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Jamil Chade


Sem ameaçar ricos, êxodo venezuelano não mobiliza resposta internacional

22.fev.2019 - Venezuelanos pedem para atravessar a fronteira, bloqueada pela guarda nacional da Venezuela, com o Brasil - Ricardo Moraes/Reuters
22.fev.2019 - Venezuelanos pedem para atravessar a fronteira, bloqueada pela guarda nacional da Venezuela, com o Brasil
Imagem: Ricardo Moraes/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

20/10/2019 04h00

Reconstrução de Notre Dame em Paris já arrecadou o dobro do volume de dinheiro obtido pela ONU para socorrer 4 milhões de venezuelanos espalhados pela América Latina.


Enquanto líderes internacionais insistem sobre a necessidade de garantir o abastecimento de remédios e comida para os venezuelanos que precisam fugir do governo de Nicolas Maduro, a realidade é que as economias ricas e maiores doadores abandonaram os refugiados e imigrantes que, nos últimos anos, se espalharam pela América Latina e se constituíram no maior êxodo da história moderna da região.

Dados obtidos com exclusividade pela coluna revelam que a ONU recolheu menos de 50% dos recursos que precisa para sair ao resgate dos mais de 4 milhões de venezuelanos fora de suas fronteiras.

Nos bastidores, o fracasso na mobilização dos países ricos ocorre por conta de a crise não ameaçar diretamente as principais potências e suas fronteiras. No caso da Síria ou mesmo do Haiti, a resposta dos grandes doadores - EUA e Europa - superou todas as expectativas e atingiu marcas bilionárias.

Em ambos os casos, as fronteiras americana ou europeia estavam sendo pressionadas. Agora, a resposta tem sido radicalmente diferente no caso sul-americano.

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Em novembro de 2018, a ONU iniciou uma operação para reunir todos os principais atores na América Latina e desenhar um plano para ajudar os países da região que estavam sendo alvos de uma entrada importante de venezuelanos por suas fronteiras. O temor era de que, sem uma ajuda internacional, governos como o da Colômbia, Brasil, Equador ou Peru começassem a ter problemas para atender ao fluxo de refugiados e imigrantes.

Esses problemas, por sua vez, poderiam levar a um aumento da tensão e apelos para que as fronteiras fossem fechadas.

No final de 2018, portanto, um plano foi estabelecido para sair ao socorro dos países da região, financiamento hospitais, abrigos, escolas, saúde e alimentos para os venezuelanos que cruzassem as fronteiras. Para o período de um ano, as entidades estimavam que precisariam de US$ 737 milhões, apenas para ações fora das fronteiras da Venezuela.

Mas, quase um ano depois, as doações não chegaram e ficou claro que a situação não era prioridade dos tradicionais governos que colaboram em situações de crise humanitária. Dados oficiais do dia 15 de outubro revelam que os cofres da operação contavam com apenas US$ 354 milhões, 48% do total necessário.

Para operações de emergência, a ONU estima que precisaria de US$ 333 milhões em um ano. Mas apenas recebeu 22% desse valor.

Para a integração desses imigrantes e refugiados, os resultados são ainda piores. A operação previa US$ 220 milhões para atingir esses objetivos. Mas a iniciativa recebeu apenas 9% do valor necessário.

Um caso ainda mais dramático é da Organização Mundial da Saúde. A entidade estimava que precisaria de US$ 72 milhões para atender aos venezuelanos espalhados pelo continente. Mas recebeu menos de US$ 900 mil, cerca de 1,2% do que havia solicitado.

No caso da Unicef, a entidade foi financiada em 39% do valor solicitado, contra apenas 22% para a FAO. Para temas relacionados ao trabalho, a OIT conseguiu arrecadar com os governos estrangeiros meros 6% de seu orçamento.

Notre Dame

De acordo com o levantamento, 77% de todo o dinheiro obtido até agora veio do governo dos EUA, com US$ 275 milhões. Ainda assim, o valor é apenas metade do que a Casa Branca destinou para o Haiti, apenas no ano de 2016.

No caso da Síria, as doações internacionais em 2019 indicaram um valor de US$ 5,5 bilhões, apenas para atender os refugiados fora do país, além de mais US$ 3,5 bilhões para operações dentro do país.

Na ONU, a percepção é de que, ainda que a doação americana esteja abaixo do esperado na Venezuela, ela representa a sobrevivência dos programas na região. A UE, por exemplo, destinou pelos 3% do total doado, contra apenas 2% de alemães, 2% do Canadá e apenas 1,9% do Japão, uma das maiores economias do mundo.

Para as operações no Brasil, US$ 38 milhões foram destinados pela ONU. A entidade, porém, estima que eram necessários US$ 56 milhões.

O Peru precisava de US$ 106 milhões para atender aos imigrantes e refugiados. Mas recebeu apenas um quarto desse valor.

Enquanto os venezuelanos aguardam a solidariedade internacional, não faltam comentários irônicos dentro da ONU. "O fogo em Notre Dame levou doadores a destinar mais dinheiro para a igreja que o apelo de 4 milhões de latino-americanos", disse um alto funcionário nas Nações Unidas.

Até agora, 600 milhões de euros foram transferidos ou prometidos para a reconstrução de um dos marcos da cidade de Paris.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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