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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vinte anos depois do 11/09, o mundo é mais instável e inseguro

Atentados de 11/09/01 - Reuters
Atentados de 11/09/01 Imagem: Reuters
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

11/09/2021 06h37

Em 2001, logo após os atentados terroristas de 11 de setembro, multiplicaram-se analises que tinham como objetivo classificar os impactos e efeitos que daquele episódio decorreriam. Para muitos, tratava-se de algo circunstancial e com capacidade limitada de transformar profundamente o sistema; para outros, era um marco inequívoco das mudanças que o mundo do século 21 nos reservaria.

Embora esse debate nunca tenha encontrado consenso, o que é possível afirmar, vinte anos depois, é que vivemos agora em um ambiente ainda mais instável e inseguro. As razões são pelo menos três: 1) as implicações produzidas pelo declínio relativo dos Estados Unidos; 2) o "efeito China" na dinâmica geopolítica internacional; e 3) as transformações tecnológicas pelas quais temos passado.

A "sombra do declínio" é uma realidade amplamente discutida nos Estados Unidos há várias décadas. Se, por um lado, a convicção quanto à supremacia norte-americana se constitui basicamente do fato de que, segundo os entusiastas desta vertente, o país passou a ser, desde o fim da Guerra Fria, o único que detêm preponderância decisiva simultânea em todas as esferas de poder; por outro lado, as dificuldades em agir unilateralmente e resolver problemas de forma isolada evidenciariam, em mais de uma ocasião, que a distribuição de poderes dominantes estaria sendo reequilibrada.

No calor dos acontecimentos, ainda em 2001, autores como Charles Krauthammer, por exemplo, reagiram ao 11/09 dizendo que os ataques fortaleciam, e não enfraqueciam, os Estados Unidos. Segundo essa interpretação, eles teriam contribuído para aumentar as assimetrias de poder entre os norte-americanos e os países de segunda grandeza. Teriam criado a oportunidade de demonstração do poderio militar dos Estados Unidos e evidenciado a capacidade de recuperação e reconstrução do país.

Vinte anos depois, sabemos que a fotografia é bastante diferente. Os Estados Unidos enfronharam-se em guerras intermináveis no Oriente Médio. Guerras caras do ponto de vista político e econômico. Nem assim foram capazes de debelar o terrorismo transnacional. Deixaram o Afeganistão, após terem sido vencidos pelo cansaço, sob a retomada de controle do grupo que eles próprios tinham como objetivo demover do poder duas décadas atrás. Encontraram, no Iraque, a dificuldade de combater novos grupos insurgentes. Testemunharam o fortalecimento de redes como é o caso do Estado Islâmico. Em nenhum dos dois experimentos foram capazes de promover a "reconstrução da nação", objetivo amplamente divulgado durante a instauração da "Guerra ao Terror".

Além disso, os Estados Unidos viram-se, por vezes, isolados por seus próprios aliados. Foram questionados, do ponto de vista da credibilidade e legitimidade, em relação a suas ações e preferências. Tiveram que lidar com contradições como Guantánamo e o ato patriótico. Foram levados a reconhecer que não havia mais condições ou interesse em agir como "polícia do mundo" e absorver os custos da estabilidade internacional.

Outra diferença substancial entre o mundo de 2001 e o mundo de 2021 está também no que a China representa. Vinte anos atrás, ela aparecia como um BRIC, um acrônimo em relatórios do sistema financeiro internacional. Com taxas de crescimento significativas, era vista como um país promissor para investimentos. Ainda assim, era, naquele momento, tratada como um ator emergente, de perfil modesto em matéria de política externa e com uma pauta econômica focada no próprio desenvolvimento e baseada em exportação de produtos de baixo valor agregado.

A China de hoje é completamente diferente. É a China da revolução 4.0, das ambições regionais e de projetos arrojados, como é o caso da reconstrução da rota da seda. Sem surpresa, a própria relação com os Estados Unidos e outros países sofreu reconfiguração. A China passou a triangular posições e disputar poder em várias searas, tornando-se um rival que não é possível ignorar e com potencial significativo de impactar o equilíbrio do sistema.

Por fim, em um intervalo de vinte anos, as mudanças e avanços tecnológicos também são impossíveis de ignorar. Em 2001, em nova fase do processo globalizatório, os fluxos de pessoas e de comunicação se intensificava, mas a internet, por exemplo, ainda caminhava a passos lentos. Os ritmos, a intensidade, a velocidade, tudo era diferente.

Em 2021 a tecnologia está no centro do debate sobre o futuro da política mundial. Perpassa a disputa hegemônica entre as potências e se coloca no centro dos desafios de segurança, inclusive envolvendo terrorismo. Os riscos, agora também cibernéticos, dão nova proporção ao que consideramos ameaças. Reorientam o senso se urgência e convidam a novas reflexões sobre guerras assimétricas e o peso de forças transnacionais.

Se, por um lado, é verdade que algumas décadas costumam ser apenas classificadas como sopros suaves para a roda da História, por outro, dá para entender por que tanta gente diz que essas duas foram particularmente especiais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL