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Jamil Chade


Trump usa pandemia para chantagear o sistema multilateral

Presidente dos EUA, Donald Trump, e presidente Jair Bolsonaro em encontro na Flórida - TOM BRENNER
Presidente dos EUA, Donald Trump, e presidente Jair Bolsonaro em encontro na Flórida Imagem: TOM BRENNER
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

07/04/2020 20h05

A decisão do governo de Donald Trump de ameaçar suspender a transferência de suas contribuições para a Organização Mundial da Saúde, em um momento inédito de pandemia, revela que a Casa Branca está transformando a crise sanitária em uma guerra por influência e instrumentalizando a situação para chantagear o sistema multilateral.

O governo americano é o maior responsável pelo orçamento da OMS e uma interrupção significaria a paralisia de uma enorme parcela de seu trabalho. Os pagamentos, em parte, não são atos voluntários. Mas uma obrigação que cada país assume diante de seu peso na economia mundial.

De acordo com o Departamento de Estado norte-americano, Washington destinou US$ 444 milhões para a OMS em 2019.

Ao anunciar a ameaça de suspensão de pagamentos, Trump alegou que a instituição que pilota a resposta global ao coronavírus seria pró-China e que teria errado em diversas oportunidades. Numa só frase, Trump coloca em xeque a credibilidade do multilateralismo e indica que não deixará o cenário internacional livre para uma ofensiva diplomática chinesa.

No meio diplomático, o anúncio de Trump foi recebido com surpresa. Já era madrugada na sede da entidade, em Genebra, quando telefonemas passaram a ser disparados entre a cúpula da entidade para tentar entender o que ocorria.

Uma das interpretações é de que Washington cobrará um posicionamento da OMS mais distante da China. Mas a chantagem vinda de Washington caiu como uma bomba na sede da entidade.

A data escolhida pelo golpe de Trump não é por acaso. O dia 7 de abril é o dia do aniversário da OMS e a data em que a ONU comemora como Dia Mundial da Saúde.

O comportamento de Trump em relação à agência de Saúde não é muito deferente do posicionamento brasileiro. Em recente entrevista, o chanceler Ernesto Araújo deixou claro que a OMS não poderia assumir um papel de liderança sobre os estados e que a resposta à pandemia deveria ser tomada por decisões soberanas.

O posicionamento faz parte de uma ofensiva do governo brasileiro de lutar contra o que chama de "globalismo". Para dezenas de líderes estrangeiros, porém, a crise prova que o mundo precisa de uma coordenação global.

Ao anunciar sua decisão, Trump ainda citou como a OMS está sendo criticada nas redes sociais. Um dos que passou a frequentar as redes sociais para criticar a China foi Eduardo Bolsonaro, ecoando o posicionamento da Casa Branca.

Contradições

O próprio anuncio de suspensão de pagamentos foi marcado por contradições. Instantes depois de dizer que iria "segurar" o dinheiro, Trump explicou que ele iria "avaliar" segurar o dinheiro.

Numa tentativa clara de encontrar um culpado, ele culpou a OMS pela crise e apoiou que a entidade deveria ter declarado a pandemia "meses antes".

Foi ele, porém, quem passou semanas minimizando a crise, mesmo depois de a OMS ter declarado a pandemia.

Jamil Chade