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Jamil Chade


Revolução digital armou década de rebelião, manipulação e incertezas

Mulher no Sudão - Reprodução
Mulher no Sudão Imagem: Reprodução
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

01/01/2020 04h00

Em meio à Primavera Árabe, uma charge circulou pela imprensa. Nela, o cartunista Patrick Chappatte imaginava uma reunião entre Kaddafi, Mubarak e Ben Ali. Em um certo momento, o egípcio perguntava aos demais ditadores: "quantos inimigos vocês tem no Facebook?".

Ao longo da década, o que o mundo viu foi uma transformação inédita na forma de comunicar. Mudamos nossos comportamentos, nossas prioridades e nossas imagens. Saímos em buscas de "likes", de aprovação da sociedade e encurtarmos distâncias. A era digital permitiu a entrega do supermercado em casa, de conhecer o futuro noivo, de criar uma dieta personalizada ou de encontrar o melhor caminho pelo trânsito de uma cidade.

Mas, também, vimos como essa mesma tecnologia revolucionou a maneira de um povo se mobilizar, resistir e organizar uma rebelião. 2019 foi especialmente marcante nesse aspecto. De Santiago à Cartum, de Hong Kong à Barcelona, as ruas sentiram o cheiro da desilusão da sociedade diante de suas autoridades. Suas estratégias: a capacidade de mobilização. Suas armas: celulares, redes sociais e a Internet.

Em 2014, um ex-analista da CIA, Martin Gurri, publicou "The Revolt of the Public". O livro recebeu pouca atenção na época. Mas basta abri-lo para entender que Gurri já havia compreendido o que iria ocorrer na década. Com um acesso inédito à informação, ele previu que a Internet iria desestabilizar a política e colocar sérias questões à credibilidade de instituições pelo mundo.

Sua definição de "público" não é exatamente aquela das massas do século 20 e nem mesmo da definição da constituição americana...We, the People. Na década de 2010, o "público" é um grupo diferente de pessoas, dependendo do contexto, do país.

Na CIA, seu trabalho era o de analisar a imprensa e ver a repercussão de medidas tomadas pelos EUA nos jornais estrangeiros. Isso, claro, até a chegada da era digital. A partir de 2001, ele conta que um "tsunami de informação" foi registrado e, apenas naquele ano, o volume era maior que em toda a história recente. Em 2002, para a surpresa dele e de sua equipe, o volume havia dobrado em relação aos registros de 2001.

Vozes que não existiam passaram a fazer parte do cenário e, claro, de suas avaliações. E juntos com elas, o que notaram foi uma intensificação da incerteza política. Mas existia uma dúvida: a existência dessas novas vozes virtuais seria traduzida nas ruas em protestos? E se isso ocorresse, que armas teriam para se proteger de uma repressão?

Essa tradução começou a dar seus primeiros sinais em 2009, em protestos no Irã. Mas se consolidou em 2011 e ganhou nomes como Primavera Árabe, Occupy Wall Street ou "Indignados" na Espanha.

Arma

Em 2013, ano dos protestos no Brasil, fui conversar com Julian Assange, já foragido na embaixada do Equador em Londres. Sua análise revelava que estávamos falando de poder, e não apenas de uma inovação tecnológica.

"Diferentes tecnologias produzem mais poder para estruturas existentes ou indivíduos e isso tem sido a história do desenvolvimento tecnológico, ao ponto que podemos ver a história da civilização humana como a história do desenvolvimento de diferentes armas de diferentes tipos", disse Assange. "Por exemplo, quando rifles, que podiam ser obtidos por pequenos grupos, eram as armas dominantes em seu dia, ou navios de guerra ou bombas atômicas. E isso define a relação de poder entre diferentes grupos de pessoas pelo mundo", disse.

"Desde 1945, a relação entre as superpotências dominantes tem sido definida por quem tem acesso às armas atômicas. Mas o que ocorre agora é que Internet é tão significativa que está começando a redefinir as relações de força que antes eram definidas pelos diferentes sistemas de armas que um país tinha. Isso porque todas as sociedades que tem qualquer desenvolvimento tecnológico, que são as sociedades influentes, se fundiram totalmente com a Internet. Portanto, não há uma separação entre o que nós pensamos normalmente que é uma sociedade, indivíduos, burocracia, estados e internet", alertou.

"A internet é o alicerce da sociedade, suas artérias, os nervos e está conectando os estados por cima das fronteiras. A Internet é um centro, se não for o centro, da nossa sociedade. Ela está envolvida na forma que uma sociedade se comunica consigo mesmo, como se comunica entre elas. Não é só simplesmente um sistema de armas ou fonte energia. Não é certo pensar como se fosse o sangue da sociedade. É o sistema nervoso central da sociedade", constatou.

Confesso que, naquele momento e em silêncio, considerei como exagerada sua avaliação de que a internet seria mais poderosa que uma arma atômica. E a década provou que eu estava completamente equivocado.

Sob constante escrutínio, não demorou para que governos entendessem que não poderiam mais apenas contar com uma TV estatal para divulgar propaganda e criar sua narrativa dos fatos. Em alguns casos, a Internet teve seu sinal interrompido, repetindo uma estratégia medieval de realizar um cerco sobre uma cidade.

Mas as autoridades foram além e passaram a usar justamente aquela ferramenta revolucionária para vigiar as massas.

"Estamos colocando nossos pensamentos mais íntimos na Internet, detalhes de comunicações e mesmo entre marido e mulher, nossa posição geográfica", alertou Assange. "Enfim, tudo está sendo exposto na Internet. Isso significa que grupos que estão envolvidos em vigilância em massa têm conseguido realizar uma transferência em massa de conhecimento em sua direção. Os grupos que já tinham muito conhecimento agora têm mais. Esse é o maior roubo que de fato já ocorreu na história. Essa transferência de conhecido, de todas as comunicações interceptadas para agências nacionais de segurança e seus amigos corporativos", alertou.

Para ele, as empresas do setor são cúmplices dessa ação estatal. "Google, essencialmente, sabe o que você estava pensando. E sabe também o que você pensou no passado. Quando você tem algum pensando sobre algo, quer saber algum detalhe, você busca no Google. Google sabe todos os sites que você visitou, tudo o que você buscou, se você usou gmail ou email. Então ele te conhece melhor que você mesmo", disse. "Google conhece você melhor que sua mãe".

A questão, para Assange, é que a relação entre essas empresas e o estado não é transparente. "As pessoas simplesmente estão fazendo bilhões de centenas de horas de trabalho gratuito para a CIA. Colocando na rede todos seus amigos, suas relações com eles, seus parentes, relatando o que estão fazendo, dizendo que vi aquela pessoa naquela festa, aquela pessoa naquela loja. É um incrível instrumento de controle", disse.

Manipulação

Mas vigiar usuários é apenas parte da história. A década mostrou como a outra estratégia por parte de governos não deixou de ser sofisticada: ocupar essa nova praça pública. Por vezes, com contas oficiais e métodos de conversar diretamente com a população, sem passar por meios de comunicação e nem responder aos jornalistas.

Mas também por meio de milhares de contas falsas, na tentativa de se criar um sentimento nas redes em defesa ou contra algum tema.

Há dois anos, em uma viagem, conheci um funcionário de um ministério de um governo europeu pouco democrático que, de forma bastante clara, me explicou que seu emprego era o de colocar entre 30 e 50 comentários nas redes sociais a cada dia para defender as políticas adotadas por seu ministro. Cada uma dessas contas era falsa e, quando eu o questionei sobre a moralidade de tal postura, sua resposta foi ainda mais assustadora: "todos fazem".

Não por acaso, Trump, Brexit e tantas outras eleições consideradas como improváveis passaram a ser possíveis. A mesma revolução que abriu caminho para derrubar ditadores revelou como o público pode ser vulnerável à desinformação. Como, sem filtros, a histeria pode tomar conta da nova Ágora.

A década que começou com a crença de que a Internet era uma arma de emancipação termina com a constatação de que ela também pode ser uma ameaça às liberdades fundamentais. Um instrumento do ódio.

Em 2019, num artigo no prestigioso Journal of Democracy, o cientista político Ronald Deibert examinou a relação entre redes sociais e a política. Em suas conclusões, ele traça três "verdades dolorosas".

"A primeira verdade dolorosa é que as redes sociais são construídas em torno da vigilância de dados pessoais, com produtos que acabam por ser concebidos para nos espiar, a fim de impulsionar a publicidade na nossa direção", destaca. "A segunda verdade dolorosa é que nós consentimos com isso, mas não de forma totalmente consciente: as redes sociais são concebidas como máquinas de vício, expressamente programadas para nos inspirarem as emoções", alertou.

Mas é sua terceira "verdade dolorosa" que mais preocupa politicamente. "Os algoritmos de captação de atenção subjacentes às mídias sociais também impulsionam práticas autoritárias que visam semear confusão, ignorância, preconceito e caos, facilitando assim a manipulação e minando a responsabilidade", constatou.

"Além disso, a vigilância bem enraizada que as empresas realizam por razões econômicas é um valioso substituto para o controle autoritário", concluiu.

Ao longo da década, o rompimento da confiança entre as instituições e a população foi uma realidade. Mas parte dessas instituições descobriu que pode estar não apenas sob o ataque de cidadãos. Mas de máquinas de manipulação cujo objetivo é destruir sua legitimidade e, assim, abrir incertezas em uma determinada sociedade.

O sonho de um mundo conectado se transformou numa realidade bem mais complexa de comunidades divididas. De sociedades fraturadas. De um momento libertador, a era digital também revelou que, manipulada, ela leva em si o potencial de criar sérios riscos para democracias.

Jamil Chade