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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro se perdeu no personagem e compromete a reputação do Brasil

Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, em Genebra - Denis Balibouse
Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, em Genebra Imagem: Denis Balibouse
Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

06/03/2021 04h00

Nos últimos dias, o editorial do Washington Post, um dos mais importantes jornais do planeta, afirmou categoricamente: "o Brasil está cambaleando com a pandemia do coronavírus e sua agonia deveria ser um alerta para o mundo".

Foi uma, entre tantas outras vozes, que manifestaram preocupação com os perigos representados pela falta de controle da doença no Brasil. Temos ouvido o mesmo discurso, sistematicamente, de diferentes interlocutores: de representantes da OMS, de lideranças internacionais, da mídia local e estrangeira, e, claro, da comunidade médica e científica. On e off the records.

O número de mortos no Brasil atinge novos recordes a cada levantamento. O país soma mais de 260 mil mortes de covid-19, e galga, vigoroso, posições cada vez mais elevadas em rankings nefastos, como o de média de óbitos diários por milhão de habitantes. O sistema de saúde dá sinais de colapso em boa parte dos estados da federação. A vacinação sofre com atrasos e escassez de recursos.

Enquanto enterramos nossos mortos, sofremos com a falta de planejamento e desviamos de manifestações pavorosas de nossas autoridades. Testemunhamos também a reputação internacional do Brasil simplesmente derreter.

O controle da pandemia é assunto sério. Implica salvar pessoas e também garantir a elas um futuro digno. Envolve definir qual é o lugar que desejamos ocupar no mundo, qual história contarão a nosso respeito, como essas narrativas afetarão a defesa de nossos interesses enquanto sociedade e Estado no longo prazo.

Persiste no Brasil um debate inócuo sobre ter de optar "pela saúde" ou "pela economia". Trata-se de um falso dilema, já amplamente refutado pelos especialistas. As duas dimensões são faces indissociáveis de um mesmo problema e a resposta é clara: a prioridade deve ser a vida, tanto por razões morais, quanto por razões econômicas.

Sempre é tempo de lembrar o estudo feito por pesquisadores da Sloan School of Management do MIT em parceria com o Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos. Publicado no começo de 2020, o material analisou as políticas adotadas durante a Gripe Espanhola de 1918 naquele país. Concluiu que regiões que adotaram medidas agressivas e severas mais precocemente e de maneira planejada, incluindo as chamadas "intervenções não-farmacêuticas" (isto é, distanciamento social, quarentena ou lockdown), sofreram com menos perdas econômicas, e se recuperaram mais rapidamente no que tange a emprego e produção industrial.

Incentivar as pessoas a tomar lados, portanto, não passa de um diversionismo que em nada ajuda o Brasil. Aliás, ao contrário, reforça o estigma de que, na contramão do resto do planeta, nos tornamos berço de um negacionismo juvenil. Negacionismo esse que agora ameaça não somente a vida dos brasileiros e a economia do país, como também expõe ao mundo as nossas mazelas.

Além das barreiras de entrada já impostas no exterior e da má fama que povoa o noticiário em vários idiomas, devemos estar preparados para enfrentar novos capítulos dessa história: aumento da xenofobia, da fuga de investimentos e a deterioração do ambiente de negócios. Seremos penalizados em múltiplos níveis, de forma direta e indireta, subjetiva e materialmente, pela governança irresponsável que agora fazemos.

O editorial do Washington Post cravou: "o que acontece no Brasil não fica no Brasil". É uma verdade incômoda. Todos sabemos que é necessário uma vida inteira para construir uma reputação, mas apenas poucos segundos para destruí-la. Já cruzamos todas as linhas.

O populismo costuma ser alimentado pela desinformação e pela ignorância. Por aqui, encontra terreno fértil numa sociedade profundamente ressentida e desigual. Não há paralelos possíveis para o que ocorre no Brasil de 2021. Mesmo líderes considerados análogos em outras partes do mundo se renderam à dureza da realidade e à objetividade de suas consequências.

Os Estados Unidos de Donald Trump compraram todas as vacinas da Pfizer e da BioNTech ainda em 2020. Foram 100 milhões de doses de uma única vez.

O premiê israelense Benjamin Netanyahu apareceu recentemente em um vídeo que "viralizou" na internet desmentindo notícias falsas sobre a vacina e dizendo que ela é segura e que foi desenvolvida por experts. Israel é o país que mais vacinou seus habitantes no planeta.

Na Hungria, o governo de Viktor Orbán acaba de anunciar novas medidas de restrição, incluindo fechamento de lojas e adoção de ensino remoto nas escolas primárias. Desde o fim do ano passado, o país adota toque de recolher noturno. Também protagonizou recentemente conflitos com a União Europeia na tentativa de acelerar seu programa de vacinação.

No Brasil, Bolsonaro se perdeu no personagem. Preocupado em energizar as bases e criar cortinas de fumaça que garantam sobrevida política, rifou a credibilidade internacional do país. Se há alguns anos o Brasil se preocupava por ser chamado de "anão diplomático", agora precisará desviar da pecha de "ameaça global".

Vemos todos os dias a esperança do futuro ser colonizada pela crueldade do presente. Para os brasileiros, nunca fez tanto sentido citar Gramsci: estamos vivendo entre o "pessimismo da razão" e o "otimismo da vontade".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL