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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Trump representa, para o partido republicano, o maior trunfo e o pior vilão

Trump teria tentado tomar o volante e ir para o Capitólio para se juntar com os manifestantes que invadiram o Congresso americano - Getty Images
Trump teria tentado tomar o volante e ir para o Capitólio para se juntar com os manifestantes que invadiram o Congresso americano Imagem: Getty Images
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

07/07/2022 04h00

Em meados de 2016, quando Trump ainda disputava as eleições presidenciais contra Hillary Clinton, especialistas norte-americanos conjecturavam sobre que tipo de líder ele se tornaria caso saísse vencedor daquele pleito. Na época, segundo Darrell M. West, por exemplo, os cenários apontavam para quatro principais perfis: o "republicano tradicional", o "trapaceiro popular", o "presidente fracassado" e o "líder autoritário".

Alguns anos depois, ainda é difícil distinguir o que exatamente significou Donald Trump. O mais provável é que ele tenha sido uma combinação de várias dessas possibilidades. Como presidente, apegou-se, de forma seletiva, a algumas agendas caras aos republicanos tradicionais, embora, na maior parte do tempo, tenha se orientado por discursos e ações populistas, permeadas de contradições com os valores do partido, e por arbitrariedades típicas de figuras autoritárias.

Em vários momentos, viu suas promessas serem refreadas pelas instituições e, ao perder a reeleição contestando resultados sem apresentar provas de fraude, entrou para a história como um mau perdedor, criticado, inclusive, pelos próprios correligionários.

Mas engana-se quem pensa que classificar Trump é o bastante para entender o que sua força política significa. Trata-se de uma vertente complexa e em ascensão, nos Estados Unidos, mesmo agora que Trump não é mais o presidente. Essa visão de mundo contesta as elites, inclusive do próprio partido republicano, resgata o conservadorismo radical e fagocita a ala mais liberal do GOP. Ela promove um olhar nativista sobre os Estados Unidos e repousa sobre o protecionismo, a desglobalização e uma série de ressentimentos ligados a mudança de demografia no país.

Fato é que os republicanos criaram para si seu próprio algoz. Trump representa sua melhor chance de voltar à Casa Branca, em 2024, mas, ao mesmo tempo, é visto como o principal responsável por descaracterizar o partido e comprometer suas próprias tradições.

A realidade é que:

1) desde Barry Goldwater os republicanos fizeram promessas que não puderam cumprir. Por décadas disseram que iriam diminuir o tamanho do Estado e que encontrariam meios de acomodar as demandas no campo da imigração, por exemplo, mas essas agendas que nunca foram efetivamente levadas a cabo.

2) o GOP dependeu, por anos, do voto de brancos trabalhadores sem diploma e não foi capaz de retribuir essa lealdade em forma de benefícios concretos. Trata-se de uma população que empobreceu e perdeu qualidade de vida com o passar do tempo.

3) os Estados Unidos estão se tornando, pouco a pouco, um país cada vez mais propenso a extremismos, no qual tende a vencer disputas quem consegue sensibilizar paixões e mover os descontentes e marginalizados, como é o caso de Trump. Há, por lá, um profundo sentimento "antissistema" que precisa ser analisado de perto e compreendido em sua complexidade

Está claro que o trumpismo não depende mais de Trump. Ele tem raízes nas profundas assimetrias e desigualdades dos Estados Unidos. É exatamente por isso que se torna cada vez mais urgente falarmos sobre representatividade, diversidade e inclusão no século XXI.