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Jamil Chade


Bolsonaro enfraquece consenso democrático já fraco no Brasil, diz Levitsky

O cientista político norte-americano Steven Levitsky - Karime Xavier/Folhapress
O cientista político norte-americano Steven Levitsky Imagem: Karime Xavier/Folhapress
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

20/11/2019 04h00


A insistência do presidente Jair Bolsonaro de elogiar a ditadura militar enfraquece o consenso democrático no Brasil. O alerta é de Steven Levitsky, autor do best-seller Como as Democracias Morrem (Zahar) e professor da Universidade de Harvard.

Em entrevista à coluna, o especialista deixa claro que, hoje, é a debilidade e a inépcia do presidente que tem evitado que ele cause um dano ainda maior à democracia no país.

Desde que assumiu, Bolsonaro vem repetindo elogios a governos militares do Brasil e do Cone Sul, além de insistir que não houve um golpe em 1964.

"Nunca é bom para a democracia quando a elite política abertamente abraça práticas autoritárias", disse o autor. "Em parte, por isso ter um impacto na opinião pública", explicou.

"Quando pessoas eleitas e pessoas influentes abertamente elogiam e legitimam comportamentos não-democráticos, seja tortura, assassinatos extra-judiciais, ou golpes, é mais fácil para a sociedade aceitar", indicou.

Segundo ele, um das questões "cruciais no longo prazo para proteger as democracias é manter um consenso numa sociedade sobre a existência de algumas coisas que jamais podem ser feitas". "Algumas coisas que jamais podem ser abraçadas", insistiu.

"No Brasil, esse consenso completo jamais existiu. Mas Bolsonaro está enfraquecendo isso. Quando ele, seus filhos e aliados abertamente endossam o autoritarismo, eles estão enfraquecendo esse consenso contra o autoritarismo e isso é incrivelmente perigoso", disse.

"Bolsonaro, sozinho, pode não ser capaz de destruir a democracia. Mas ele está enfraquecendo o consenso democrático. E no longo prazo isso é perigoso", alertou Levitsky.

Inepto

O professor da Universidade de Harvard acredita que o presidente brasileiro tem mais semelhança com Donald Trump que com húngaro Viktor Orban, considerado por Levistky como o autocrata mais sofisticado do atual século.

Ao contrário de Orban, Bolsonaro "não é o autocrata mais sofisticado do século 21". "Como Trump, ele é bastante inepto em muitos aspectos. Ele não é especialmente disciplinado, ele não tem feito um bom trabalho na construção e manutenção de uma coalizão e, como resultado, ele não é muito popular", disse.

"Em alguns momentos, ele se isolou politicamente, apesar do fato de existir uma grande coalizão conservadora para que ele possa trabalhar". "Portanto, como Trump, ele não é especialmente popular e isso está o enfraquecendo", disse.

"Sua inaptidão e sua fraqueza tendem a proteger a democracia brasileira", constatou.

"Um presidente que tende ao autoritarismo com 70% ou 80% de aprovação como (Rafael) Correia, (Hugo) Chavez ou (Alberto) Fujimori é muito mais perigoso que um presidente que tende ao autoritarismo com apenas 35% de apoio popular. Portanto, de uma forma geral, as fraquezas de Bolsonaro o impedem fazer muitos danos à democracia brasileira", disse.

"Claro, estamos apenas no começo. As coisas podem mudar", completou o autor do best-seller.

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