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Jamil Chade


Cortejado por nacionalistas, Bolsonaro gera indignação de grupos indianos

28.jun.2019 - Presidente Jair Bolsonaro, do Brasil, e primeir-ministro Narendra Modi, da Índia, durante Encontro do G20, em Osaka - Mikhail KLIMENTYEV / AFP
28.jun.2019 - Presidente Jair Bolsonaro, do Brasil, e primeir-ministro Narendra Modi, da Índia, durante Encontro do G20, em Osaka Imagem: Mikhail KLIMENTYEV / AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

23/01/2020 10h00

O presidente Jair Bolsonaro embarca para a Índia, onde será o convidado de honra para acompanhar os desfiles do Dia da República, a principal data do país. Além disso, os dois países assinarão diversos acordos comerciais, o que já permitiu que diferentes ministros do governo indiano comemorassem a nova fase de aproximação nos últimos dias.

Mas se tal espaço privilegiado já foi oferecido a personalidades como Nelson Mandela, rainha Elizabeth ou Barack Obama, a escolha de 2020 se transformou em alvo de indignação entre uma parcela de feministas, ativistas de direitos humanos, agricultores e ambientalistas.

A decisão de convidar Bolsonaro foi do primeiro-ministro Narendra Modi, líder populista. Em seu país, Modi é acusado de fazer uma campanha nacionalista, de atacar minorias e até de minar o caráter de diversidade do país. Seus laços com líderes da extrema-direita também têm sido alvo de polêmicas.

Agora, seu convite ao brasileiro para que esteja ao seu lado na principal festa do país tem sido alvo de duras críticas. "Ele se perdeu ao chamar Bolsonaro, um homem que o mundo tenta ficar distante", disse Kavita Krishnan, representante da All India Progressive Women's Association, em entrevista ao HuffPost India.

A data do 26 de janeiro é, para muitos no país, uma celebração da Constituição, com seus valores de liberdade, justiça e igualdade.

Para o ativista e escritor Arjun Sethi, com sede em Washington DC, o convite de Modi para Bolsonaro "não deve vir como uma surpresa". "Ambos são embaixadores para o fascismo, autoritarismo e ideologias supremacistas que estão criando divisões no mundo", disse.

Com um sério problema de violência contra a mulher na Índia, entidades feministas espalharam pelas redes sociais traduções de frases polêmicas de Bolsonaro. Entre elas, seu ataque contra a deputada Maria do Rosário, em que o presidente diz que ela "não merecia" ser estuprada.

O grupo Feminism in India também criticou a escolha. "Jair Bolsonaro, um presidente de extrema-direita, é conhecido mundialmente pelas suas posições regressivas sobre o aborto, homossexualidade e o secularismo. Quando a Índia está tentando manter e salvaguardar alguns desses direitos humanos básicos, esse convite é uma decisão equivocada do governo. Este convite envia uma mensagem bastante inapropriada ao nosso país quando indivíduos pertencentes à minoria e às comunidades marginalizadas se sentem ameaçados pelas políticas legislativas empreendidas pelo atual governo", alertou o grupo.


Clima

Quando o anúncio do convite foi feito, em novembro, uma petição foi lançada nas redes sociais, apelando ao governo para cancelar a viagem do brasileiro. A petição foi iniciada pelo United Conservation Movement (UCM), uma entidade ambientalista, e o chamava de "ecocida e genocida".

"Ter este homem (Bolsonaro) convidado para as Celebrações do Dia da República da Índia é uma afronta aos princípios de conservação, Direitos Humanos e Justiça. Nós expressamos a condenação da decisão do governo indiano de convidá-lo para o nosso Desfile do Dia da República", declararam.

Numa nova mensagem, o grupo qualificou Bolsonaro como um "maníaco ecocida" um "ser humano patético". Nas redes sociais, os hashtags #NationalShame #NoBolsonaro #DontPolluteRepublicDay #KillerOfAmazon passaram a ser utilizados.

Os grupos Fridays For Future India e Extinction Rebellion India também tentaram convencer Modi a cancelar a visita.

"O presidente, que também é infame por sua homofobia e racismo, tem atacado os agentes da lei nos meios de comunicação mesmo antes de tomar posse. Suas políticas resultaram diretamente em ataques mortais a grupos indígenas que lutam para proteger a Amazônia", declararam.
Agricultores

Entre os agricultures indianos, a viagem de Bolsonaro também despertou protestos. O Brasil questiona na Organização Mundial do Comércio as práticas do governo indiano de subvenção aos produtores de açúcar. Para Kavitha Kuruganti da entidade Aliança para uma Agricultura Sustentável e Holística, porém, são as práticas da agricultura brasileira que ameaçam os agricultores indianos.

No final de 2019, ao saber da escolha de Modi, um dos líderes dos agricultores indianos, Badagalapura Nagendra, criticou numa coletiva de imprensa a viagem do brasileiro. "O Brasil tomou uma posição contra os interesses dos nossos produtores de cana-de-açúcar. Por que devemos convidar o presidente brasileiro para testemunhar o programa do Dia da República?", questionou.

Segundo ele, o convite a Bolsonaro seria um dos temas dos protestos que os agricultores organizaram na última semana de dezembro.

Jamil Chade