneira de conservar qualquer coisa numa cidade é transformando pelo uso".

Com opiniões fortes, o professor Paulo Mendes da Rocha não fugia das polêmicas. Defendia a derrubada do Minhocão:

"Tem que derrubar. Transformar em parque é um blefe. Como eles não tem verba para demolir aquilo inventaram essa do jardinzinho, mas um dia cai. O concreto está deteriorando. A armadura vai enferrujando. Uma estrutura uma vez condenada não tem modo de manter. Um dia cai na cabeça de todo mundo"

E sobre a reforma do Vale do Anhangabaú, que até hoje não foi entregue pela prefeitura, ele disparou:

"O Anhangabaú foi um grande desastre. Nunca deviam ter tirado o tráfego dali. Não se pode transformar um viaduto em algo inútil por cima de um jardinzinho que não tem nenhum interesse na cidade".

São muitas ideias, obras e projetos deixados por esse grande mestre das cidades.

Para homenagear Paulo Mendes da Rocha, entrevistei hoje no UOL News o professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Guilherme Wisnik, que foi seu aluno, estagiário. E segundo ele, o maior ensinamento deixado por Mendes da Rocha é político.

"A arquitetura e a cidade são para todos"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL