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Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O "pressentimento" é o "Bessias" de Bolsonaro

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Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

25/06/2022 13h12

Dramatizamos e ironizamos, em cima do lance, na Live UOL de sexta-feira (24), os trechos do telefonema interceptado pela Polícia Federal em que Milton Ribeiro avisou sorrateiramente à filha que sua casa seria alvo de busca e apreensão, em razão do alerta que recebeu de Jair Bolsonaro em ligação anterior.

Assista à íntegra. Foi divertido. Leia também a minha linha do tempo, que liga as interferências na Polícia Federal e o caso do ex-ministro da Educação.

A revelação das transcrições e logo em seguida do áudio dissipou a cortina de fumaça que o presidente acionava nas redes sociais, explorando o caso sensível que envolve uma menina de 11 anos, uma discussão sobre a aplicação da lei e o momento do aborto, uma investigação de estupro e, como agora se sabe, um sujeito de 13 anos.

Bolsonaro queria abortar do debate público o assunto do "Bolsolão do MEC", mas seu "pressentimento" relatado por Ribeiro, que poderia então destruir provas, é um indício grave de obstrução de Justiça e, portanto, mais uma afronta à moral cristã que ele busca afetar ao eleitorado.

O ex-ministro também disse ter "mandado versículos" ao presidente, o que indica a utilização de termos religiosos para camuflar uma troca nada republicana de informações confidenciais, possivelmente oriunda de vazamento policial.

Tais suspeitas acabaram sendo reforçadas pela revelação do telefonema, também interceptado, em que a mulher do ex-ministro, logo após a prisão dele, disse a um interlocutor identificado como "Edu" que Ribeiro já sabia da operação. Na prática, ela traduziu a linguagem codificada:

"Ele estava, no fundo, ele não queria acreditar, mas ele estava sabendo. Eu falei: 'Pra ter rumores do alto é porque o negócio já estava certo'", disse Myrian Ribeiro.

No petismo, as senhas sobre a deflagração de operações eram "ventos frios sopram de Curitiba" ou, por meio de rascunho de e-mail compartilhado, "seu grande amigo está muito doente", "médicos consideram que o risco é máximo", "a esposa agora está com câncer".

Dilma Rousseff ainda usou o "Bessias" para enviar a Lula o termo de posse como ministro, explicando em telefonema que usasse o documento "em caso de necessidade", ou seja, para dar carteirada de foro privilegiado a policiais que viessem prendê-lo.

O "pressentimento" é o "Bessias" de Bolsonaro.

Para completar o apelo bolsonarista às táticas petistas, Frederick Wassef, o advogado da família Bolsonaro que hospedava Fabrício Queiroz em seu imóvel de Atibaia quando o ex-assessor de Flávio foi preso, alegou que Ribeiro "usou o nome do presidente sem conhecimento, sem autorização. Cada um se explique pelo que fala. Compete ao ex-ministro explicar por que ele usa o nome do presidente de forma indevida."

É a mesma narrativa usada por Lula, a seu modo sacrílego, em depoimento ao juiz Ricardo Leite, quando questionado sobre o pecuarista José Carlos Bumlai, que tinha trânsito livre no Planalto, ter usado seu nome para facilitar a contratação da Schahin Engenharia pela Petrobras:

"Doutor, se o senhor soubesse quanta gente usa o meu nome em vão... De vez em quando eu fico pensado pras pessoas lerem a Bíblia pra não usar tanto o meu nome em vão."

Eu, Felipe, pressinto que Bolsonaro ainda vai precisar muito do manual do PT.

Assista, repito, à Live UOL de sexta-feira, na qual falamos também sobre os números da pesquisa DataFolha. Com Madeleine Lacsko, debato os principais assuntos do país diariamente, das 17h às 18h, com transmissão ao vivo nos perfis do UOL no YouTube, no Facebook e no Twitter.