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Jamil Chade


Carta para Taison

Muhammad Ali  - Neil Leifer
Muhammad Ali Imagem: Neil Leifer
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

12/11/2019 06h27

Caro Taison,


Não tenho como imaginar a dor que tenha sentido ao ser vítima de ataques racistas, no fim de semana, na Ucrânia. Não tenho sequer como colocar-me no teu lugar ou no de Dentinho.

Mas escrevo para te dizer que tua indignação e teu apelo para que sejamos antirracistas são as únicas respostas para chacoalhar o inconsciente coletivo e as estruturas do poder.

Ao encarar o problema de frente, você escancarou a hipocrisia dos dirigentes do esporte que, em nome do espetáculo, insistem que nada mais podem fazer para frear tal comportamento da torcida. Até hoje, multas ridículas são impostas. Até hoje, violar regras comerciais num estádio resulta numa punição bem mais pesada que violar a dignidade de um ser humano, seja pela cor, religião ou orientação sexual.

O cartão vermelho que você recebeu por se indignar diante da violência foi o espelho de um esporte doente, de uma sociedade com regras invertidas e de um FairPlay criado para silenciar a resistência.

Ao encarar o problema de frente e chorar, você rompeu com um silêncio cômodo de tantos jogadores que, para não se transformar em um problema ao clube ou ao patrocinador, optam por baixar a cabeça e fazer as lágrimas se transformarem em suor. Atletas que mentem para si mesmos e que, longe da coragem da indignação de um Muhammed Ali, repetem que nunca foram alvos de racismo. A repetição de uma versão na esperança que ela se torne realidade, ou que a consciência acredite nela como verdade.

Todos nós sabemos que a diferença entre o maior jogador de todos os tempos do futebol e o maior atleta do século 20 não foi o número de títulos. Mas a atitude diante da humanidade e de seus irmãos oprimidos.

Ao encarar o problema de frente, você deixou claro que o estádio não é apenas um local de festa e onde não cabe a política. Mas uma caixa de ressonância da violência da sociedade e suas injustiças cotidianas. Ao apelar para que sejamos antirracistas, você mandou um alerta que, diante de um crime, não basta apenas o silêncio. Mas sim a resistência.

Cúmplices do racismo por negligência, a cúpula do esporte sabe que não precisa agir enquanto as vítimas - vocês - continuam aceitando voltar a jogar a cada fim de semana. Você mostrou que há um outro caminho. A Fifa chegou a fazer uma declaração. Mas simplesmente repassando a responsabilidade aos ucranianos.

Taison, ainda que você esteja longe, tua indignação também pode ajudar a despertar a consciência no Brasil. Muitos daqueles que ficaram surpreendidos pela forma que você foi tratado talvez se esqueçam - ou optem por se esquecer - que o país é hoje profundamente racista.

Eu iria além: o racismo no Brasil é estrutural, institucionalizado e permeia todas as áreas da sociedade.

Como podemos dizer que não temos racismo se os negros no país são os que mais são assassinados, são os que têm menor escolaridade, menores salários, maior taxa de desemprego, menor acesso à saúde, são os que morrem mais cedo e têm a menor participação no PIB? E, ironicamente, são os que mais lotam as prisões, os que menos tem acesso à Justiça e os que menos ocupam postos nos governos?

Há poucos anos, a relatoria da ONU fez um raio-x do racismo no Brasil e constatou que apesar de fazer parte de mais de 50% da população, os afro-brasileiros representam apenas 20% do PIB. O desemprego é 50% superior ao restante da sociedade, a renda é metade da população branca e as taxas de analfabetismo são duas vezes superiores ao restante da população.

Ao mesmo tempo, temos um governo que considera "chato" falar dessa questão de racismo. Como muitos, insistem que "não tem nada contra os negros". No fundo, recorrem ao mito da democracia racial para descreditar ações afirmativas.

Assim, escrevo para te dizer que a resposta à violência que você sofreu não pode ser apenas na forma de mensagens de solidariedade e nem uma carta como essa que lhe escrevo. Medidas reais, punições concretas e iniciativas para corrigir séculos de injustiças precisam ser implementadas.

O caminho é longo e não haverá um atalho para combater o racismo. Mas a insurreição das consciências começa pela indignação. E foi isso que vimos em campo na forma de tuas lágrimas. Não aguarde as autoridades para que teu apelo para que sejamos antirracistas se transforme em política.

Não há motivo para pensar que o esporte não possa ser um instrumento de Justiça social e de promoção de valores humanistas. Eu sei: rapidamente surgirão vozes para alertar que não se pode contaminar o esporte por temas políticos.

Mas eu então pergunto: o que são esses atos racistas, xenófobos ou homofóbicos senão atos políticos? O que seria o silêncio de autoridades senão uma decisão política? O que é a proibição imposta por governos contra mulheres nas arquibancadas senão uma orientação de poder? Podemos construir um estádio para ser usado como palanque político para a elite local, mas não podemos usar suas arquibancadas para lutar por igualdade?

Portanto, não me venham falar da necessidade de se manter a política afastada dos campos. Ela já está presente e atende aos interesses daqueles que controlam o jogo, daqueles que ditam as regras, daqueles que usam o futebol para se eleger deputado, vereador ou prefeito.

Assim como no Reggae e outras formas de arte, a luta por direitos está autorizada a ocupar todos os espaços. Sempre. E o futebol - global, popular e irresistível - passaria a ser muito mais que um esporte. Seria, no fundo, um ato de resistência.

Obrigado por tua coragem de se indignar,

Jamil

Jamil Chade