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Jamil Chade


Crise e repressão podem gerar êxodo de 20% da população venezuelana

"Não há comida", mostra cartaz de manifestante em protesto na Venezuela - AFP
"Não há comida", mostra cartaz de manifestante em protesto na Venezuela
Imagem: AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

03/11/2019 04h00


Documentos da diplomacia europeia alertam que se a atual crise econômica e a repressão na Venezuela não forem resolvidas, mais de 6,4 milhões de pessoas terão deixado o país até o final de 2020.

Se o cenário for confirmado, o país sul-americano perderá 20% de sua população entre 2015 e 2020. O fenômeno seria inédito na história recente da América Latina e uma das maiores contrações populacionais desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Antes do colapso da economia local e da crise política, o Banco Mundial estimava que a população venezuelana era de 32 milhões de pessoas. Até outubro de 2019, mais de 4,5 milhões já tinham deixado o país, entre imigrantes e refugiados. Em mais um ano de crise, a estimativa é de que outros 2 milhões deixem o país. 80% desse volume de pessoas estarão nos países latino-americanos.

No total, apenas a crise de refugiados sírios que já dura oito anos é maior que a venezuelana no mundo. Mas, em termos mensais, o êxodo da população de Caracas já supera o número de pedidos de asilo por parte de sírios desde 2018.

Preocupada, a ONU realizou na semana passada uma conferência internacional em Bruxelas para tentar convencer doadores a colocar dinheiro para atender à crise venezuelana.

A organização do evento foi interpretada de duas formas por experientes diplomatas: de um lado, a comunidade internacional não está agindo para sair ao socorro dos venezuelanos. Hoje, os programas humanitários dentro da Venezuela receberam apenas 23% do dinheiro que precisavam para operar.

Mas a outra sinalização diante da realização da conferência é de que não existe, neste momento, uma perspectiva de uma solução para a crise. "Ao convocar embaixadores e ministros, o que a ONU está indicando é que precisará de dinheiro por um longo período para sair ao resgate de milhões de pessoas", explicou um dos diplomatas envolvidos na organização da conferência de doadores.

Por anos, o governo de Nicolas Maduro rejeitou a existência de um êxodo e indicou que a saída de pessoas era um fenômeno pontual. Quando a realidade superou o discurso, Caracas passou a acusar os governos da região a incentivar a fuga de pessoas. Quando esse discurso também fracassou em convencer a comunidade internacional, Maduro passou a culpar as sanções americanas pela crise.

Na ONU, investigações revelam uma situação diferente. A crise, segundo o escritório de Michelle Bachelet, a crise antecede ao bloqueio comercial e financeiro realizado pelos EUA, ainda que as sanções aprofundem os problemas.

"A má alocação de recursos, a corrupção, a falta de manutenção da infraestrutura pública e o grave subinvestimento resultaram em violações ao direito a um padrão de vida adequado relacionadas ao colapso dos serviços públicos, como transporte público, acesso à eletricidade, água e gás natural", diz uma investigação realizada pela ONU.

Hoje, o salário mínimo é de apenas US$ 7,00, o que seria suficiente para atender a apenas 4% do valor da cesta básica de alimentos no país. De acordo com a ONU, o principal programa de assistência alimentar "não satisfaz as necessidades nutricionais básicas".

Jamil Chade