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Jamil Chade


OMS convoca reunião para determinar se declara emergência global

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

29/01/2020 12h39

Para direção da OMS, "o mundo inteiro precisa estar em alerta, preparado e tomar ações"

Um dia depois de se reunir com o presidente da China, Xi Jinping, a direção da Organização Mundial da Saúde (OMS) anuncia que está convocando os especialistas do Comitê de Emergência da entidade para determinar se deve declarar uma emergência sanitária global por conta do novo coronavírus.

A reunião ocorrerá em Genebra, nesta quinta-feira, dia 30. Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, fez o anúncio nas redes sociais e explicou que o objetivo agora é o de evitar que novos epicentros do surto possam brotar.

Mike Ryan, diretor-executivo da OMS para o programa de emergência, explicou que a convocação da reunião está baseada nas "evidências de aumento de casos e transmissão entre humanos fora da China". "A evolução do surto é de grande preocupação e levou países a agir", declarou. Segundo Ryan, 20% dos casos registrados são "severos" e, por enquanto, 2% dos afetados morreram.

"Agora, o mundo inteiro precisa estar em alerta, preparado e tomar ações", disse. Segundo ele, o risco pode vir do epicentro do surto em Whuhan ou de novos epicentros que possam surgir.

"Estamos em um momento crucial. A transmissão ainda pode ser parada. Mas precisamos nos comprometer a fazer isso", insistiu Ryan. Ele não escondeu que espera que o comitê de emergência declare medidas temporárias e ações para a comunidade global.

Por enquanto, o vírus já afetou mais de 6 mil pessoas. Outras 9 mil estão em observação na China. Os números já superam a todos os casos identificados de Sars, em 2003.

Na semana passada, a entidade manteve dois dias de reuniões de seu comitê de emergência. Mas chegou à conclusão de que seria "cedo demais" para declarara a emergência global. Naquele momento, porém, o número de mortos era de 17. Hoje, supera a marca de 130.

Mas pesa também a proliferação do vírus no exterior. Hoje, já são 16 países com casos registrados e, em alguns deles, foi registrada uma transmissão entre pessoas que sequer estiveram na China.

Nos últimos dias, a OMS já havia admitido um "erro" em sua avaliação e reclassificado o risco global para "elevado". Até o fim de semana, o termo utilizado era "risco moderado".

Antes de convocar o comitê de emergência, porém, a direção da OMS optou por viajar até Pequim e explicar aos chineses quais seriam os planos da entidade. O gesto foi considerado como "apropriado", inclusive para não dar uma sensação de que a agência estaria ignorando o poder chinês.

Há uma semana, os especialistas estavam divididos sobre a declaração de emergência. Uma forte pressão chinesa e o anúncio de isolamentos de cidades inteiras acabou abortando a ideia de uma parcela da OMS de declarar a emergência.

Se confirmada, a emergência seria apenas a sexta ocasião em que a OMS opta por tal declaração, desde a criação do sistema há pouco mais de dez anos. Uma delas ocorreu em 2016, no caso do zika vírus.

O anúncio ainda teria um impacto político importante para Xi Jinping, já questionado internamente. Com empresas aéreas suspendendo vôos, fronteiras sendo controladas, estrangeiros evacuados e milhares de lojas fechadas, o impacto do vírus sobre a economia pode ser importante.

Para os especialistas, porém, os números de casos confirmados e de mortes devem subir nos próximos dias. Isso por conta do período de incubação do vírus, de dois a quatorze dias.

Novos epicentros

Para Ryan, não há dúvidas de que "a aceleração no número de casos é preocupante". "O vírus pode evoluir ainda. Mas podemos pará-lo", insistiu.

Já Tedros admite que um dos objetivos agora é o de evitar que novos epicentros do surto apareçam, o que tornaria a luta contra o vírus ainda mais difícil. "Isso seria profundamente preocupante", disse. "Abriria-se a possibilidade de um potencial de surto bem maior", afirmou.

Para isso, a OMS insiste que também será necessário fortalecer os sistemas de saúde de países mais pobres, justamente para poder ter a capacidade de detectar casos. Um debate com o Banco Mundial já foi iniciado para avaliar a possibilidade de um financiamento. "Precisaremos de dinheiro", disse Ryan.

Sua aposta é de que, com uma declaração de emergência internacional, governos e instituições terão maior facilidade para captar esses recursos e dar uma resposta.


Política

Caso a emergência global seja declarada, o objetivo também será o de estabelecer parâmetros para medidas de controle e harmonizar as respostas dos governos pelo mundo. Ao longo dos últimos dias, cada país reagiu de uma forma diferente, evacuando seus nacionais, fechando fronteiras ou suspendendo vôos.

"Quando temos 194 países adotando medidas unilaterais, isso é uma receita para um desastre política e econômica", disse Ryan, que defende harmonizar a resposta internacional, com base em "evidências racionais".

Na OMS, a decisão de governos de retirar seus cidadãos da China não foi chancelada, enquanto Pequim vem alertando a parceiros para que não aprofundem o sentimento de pânico. Os chineses, porém, temem uma ampla repercussão política e econômica diante da crise.

Na avaliação de Tedros, todas as medidas a partir de agora precisam ser guiadas pela "ciência" a adotadas de maneira "racional".

Na OMS, apesar da pressão internacional e de críticas internas, a ordem é a de prestar todas as homenagens, elogiar explicitamente a China por suas ações e garantir que não há influência política nas decisões da entidade.

"O fato de termos apenas 68 casos no exterior é por conta das medidas que o governo chinês tomou para evitar as exportações de casos", disse Tedros. "E eles estão fazendo isso às custas de sua economia e sociedade", destacou o etíope.

"Nunca vimos a escala de resposta como existe na China, com recursos e altamente organizadas. O desafio é grande, mas a resposta tem sido impressionante", completou Ryan.

Para os países onde casos não foram identificados, a OMS pede que suspeitas sejam rapidamente identificadas, que as pessoas envolvidas sejam isoladas e que, se confirmada, o caso seja devidamente acompanhado. O objetivo, portanto, é o de limitar a cadeia de transmissão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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