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Jamil Chade


Arrependido, brasileiro que lavou US$ 60 mi escapará de pena de prisão

Michael Lauber, procurador-geral da Suíça - Reprodução
Michael Lauber, procurador-geral da Suíça Imagem: Reprodução
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

14/02/2020 07h56

Um dos principais operadores do esquema montado pelos ex-diretores da Petrobras e da Odebrecht pode não ficar um só dia na prisão. O brasileiro Bernardo Freiburghaus vai à julgamento na Suíça, no final do mês. Conforme a coluna revelou em janeiro, o processo é o primeiro a ir aos tribunais no país europeu, depois de seis anos de investigações.

Mas ele pode não permanecer detido. De acordo com documentos do Ministério Público da Suíça, ele "manifestou arrependimento sincero" e colaborou com as investigações. Sem ele, diz Berna, informações valiosas sobre a operação de corrupção envolvendo suspeitos na Lava Jato não teriam sido obtidas.

O brasileiro ainda "reconheceu os fatos e participou plenamente do processo penal, colaborando de forma ativa com o MP". Ele ainda admitiu "reconhecer erros" e afirmou estar disposto a manter colaboração com a Justiça para outros processos.

O operador havia deixado o Brasil quando a Lava Jato eclodiu. Com nacionalidade suíça, ele passou a morar em Genebra. Em 2014, ele conversou com o autor dessa coluna e negou qualquer irregularidade. Mas insistiu, apontando para o prédio de um banco, que se ele um dia fosse preso, todos naquele edifício deveriam também ser.

Como a Suíça não extradita seus nacionais, as diferentes tentativas da Justiça brasileira de levar o caso adiante não prosperaram. Um acordo foi fechado e o então juiz Sérgio Moro transferiu o caso para o Ministério Público da Suíça.

Meses depois, Freiburghaus chegou a um acordo com o MP em Berna. Ele cooperou com as investigações e admitiu ter atuado na lavagem de dinheiro. Em troca, receberá um processo abreviado. Cabe agora ao Tribunal Federal da Suíça aceitar ou não a sentença proposta pelos procuradores.

O MP em Berna pediu uma pena de prisão de 16 meses, além de uma multa de US$ 1,6 milhão, por seu envolvimento nas operações dos principais nomes da Petrobrás, entre eles Paulo Roberto Costa e Pedro Barusco.

Mas o brasileiro pode nunca ir para a prisão. Se por cinco anos ele não cometer nenhum crime, ele terá apenas de pagar a multa.

De acordo com o ato de acusação do MP, Freiburghaus administrou 21 contas para garantir o pagamento de propina no esquema da Petrobras/Odebrecht. Alguns dos bancos para os quais esse dinheiro transitou estão na mira dos suíços, que querem entender o papel de suas instituições no maior escândalo de corrupção do Brasil. No total, ele teria operado na lavagem de mais de US$ 60 milhões.

Para os procuradores suíços, Freiburghaus feriu a integridade do centro financeiro suíço. Berna ainda lamenta que o brasileiro não tenha prestado informação sobre as atividades de seus clientes, no momento em que a operação foi iniciada.

De acordo com o jornal suíço Tagesanzeiger, a pena é muito inferior ao valor provado das comissões que ele teria recebido. Segundo revelou o jornalista Christian Brönnimann, por operar para os responsáveis pelo pagamento e recebimento de propinas, o brasileiro acumulou comissões no total de US$ 2,4 milhões.

Jamil Chade