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Jamil Chade


Ausência de Bolsonaro deve abrir espaço para Doria e Huck em Davos

Placa Davos, Fórum Econômico Mundial - Denis Balibouse/Reuters
Placa Davos, Fórum Econômico Mundial Imagem: Denis Balibouse/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

13/01/2020 04h00

Sem a presença do presidente Jair Bolsonaro, membros do Fórum Econômico Mundial acreditam que o governador João Doria e Luciano Huck ganharão espaço entre empresários e alguns dos principais líderes mundiais. No final de janeiro, o evento em Davos comemorará seus 50 anos, prometendo se debruçar na reforma do capitalismo.

Bolsonaro havia confirmado sua presença e o Palácio do Planalto já se movimentava para uma eventual reunião entre o presidente brasileiro e Donald Trump na estação alpina. Mas a viagem acabou sendo cancelada, sem uma explicação convincente por parte de Bolsonaro. Ao deixar de ir para Davos no evento que marca de meio século da iniciativa, o presidente brasileiro ainda perde a oportunidade de estar presente em um dos encontros mais concorridos em anos.

Sem o presidente brasileiro, a delegação do governo federal será liderada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Membros do governo acreditam que ele levará consigo um discurso de "dever cumprido" no primeiro ano de governo. Em 2019, ele e Bolsonaro tinham usado Davos para apresentar seu programa de governo à elite da economia global. Agora, multiplicará encontros com presidentes de multinacionais e desembarca com o argumento de realizou uma queda de juros, da aprovou reformas e vê sinais de geração de empregos.

Mas Guedes terá uma agenda essencialmente econômica e sem um papel de liderança política. Ele tampouco contará com a companhia do ministro Sérgio Moro, uma das estrelas do evento em 2019, e nem do chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, ou do general Augusto Heleno. Eduardo Bolsonaro, que acompanhou o pai na estreia internacional no ano passado, tampouco estará presente.

Em Davos, o certo esvaziamento da delegação de Brasília deverá abrir espaço para outros atores brasileiros. Um deles é João Doria. O governador de São Paulo já esteve na edição de 2019, apresentando o estado como um ator global.

Agora, a expectativa de empresários e organizadores é de que o governador tenha mais tempo e mais atenção dos convidados. Doria deve ainda se alinhar ao discurso do fundador do Fórum, Klaus Schwab, tratando especificamente da necessidade de preparar economias para lidar com a 4a Revolução Industrial.

Não seria a primeira vez que Doria ocuparia o vácuo deixado por Bolsonaro. No primeiro semestre de 2019, o governador também acabou sendo o foco de todas as atenções em eventos em Nova Iorque. Naquele momento, o prefeito da cidade norte-americana havia alertado que o presidente brasileiro não seria bem-vindo.

Renovação

Entre os organizadores, não são poucos os que também querem ouvir o que Luciano Huck tem a dizer. No ano passado, na estação alpina, ele declarou que defendia "uma renovação política para valer" no Brasil. Agora, ele parte de um debate sobre a convulsão social que tomou conta das ruas da América Latina, em 2019.

A escolha de Huck para tal posição reflete a aposta dos organizadores em buscar novas vozes para explicar a eclosão de protestos na região.

A curiosidade não ocorre por acaso. Ambos são vistos em Davos como possíveis nomes para as eleições em 2022 e personagens políticos que podem fazer o que Bolsonaro não tem consigo dar resultados: lidar com a turbulência política que vive o país.

Davos havia alertado, em 2019, que Bolsonaro tinha um grande desafio em seu primeiro ano de governo: unificar o Brasil, depois de um processo eleitoral tenso. Em janeiro do ano passado, o presidente do evento, Borge Brende, indicou que queria saber como Bolsonaro faria para superar as divisões no País.

"Ele deve construir pontes entre as diferentes forças políticas, unificar o País", insistiu o executivo, que já foi ministro das Relações Exteriores da Noruega.

Teste

Se Davos está tomada pela curiosidade sobre o futuro do Brasil, não é a primeira vez que o Fórum se transforma em uma espécie de teste para líderes brasileiros. Em 2003, depois de uma forte volatilidade nos mercados financeiros diante da eleição, o então recém empossado Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido na estação de esqui num clima de desconfiança e curiosidade.

Naquele momento, os mercados temiam um governo que pudesse se afastar do mundo financeiro. Mas, em seu primeiro discurso, Lula propôs diálogo, garantiu que não atacaria o capitalismo e moderou seu discurso.

Em sua estreia, Lula disse o que a elite das finanças mundiais queriam ouvir: faria "reformas econômicas, sociais e políticas muito profundas, respeitando contratos e assegurando o equilíbrio econômico". Ele não deixou de mandar um recado. "Aqui, em Davos, convencionou-se dizer que hoje existe um único Deus: o mercado. Mas a liberdade de mercado pressupõe, antes de tudo, a liberdade e a segurança dos cidadãos", disse.

Mas, naquele momento, o discurso foi interpretado como um sinal claro de que não haveria expropriações, nem um confronto com multinacionais e muito menos um questionamento do sistema financeiro. Em 2010, Lula recebeu o prêmio de estadista do ano, concedido pelo Fórum. Mas não compareceu para receber o prêmio.

Jamil Chade