PUBLICIDADE
Topo

Em Honduras, Itamaraty sugere que brasileiros paguem para fretar avião

Brasileiros buscam maneiras de retornar ao país - Arquivo pessoal
Brasileiros buscam maneiras de retornar ao país Imagem: Arquivo pessoal
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

24/03/2020 16h18

No final de fevereiro, Lucianna Vicente da Silva, de 43 anos de Sao Paulo, saiu para uma viagem de turismo com William da Silva pela América Central. Mas quando chegaram em Honduras, a pandemia do coronavírus os deixou sem opções de retorno. O país fechou, as fronteiras foram bloqueadas e restrições foram implementadas nos aeroportos.

Começaria ali um longo drama para tentar voltar ao Brasil, o que até agora não foi possível. Nos dias que se seguiram, ela descobriu que não estavam sozinhos. Cerca de uma dúzia de brasileiros estava nessa mesma situação e um grupo foi criado para dialogar com a embaixada do Brasil no país.

O que também descobriram é que, apesar de os funcionários brasileiros serem "gentis" e tentarem dar assistência, o governo brasileiro não transformou suas promessas de ação em uma operação real para garantir o retorno das pessoas.

Em áudios enviados ao grupo de brasileiros, diplomatas brasileiros em Honduras pediam que as pessoas que estavam tentando voltar ao Brasil tivessem "paciência" e "lucidez". Num primeiro momento, foi avaliada a possibilidade de um barco ou até mesmo uma consulta com o governo americano para permitir que os brasileiros passassem pelo aeroporto americano sem visto.

Mas nada disso prosperou e a única solução proposta pela embaixada foi o frete de um avião. Segundo áudios de mensagens de telefone de diplomatas, obtidos pela coluna, o pagamento pelo aluguel da aeronave teria de ser bancado pelos brasileiros, muitos deles já com sérios problemas de liquidez.

Procurado, o governo respondeu que existe uma operação em curso para ajudar aos brasileiros no exterior. "O Itamaraty e a Embaixada do Brasil estão empenhados em tentar viabilizar, junto às autoridades e às companhias aéreas, voos excepcionais que permitam aos cidadãos brasileiros voltar para casa", indicou a chancelaria, num comunicado à coluna.

Na saga de Lucianna e William seguia. O vôo fretado sairia de Honduras para Belize. Dali, um avião de linha os levaria para Houston, nos EUA. E, do aeroporto norte-americano, outro avião de linha os conduziria ao Brasil.

De acordo com a embaixada, o avião comportava 18 pessoas e teria um custo total de US$ 7,5 mil, além de taxas. Mas nada disso seria arcado pelo governo. Caberia a cada brasileiro pagar. Quanto mais gente embarcasse, menor seria o custo para cada um deles.

Além do trajeto para Belize, o restante da passagem ainda custaria cerca de US$ 650,00 por pessoa.

Mas havia um problema: os brasileiros precisavam ter um visto para os EUA. No total, apenas cinco deles se inscreveram para o vôo, o que encarecia a passagem por cada pessoa.

Durante as conversas com a embaixada num grupo de WhatsApp criado, Lucianne pediu que uma advogada fosse incluída na conversa. Mas o Itamaraty a vetou, ainda que deixasse cada um livre para consultar a advogada.

Lucianne foi uma das brasileiras que não pode entrar no avião, por falta de visto para os EUA. Mas questiona o fato de que o custo de alugar um avião tenha recaído sobre os brasileiros.

"Se fosse depender da embaixada, já estaria na rua e com fome", disse a brasileira. Ela está num hotel onde pode comer por um preço de custo, já que todos os restaurantes estão fechados.

"Eles (do Itamaraty) dizem nas redes sociais que estão fazendo todos os esforços. Mas não é bem isso que estamos tendo", insistiu.

De acordo com ela, a embaixada não tinha sequer um carro que os pudesse levar até a fronteira antes que a passagem para a Nicaragua fosse fechada.

Ela ainda relata como telefonaram para um número dado pelo Itamaraty, no Brasil. Apesar das mensagens, apenas receberam recados automáticos.

"Na mídia, ele falam uma coisa. Mas aqui em Honduras é outra a realidade", insistiu. Lucianne também destaca como recebeu mais informações por parte de parentes em São Paulo sobre o que estava ocorrendo com seus vôos que na própria embaixada.

A chancelaria brasileira afirma que reitera "a importância de que os passageiros que já tem voo de retorno marcada ou cancelado para o Brasil informem qual a sua situação pelo formulário disponível".

"Informamos também o telefone de contato do Grupo Especial de Crise para assuntos consulares e migratórios (G-CON), cujo número para casos na América do Norte, América Central e Caribe: +55 61 98260-0610", completou o Itamaraty.

Coronavírus