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Jamil Chade


PSOL pede que PGR abra inquérito contra Weintraub por racismo

Abraham Weintraub e Jair Bolsonaro sentados lado a lado - Pedro Ladeira/Folhapress
Abraham Weintraub e Jair Bolsonaro sentados lado a lado Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

06/04/2020 20h06

Os deputados da bancada do PSOL submeteram uma representação à Procuradoria-Geral da República contra o ministro da Educação, Abraham Weintraub, por racismo. O grupo pede a instauração de inquérito administrativo, civil e criminal.

O motivo seria as postagens de cunho racista e xenófobo em sua conta no twitter. "No sábado (04/04), o ministro utilizou uma imagem de Cebolinha, da Turma da Mônica, na Muralha da China e publicou um texto em que substituindo o "R" pelo "L", aludindo ao modo de falar do personagem para caricaturizar de modo ridicularizante de origem ou ascendência chinesas cuja pronúncia de certos fonemas da língua portuguesa pode, eventualmente, se dar de forma diferente", disseram os deputados.

"Referendando essa conhecida forma de manifestação racista contra asiáticos no Brasil, o Sr. Abraham Weintraub escreveu: "Geopoliticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?".

A Embaixada da China no Brasil respondeu aos comentários do Ministro da Educação em sua conta no twitter, afirmando que suas postagens têm "cunho fortemente racista", causando "influências negativas" nas relações bilaterais entre os dois países. O governo chinês pediu ainda a "alguns indivíduos do Brasil" a pararem com acusações infundadas.

O ministro removeu a publicação a pedido de um amigo. E explicou que "falar que eu sou racista é uma acusação que, se fosse um brasileiro, ia ter que provar na Justiça". O chefe da pasta ainda condicionou um pedido de desculpas à entrega de respiradores.


Para os parlamentares, além de propagar o racismo e xenofobia contra chineses e seus descendentes, e contribuir com a desinformação acerca do novo coronavírus, "o ministro da Educação do Brasil também ofende e desafia a República Popular da China, parceiro comercial fundamental do Brasil, e ameaça a boa relação e a cooperação entre os países, fundamentais para minorar as dificuldades apresentadas no combate à propagação da Covid-19".

O ministro "parece somar esforços com o presidente dos Estados Unidos da América (EUA) Donald Trump, que insiste em se referir ao novo coronavírus como "vírus chinês", ignorando as determinações da OMS sobre a nomenclatura da doença e seus apelos contra declarações e medidas que estimulem o racismo e a xenofobia no contexto da pandemia".

"Faz coro também às lamentáveis iniciativas do deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da república, que há duas semanas causou um incidente diplomático ao acusar a China de ser responsável pela pandemia em suas redes sociais", apontou.

Entre as violações, o grupo aponta para a Constituição Federal e os Tratados Internacionais de Direitos Humanos. E lembram que a prática do racismo constitui crime inafiançável e que lei prevê a reclusão de dois a cinco anos e multa.

"É inaceitável, no Estado Democrático de Direito, que o racismo seja proclamado, abertamente, nas redes sociais de um Ministro de Estado", alertaram.

"Certamente, tal fato merece o repúdio de todos aqueles que acreditam nos princípios constitucionais que norteiam a sociedade brasileira, notadamente, o repúdio a todas as formas de discriminação e preconceito, princípios que guiam a Constituição Federal de 1988", disseram.

"Obviamente, a liberdade de expressão não é um direito ilimitado, devendo respeitar outros direitos previstos na Constituição Federal. Dessa forma, a liberdade de se expressar não pode se confundir com o discurso de ódio, o incentivo à violência e a reprodução de preconceitos sociais, raciais, étnicos e de gênero", apontaram.

"A publicação do representado em sua conta no twitter, além da configuração de crime, expressam uma clara afronta aos princípios sensíveis da Constituição Federal e aos Tratados Internacionais de Direitos Humanos ratificados pelo Brasil", escreveram.

Além do inquérito, os parlamentares querem indenização a ser paga pelo ministro. O dinheiro seria revertido para organizações de direitos humanos de acolhimento aos imigrantes. O documento é assinado pelos deputados Edmilson Rodrigues, Ivan Valente, Áurea Carolina, Marcelo Freixo, Talíria Petrone, Glauber Braga, Fernanda Melchionna, David Miranda, Luiza Erundina e Sâmia Bomfim.

Jamil Chade