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Jamil Chade


Criticada pelo vírus, China insinua retaliações e crise pode atingir JBS

Unidade de processamento de carne suína em Huaian, China - CHINA DAILY
Unidade de processamento de carne suína em Huaian, China Imagem: CHINA DAILY
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

11/05/2020 19h37

A crise envolvendo a gestão da pandemia por parte da China pode acabar afetando a gigante JBS, empresa estabelecida no país da Oceania justamente para fornecer o produto ao mercado asiático. Negociadores temem que Pequim adote medidas de retaliação em resposta à decisão do governo australiano de pedir uma investigação internacional sobre a forma pela qual Pequim lidou com a Covid-19.

No Brasil, exportadores acompanham com atenção a situação entre australianos e chineses. O temor é de que o comportamento do governo brasileiro de tecer críticas contra a China se traduza também em um fechamento do mercado de Pequim aos produtos nacionais.

Procurada, a JBS optou por não comentar a situação. Fontes próximas às negociações comerciais confirmaram que a empresa originalmente brasileira seria potencialmente uma das afetadas. Mas o motivo não teria qualquer relação com a questão sanitária e, de fato, a decisão teria uma "motivação política".

De acordo com a consultoria AgroFatto, a suspensão das compras por parte da China já teria até mesmo definida pela Administração Alfandegária da China. A coluna não conseguiu contato com as autoridades chinesas para esclarecer se a medida já estava em vigor ou se era ainda apenas uma ameaça.

Nas últimas semanas, o governo australiano tem repetido o mantra de Donald Trump, de acusar a China pela crise mundial. O Brasil, em março, adotou um tom similar, com Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, elevando o tom. Em reuniões fechadas, o chanceler Ernesto Araújo tem também tecido críticas aos chineses e, em público, vem repetindo o temor de que a nova ordem mundial que será formada pós-pandemia seja dominada pelo comunismo.

O embaixador da China na Austrália, Jingye Cheng, chegou a ameaçar uma retaliação, que viria ainda na forma da queda das compras de produtos como carnes e vinho, além da redução do turismo chinês para o país da Oceania.

"O público chinês está frustrado e desapontado com o que a Austrália está fazendo", disse Jingye ao jornal Australian Financial Review. "Talvez as pessoas vão se perguntar por qual motivo deveriam beber vinho australiano ou comer a carne australiana?", disse.

O tom do embaixador foi interpretado como uma ameaça pelo governo australiano, que havia pedido uma investigação internacional sobre a origem da Covid-19. A Austrália também quer uma reformulação da OMS diante de sua gestão da pandemia.

Simon Birmingham, chefe da Pasta de Comércio da Austrália, insistiu que o seu governo não iria mudar de postura em temas de Saúde. A acusação do país é de que, ao abafar casos, a China impediu que o mundo se preparasse de forma adequada para a pandemia.

Nos últimos dez anos, porém, a Austrália aumentou suas exportações para a China em 60 vezes no setor de carnes, se transformando em um dos maiores fornecedores. Em 2019, foram 206 mil toneladas exportadas apenas de carne bovina.

Jamil Chade