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Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lula passa pano para ladrões de celular?

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Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

28/04/2022 19h00

1.

Comentei no rádio em 11 de dezembro de 2017 (embora já escrevesse sobre o assunto de fundo desde 2013, como se pode ler em maiores detalhes aqui e aqui):

"As causas da criminalidade são variadas, claro, mas uma delas é a justificativa moral para o crime pela baixa renda ou por qualquer outra condição social do criminoso.

Enquanto igrejas cristãs ensinam aos pobres que o crime é pecado independentemente de sua condição, intelectuais, artistas e políticos de esquerda disseminam no ambiente cultural o relativismo que arrefece o freio moral aos piores impulsos individuais.

Uma frase de Lula em entrevista [de 6/12/2017] à rádio Continental AM, de Campos [de Goytacazes], em sua caravana pelo Rio de Janeiro, ilustra a tese esquerdista:

'Um jovem que está trabalhando, que recebe um salário e pode comprar um celular bonito como este teu, ele não tem por que assaltar uma pessoa para roubar um celular.'

A conclusão inevitável é que um jovem desempregado tem, sim, por que assaltar.

Na prática, a [ala lulista da] esquerda insulta os pobres de bem, que buscam vencer sem recorrer ao crime, e legitima as ações daqueles que se deixam levar pelo mal que ela fomenta.

Mas Lula vai além.

Em sua caravana pelo Rio, ele também discursou contra a prisão de governadores eleitos que roubaram dinheiro público.

'Eu estou triste com o que está acontecendo com o Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro não merece a crise que ele está vivendo. O Rio de Janeiro não merece que governadores eleitos democraticamente estejam presos porque roubaram o povo brasileiro e roubaram dinheiro público. Eu nem sei se é verdade, eu nem sei se é verdade, porque eu não acredito no que a imprensa fala.'

O que meu Rio não merece, apesar da irresponsabilidade de boa parte dos eleitores, é escutar Lula pregando abertamente a impunidade de bandidos."

Ou expressando-se tão mal - estou sendo generoso agora - que parecia lamentar as prisões de aliados corruptos, como Sérgio Cabral, "eleitos democraticamente", e não o roubo de dinheiro dos cidadãos fluminenses, colocado ainda em dúvida por Lula, embora Cabral esteja preso até hoje pela roubalheira, condenado mais de vinte vezes a centenas de anos em penas acumuladas.

Mas a série de declarações de Lula sobre a ladroagem já vinha de meses antes naquele ano. Em 25 de agosto de 2017, em entrevista a uma rádio universitária de Pernambuco, Lula havia atribuído a incidência de homicídios no estado à pobreza:

"É uma coisa que está intimamente ligada. Ou seja, o cidadão teve acesso a um bem material, a uma casinha, a um emprego, e de repente o cara perde tudo. Então, vira uma indústria de roubar celular. Para que ele rouba celular? Para vender, para ganhar um dinheirinho. Eu penso que essa violência que está em Pernambuco é causada pela desesperança."

Uma versão editada do vídeo desta entrevista circulou nas redes sociais, acrescentando a frase "depois vão para o bar tomar cerveja juntos", para dar a impressão de que Lula defendeu uma confraternização alcoólica com um ladrão de celular, quando, na verdade, em outro trecho da conversa, ele falou que "a torcida do Santa Cruz e do Sport não são inimigas. São adversárias durante o jogo, depois vão para o bar tomar cerveja juntos".

A versão editada, lamentavelmente, voltou a circular agora que o jovem Renan Silva Loureiro foi baleado na cabeça e morto durante um assalto em São Paulo. Ele deixava a namorada quando foi abordado por um indivíduo de moto, com mochila de aplicativo de entrega de comida, um disfarce que anda sendo usado para cometimento de crimes. "A vida do meu filho foi ceifada por causa de um celular", disse a mãe da vítima.

A refutação da edição, porém, não exime Lula de responsabilidade pela declaração original, quando buscou explicar roubos de celular pelo nível de pobreza e desesperança do indivíduo, que, afinal, só quer "vender, para ganhar um dinheirinho" - mais um insulto a trabalhadores pobres que, mesmo desesperançosos, não assaltam, e também às vítimas, eventualmente fatais, de ladrões de celulares, geralmente comprados com o suor do trabalho familiar por preços salgados para quem não é parceiro da Odebrecht.

Anos depois, em 8 de novembro de 2019, em discurso após sair da prisão, Lula voltou ao tema: "Eu não posso ver mais jovem de 14, 15 anos assaltando e sendo violentado, assassinado pela Polícia, às vezes inocente, ou às vezes porque roubou um celular."

Nos termos da lei, obviamente, menores de idade flagrados roubando qualquer coisa têm de ser apreendidos sem qualquer violência, à exceção do uso legal da força para efetivar a prisão em caso de resistência ou algo do gênero, de modo que esta fala específica de Lula é defensável como posição contrária a abusos policiais, eventualmente fatais.

Ela repercutiu mal nas redes sociais, no entanto, porque, recém-solto, Lula saiu em defesa de pivetes, expressando-se mal com o exemplo do roubo de celular como algo irrelevante. E, como se nota, o petista era reincidente em relativizar a gravidade desse crime.

Jair Bolsonaro, enquanto torrava milhões de reais no cartão corporativo, foi criticado ao fazer marketing de homem simples comendo farofa todo sujo, porque mostrou uma visão errada dos pobres como se fossem porcos. Lula, em sua demagogia, volta e meia mistura pobres e criminosos, como se a condição social legitimasse moralmente danos a terceiros.

Ele segue, em 2022, falando tanta besteira que trocou de marqueteiro para ver se melhora.

2.

Deixo aqui algumas questões do meu artigo de 2013, jamais respondidas por passadores de pano de ladrões (inclusive rachadores) e black blocs:

"Legitimar moralmente os crimes falando em termos genéricos das condições de pobreza e opressão é fácil... Quero ver é estipular de uma vez por todas a condição-limite abaixo da qual o crime é justificável e justo, sendo a culpa da 'sociedade', e acima da qual é injustificável e injusto, sendo a culpa do próprio indivíduo que o comete. Qual é a linha divisória entre aqueles que merecem o vale-crime e os que não merecem? (...)

Tenho algumas perguntinhas para ajudar:

Qual é o limite da renda mensal que moralmente autoriza alguém a cometer crimes? Há quanto tempo é preciso estar nessa faixa? Só ela basta para tanto? Ou é preciso combiná-la com humilhações sofridas pelo Estado, pela polícia, pela extrema-direita fascista e pela classe média que a Marilena Chaui odeia? Como se pontuam essas coisas? Quem as verifica? As violências sofridas nas mãos dos demais criminosos supostamente pobres contam ou não contam pontos? Dizer-se vítima de preconceito é o suficiente, ou é preciso comprovar perdas e danos? Os negros e gays têm mais direitos ao vale-crime do que os brancos? Diga-me: um adolescente rico que tenha sofrido estupros do pai ou do padrasto ou de quem quer que seja também está moralmente autorizado a cometer crimes, ou a riqueza o desqualifica? Quem está mais autorizado: o riquinho estuprado (...) ou um pobre que nunca sofreu abusos sexuais e cujos pais vão muito bem, obrigado? (...)

O motivo [pelo qual ninguém jamais esclareceu esses pontos] é simples: se o fizer, deixará clara a sua colaboração ativa para o crescimento da criminalidade, uma vez que os cidadãos aptos a receber o vale-crime conforme as condições descritas sentir-se-ão mais à vontade do que já sentem muitos deles para cometer seus crimes.

Por isso é melhor apelar genericamente ao sentimentalismo da plateia bocó do que esclarecer as premissas do próprio discurso. Ninguém quer lançar luz sobre a confusão da qual se beneficia. (...)"