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Jamil Chade


Vírus testa pilares da Europa

Garçom contempla falta de movimento em restaurante na Praça de São Marcos, em Veneza, frente ao número de contágios de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, na Itália - Manuel Silvestri/Reuters
Garçom contempla falta de movimento em restaurante na Praça de São Marcos, em Veneza, frente ao número de contágios de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, na Itália Imagem: Manuel Silvestri/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

10/03/2020 06h52

"Onde estão todos!? Onde estão todos?!". Ao entrar num café tradicional de Genebra na manhã de terça-feira, uma senhora não deixou de se assustar diante de um cenário desolador. No lugar de ter de lutar por uma mesa, ela descobriu que o local estava praticamente vazio.

Num canto do café, eu usava o silêncio e a tranquilidade para escrever. Mas certamente aquele local não cumpria seu papel social: o de ser um ponto de encontro.

O coronavírus, apesar da polêmica sobre sua real ameaça, chacoalha a Europa e sua sociedade. Uma geração que passou a acreditar que, como uma espécie de direito de nascença, não tinha fronteiras. Uma sociedade que, a cada dia, renova um hábito dos cafés, da convivência nas ruas e da ocupação da ágora, o local público.

Por medo de processos legais ou simplesmente por proteção política contra acusações de complacência, empresas e governos passaram a recomendar o cancelamento de eventos, reuniões e aulas. Um país inteiro entrou em quarentena, com medidas inéditas desde a Segunda Guerra Mundial.

Na Itália, quem não respeitar as ordens de isolamento pode ser punido com mais isolamento: a prisão por um período de três meses. Até as gôndolas de Veneza sumiram dos canais. Conexões aéreas entre vários países e as cidades italianas foram suspensas, assim como a obrigação de devedores em pagar hipotecas neste mês.

Os danos colaterais são dos mais variados. Na França, partidos temem que o vírus impeça seus eleitores de comparecer às urnas, em duas semanas para as eleições municipais. Numa corte na Suíça, cartolas do futebol alegaram que, por terem mais de 70 anos, não deveriam ser levados a julgamento por corrupção e que o processo deveria ser adiado. Eles sabiam que seus supostos crimes cometidos em 2006 para garantir a Copa do Mundo para a Alemanha expiravam. O juiz não aceitou o argumento.

Na Itália, grupos criminosos passaram a realizar arrastões em prédios ocupados principalmente por idosos. Vestidos de "agentes sanitários", bandidos entram em residências e dizem aos habitantes que terão de limpar suas casas. Supostamente para proteger as pessoas, colocam os moradores em um local próximo, enquanto de fato esvaziam os apartamentos dos bens daquelas pessoas. E fogem.

A realidade é que o vírus abalou a forma pela qual a Europa se relaciona, viaja, comemora, trabalha, chora, torce por seus times e discute.

O impacto não poupou nenhum setor da sociedade. Ministros foram contaminados, detentos iniciaram revoltas violentas em prisões - inclusive com mortes - e economistas alertaram que o custo estimado pode atingir a marca de US$ 2 trilhões. Estudos advertem para uma recessão, enquanto governos são obrigados a apresentar pacotes de resgate.

Mas nenhum deles mede o impacto do fim do aperto de mão. A cada encontro, repete-se uma situação entre pessoas que não sabem como se dirigir a palavra sem o contato. Um sentimento de que ficou faltando algo nas palavras. Alguns fazem um aceno com a cabeça, outros lançam uma piada, outros dão um passo para longe para deixar claro que não querem o contato.

De uma forma mais ampla, coube aos governos assumir o compromisso de que, por enquanto, não haveria um fechamento de fronteiras. Mas o vírus testa a própria ideia da integração europeia.

Imediatamente após os primeiros casos, não foram poucos os partidos de extrema-direita que usaram a ameaça para alertar que estava no momento de repensar a livre circulação de pessoas e que parte da culpa era da "globalização". A ideia da proteção da nação voltava à agenda.

Ironicamente, esses eram os mesmos grupos que, no passado, alertaram contra a chegada de africanos por estarem supostamente trazendo doenças aos brancos de olhos azuis. Hoje, são esses italianos que se queixam do "olhar de suspeita" do restante da Europa.

O vírus ainda testará o que muitos acreditam ser um "exagero" de direitos para os trabalhadores. Ao longo de décadas, cidadãos acumularam benefícios sociais praticamente inéditos na história recente da Humanidade. O direito de faltar ao trabalho para cuidar de um filho doente e continuar recebendo salário. O direito de não trabalhar se houver uma ameaça real à saúde. E licenças pagas de até meio ano, além de uma renda mínima em algumas regiões.

Num momento em que quarentenas entram em vigor, são justamente essas redes de proteção que poderão servir de antídoto para evitar que a recessão se transforme em uma depressão.

Em Orã, cidade argelina, um certo escritor conta como a peste abateu-se sobre uma população que não sabia quais eram as fronteiras daquela doença, seu impacto, seu futuro. A peste exigia o isolamento completo da população de Orã. Cada um deles estava, no fundo, exilado. O exílio não como fuga, mas como separação.

Albert Camus usava a imagem de uma ameaça sanitária contra a qual não existia um tratamento óbvio para chacoalhar uma sociedade sobre a necessidade de uma insurreição de consciências.

Hoje, o efeito do coronavírus para a saúde por ser brando para a grande maioria da população e, em alguns meses, uma vacina estará nos mercados. Mas o impacto social pode despertar uma geração para entender que a conquista de suas liberdades não veio sem enormes custos e após um longo combate. A compreensão que as mesinhas nos terraços pelas calçadas e praças da Europa não são apenas hábitos. São conquistas sociais.

Talvez um despertar para a valorização do espaço público, seja como palco de protestos, festa do bairro, quermesse ou em cada momento de silêncio para lembrar os mortos da Primeira ou Segunda Guerra Mundial.

E reconhecimento de que uma rede de proteção não é um luxo. Mas exatamente o que o termo significa: uma proteção.

Jamil Chade