PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Jamil Chade


Brasil e aliados miram saída ilegal de ouro venezuelano para sufocar Maduro

14.jan.2020 - O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante discurso na Assembleia Constituinte, em Caracas - Federico Parra/AFP
14.jan.2020 - O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante discurso na Assembleia Constituinte, em Caracas Imagem: Federico Parra/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

16/03/2020 04h02

Os governos de Brasil, Estados Unidos e de aliados regionais monitoram o fluxo de dinheiro e de ouro nas fronteiras em uma tentativa de asfixiar financeiramente o regime de Nicolás Maduro, na Venezuela.

Serviços de inteligência, policiais e fiscais da região buscam congelar contas e impedir que Caracas possa contornar as sanções impostas pela Casa Branca ao comércio exterior.

De acordo com pessoas próximas às investigações, o que sempre surpreendeu os EUA foi o fato de que, apesar de todas as ações de embargo e sanções, Caracas continuou a manter uma alimentação financeira mínima para permitir que o governo se sustentasse.

Parte do resgate vem de russos e chineses, mas os serviços de inteligência da região estimam que isso não explica completamente a sobrevivência financeira do governo.

Uma das pistas é o contrabando de ouro de garimpos ilegais, usando caminhos pelo Brasil, para chegar aos mercados internacionais.

"A crescente exploração ilegal de ouro na Venezuela representa grande desafio para todos os países vizinhos, em função do transbordamento de atividades ilícitas, sobretudo no que diz respeito à lavagem de dinheiro e a graves crimes ambientais", afirmou o Itamaraty.

Tratado permite ação conjunta na região

Em outubro de 2019, os países que formam o pacto de defesa interamericano TIAR decidiram ativar o tratado com a meta de "atuar coletivamente" na crise da Venezuela.

A decisão de ativar o TIAR havia sido denunciado como um gesto ofensivo contra a Venezuela, com a suspeita que o mecanismo fosse utilizado para justificar uma invasão militar.

Desde o final de 2019, fontes que estiveram nas reuniões fechadas revelaram à coluna que os países membros do TIAR avançaram de forma importante nos trabalhos em Washington. Na agenda estava a troca de informações sobre pessoas supostamente ligadas a Maduro e empresas de fachada que serviam ao regime.

"O Tratado do Rio dá à região uma oportunidade para se adotar, finalmente, medidas corretivas", disse em dezembro John J. Sullivan, subsecretário de Estado, que representou os Estados Unidos na OEA (Organização dos Estados Americanos).

Na última reunião, há poucas semanas, uma lista de nomes de venezuelanos e aliados foi repartida entre os governos.

A ideia é de que, em cada um deles, contas e movimentações sejam rastreadas. Eventuais contas encontradas deveriam ser bloqueadas e a meta é a de se fechar o círculo para impedir que o governo possa continuar se abastecendo.

Brasil remove diplomatas da Venezuela

Band Notí­cias

Itamaraty endossa operações contra "atividades ilícitas"

Procurado, o Itamaraty explicou que os "vínculos do regime ilegítimo da Venezuela com o crime organizado internacional, grupos paramilitares armados, terrorismo e narcotráfico têm sido amplamente divulgados. O regime nem mesmo se dá ao trabalho de negar sua associação com essas atividades ilícitas", afirmou a chancelaria, por meio de um email à coluna.

Ainda segundo o Itamaraty, as resoluções do TIAR "conferem mandato para que as agências nacionais iniciem processos administrativos e criminais com vistas a sancionar pessoas vinculadas ao regime ilegítimo de Nicolás Maduro envolvidas com atividades ilícitas".

Em dezembro e depois de dois anos de investigações, a PF deflagrou uma operação contra empresários e servidores públicos suspeitos de contrabando de ouro na fronteira entre o Brasil e Venezuela. Naquele momento, a descoberta era de que uma quadrilha teria movimentado R$ 230 milhões e 1,2 tonelada de ouro da Venezuela.

A operação Hesperides — uma referência às responsáveis por cuidar do pomar onde a deusa Hera cultivava frutos de ouro — focou em três empresários venezuelanos. Mas também existiam suspeitas de que o esquema contava com a ajuda de servidores da Receita Federal, estadual e Procuradoria-Geral de Roraima.

O ouro extraído de garimpos venezuelanos cruzava a fronteira e, já em Roraima, era legalizado. Para isso, propinas eram pagas no Brasil. Mas com o ouro regularizado, ele entrava na rota legal e garantia o abastecimento de recursos. Dali, o metal era exportado.

A esperança entre os governos do TIAR é de que dados como o da PF possam alimentar as investigações fora mesmo do Brasil. Para os próximos meses, a esperança da oposição venezuelana é de que seja identificada toda a rota do ouro, assim como o mecanismo financeiro que permita que o dinheiro alimente o regime.

Guaidó pede bloqueio de europeus ao comércio com Maduro

O assunto é de especial importância para a oposição venezuelana, que aposta numa asfixia financeira do governo Maduro para poder confrontar o regime.

A pressão da oposição ainda levou Juan Guaidó, autoproclamado presidente da Venezuela, a pedir para que a Europa e a Suíça modifiquem a forma pela qual mantêm suas relações comerciais com Caracas.

A União Europeia sancionou altos funcionários e bloqueou a venda de armas, mas o ouro venezuelano não conta com qualquer tipo de sanções. Já o governo dos Estados Unidos impede o comércio do ouro do país sul-americano.

Jamil Chade